Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I28 materiais137 seguidores
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ponderáveis, consistentes de opinião em um sentido e de 
opinião em outro sentido. 
Eu, também, tentei evitar dizer que as células-tronco 
embrionárias são mais promissoras para a Medicina do que as 
células-tronco adultas, porque também há opiniões ponderáveis nos 
dois sentidos. 
Recentemente, um dos vencedores do prêmio Nobel de 
Medicina e Fisiologia, aqui, no Brasil, Oliver Smithies, prestou 
depoimentos dizendo que o debate sobre o uso de células-tronco 
embrionárias humanas, em pesquisa, tomou o rumo errado. Ou seja, uma 
coisa não inviabiliza a outra. As duas são pesquisas válidas e podem 
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
ADI 3.510 / DF 
caminhar pari passu. Falou sobre o Supremo Tribunal Federal, dizendo 
o seguinte: 
"Gostaria que o Supremo Tribunal Federal 
pensasse em células-tronco de modo diferente. Imagine 
que eu seja um jovem morto num acidente de carro. Há 
partes do meu corpo que ainda são úteis e podem ser 
dadas a outras pessoas para manter suas vidas. Então, 
parte de mim vive em outra pessoa. Se uma célula-
-tronco embrionária é feita para terapia, aquele 
embrião não é morto, " - vale dizer, não há destruição 
- "aquele embrião dá vida a outra pessoa." 
Quer dizer, é um prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia 
deixando claro que o que se chama de destruição do embrião não é 
senão, em verdade, o resgate de uma perspectiva de vida em uma 
terceira pessoa, dentro de uma filosofia rigorosamente fraternal ou 
solidária. Se aquele embrião não tem a menor chance de entrar no 
útero feminino - não é redundante dizer isso -, que ele seja 
aproveitado para outros fins de terapia e assim servir à humanidade. 
O que se extrai dessas iniciais considerações é o 
seguinte: a Constituição, no art. 1º, inciso III, fala, sim, de 
dignidade da pessoa humana, mas ela já se autoexplica: dignidade da 
pessoa ou de um ser dotado de personalidade, porque só a pessoa 
humana detém personalidade. A personalidade é um atributo da pessoa 
humana. 
Quando a Constituição, no art. 5a, fala "Dos Direitos 
e Garantias Fundamentais", inclusive da vida, diz que assegura tais 
direitos "aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País". 
ADI 3.510 / DF 
Ora, a toda evidência, um embrião não é um brasileiro. Ele não tem 
nacionalidade. E, enquanto permanecer ali in vitro, fora do útero 
materno, sem possibilidade de nidação, ele jamais vai ganhar uma 
nacionalidade. Também não é um estrangeiro. Esta categoria de 
brasileiro e de estrangeiro como condição para gozo "Dos Direitos e 
Garantias Fundamentais", essa condição, para o embrião, é um 
indiferente jurídico. 0 embrião jamais vai alcançar o status de 
brasileiro ou de estrangeiro. Para que o embrião tenha direito à 
vida, nos termos da Constituição, é preciso reconhecer a ele o 
direito a um útero. E o embrião tem direito a um útero? Claro que 
não! Eu estou falando do embrião in vitro, daquele embrião produzido 
sem ato sexual, sem acasalamento, sem conúbio, que não é produzido 
pela natureza, mas produzido pelo homem. Não é só a natureza que 
produz o homem; o homem produz cientificamente o homem. Quer dizer, 
é um embrião que não saiu de nenhuma mulher. O que saiu do corpo da 
mulher foi um singelo óvulo desfecundado até então. Não saiu de 
nenhum homem também. 0 que saiu do homem foi um jato, um jorro de 
espermatozóides. Esse embrião in vitro jamais entrará - nos termos 
da lei - no corpo de uma mulher. Nem saiu do corpo feminino, nem vai 
entrar. Não há nidação; não há gravidez; não há maternidade no 
sentido que eu expus; não há cérebro. 
É isso o que está causando perplexidade aos juristas 
de uma maneira geral. É que nós estamos lidando com uma realidade 
ADI 3.510 / DP 
absolutamente insimilar. É um embrião que não corresponde jamais ao 
conceito de nascituro. Não há nascituro, muito menos alma. É de se 
supor que a alma vem ao mundo para cumprir uma função e ela é 
inteligente o suficiente para não ficar confinada em um vidrinho, 
sob a forma de embrião. 
De maneira que, à luz da Constituição, a vida não pode 
começar senão por um embrião e que o embrião humano é, portanto, o 
início de toda a vida. Daí não se pode derivar, extrair o raciocínio 
de que embrião é pessoa humana. Ele é um bem a proteger 
juridicamente. É um interesse juridicamente protegido, mas, à luz da 
Constituição, não é uma pessoa. Até porque, Senhor Presidente, nos 
trabalhos constituintes, houve três propostas para se proteger o 
embrião, para se proteger o ser humano desde a concepção: uma 
proposta da então Deputada Rita Camata; do então Deputado Carlos 
Virgílio ; e da então Deputada Sandra Cavalcanti, nos capítulos "Da 
Saúde" e "Da Família". Todas as três propostas foram rejeitadas. A 
Comissão de Constituição e Justiça remeteu o tema para a lei 
ordinária. 
0 Código Civil diz, efetivamente, que "a personalidade 
civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a 
salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro" (art. 2º do 
Código Civil). Ora, sem o ímã do útero, sem a vis atrativa do útero, 
ADI 3.510 / DF 
sem o húmus do útero, não há nascituro. Não há como alguém nascer do 
lado de fora dessa entidade mágica que é o útero humano. Feminino. 
Então, derivar do raciocínio de que não há vida humana 
que não comece pelo embrião a afirmativa de que o embrião já é uma 
pessoa não procede. Não é correto. Não se pode confundir embrião de 
pessoa com pessoa embrionária. Não existe pessoa embrionária, mas 
simples embrião de pessoa humana. Não incorramos na falácia indutiva 
de que falava David Hume, ou seja, as premissas não autorizam a 
conclusão. 
Depois, a Constituição, no art. 6o, faz da saúde um 
direito fundamental. E nós sabemos quantos cadeirantes estão à 
espera das pesquisas com células-tronco embrionárias e sabemos o que 
significa o Supremo Tribunal Federal cortar toda essa expectativa, 
esse alento, ainda que a eficácia do tratamento só ocorra daqui a 
cinco, seis, sete, oito anos, não interessa. É preciso recomeçar o 
processo que foi estancado há três anos. E a saúde é um direito 
fundamental que está no art. 6a da Constituição. Não pode esperar. 
Mas não é só. A Constituição também, no art. 5a, 
inciso IX, diz: 
"é livre a expressão da atividade intelectual, 
artística, científica e de comunicação"(...) 
Ou seja, a inviolabilidade não é para o embrião ia 
vitro, mas para a atividade científica em si. Aliás, a Constituição 
ADI 3.510 / DF 
prestigia tanto a liberdade acadêmica, a liberdade de cátedra, a 
liberdade de pesquisa, a liberdade científica, enfim, que abriu todo 
um capítulo com o nome de "Da Ciência e Tecnologia". 
Como se não bastasse isso. Senhor Presidente. Olha, 
não estou falando de filosofia nem teologia, nem de ciência pura, 
nem de pesquisa básica, estou falando da Constituição brasileira. 
Estou desfilando pela passarela da Constituição, de ponta a ponta, 
para, na Constituição, buscar os fundamentos de meu voto, porque, 
como disse a ministra Ellen Gracie, no seu luminoso voto na primeira 
assentada, o que nos cabe é dar uma resposta jurídica constitucional 
para a questão que nos é posta. Porque, no plano do direito, não 
devemos nos perder no infinito das discussões. Há um ponto de 
partida e há um ponto de chegada. A Constituição diz no art. 226, § 
7°, com todas as letras, em alto e bom som: 
"Fundado nos princípios da dignidade da pessoa 
humana". 
Agora, sim, a Constituição diz dignidade da pessoa 
humana. Não é por ilação ; não é por abstração ; não é por uma 
construção cerebrina; estou lendo o texto: 
"e da paternidade responsável o planejamento 
familiar é livre decisão do casal". 
ADI 3.510 / DF 
Ou seja, a dignidade da pessoa humana também se 
manifesta na liberdade decisório-familiar. Planejar o número de 
filhos, a quantidade de filhos, a possibilidade de assisti-los 
afetiva e materialmente, tudo isso é matéria regrada pela 
Constituição com este emblemático nome de "paternidade