Jurisprudência Nascituro (3)
526 pág.

Jurisprudência Nascituro (3)


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I28 materiais137 seguidores
Pré-visualização50 páginas
para se dar ao 
viver digno. Não se há falar apenas em dignidade da vida para a célula-
tronco embrionária, substância humana que, no caso em foco, não será 
transformada em vida, sem igual resguardo e respeito àquele princípio aos 
que buscam, precisam e contam com novos saberes, legítimos saberes para a 
possibilidade de melhor viver ou até mesmo de apenas viver. Possibilitar 
que alguém tenha esperança e possa lutar para viver compõe a dignidade da 
vida daquele que se compromete com o princípio em sua largueza maior, com 
a existência digna para a espécie humana. 
14. Preceituam os arts. 5º, inc. IX, e 218, da Constituição 
brasileira: 
 
\u201cArt. 5º - ... 
IX. é livre a expressão da atividade intelectual, artística, 
científica e de comunicação, independentemente de censura ou 
licença;...\u201d 
\u201cArt. 218. O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento 
científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas. 
§ 1º - A pesquisa científica básica receberá tratamento 
prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso 
das ciências\u201d. 
A liberdade de expressão da atividade intelectual e científica é 
considerada um dos fundamentos constitucionais do art. 5º, da Lei n. 
11.105/05. Bem assim o desenvolvimento científico e a pesquisa que podem 
servir à melhoria das condições de vida para todos. A compatibilização de 
tais regras com os princípios magnos do sistema, aí assegurada, sempre e 
em todo e qualquer caso a dignidade humana, dota-as do necessário 
fundamento constitucional, de modo a não se reconhecer nelas qualquer eiva 
a inválidá-las. 
Supremo Tribunal Federal
Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
342
 
 
ADI 3.510 / DF 
 
18 
Não há violação do direito à vida na garantia da pesquisa com 
células-tronco embrionárias, menos ainda porque o cuidado legislativo 
deixou ao pesquisador e, quando vier a ser o caso, ao cientista ou ao 
médico responsável pelo tratamento com o que da pesquisa advier, a 
exclusiva utilização de células-tronco embrionárias inviáveis ou 
congeladas há mais de três anos. Se elas não se dão a viver, porque não 
serão objeto de implantação no útero materno, ou por inviáveis ou por 
terem sido congeladas além do tempo previsto na norma legal, não há que se 
falar nem em vida, nem em direito que pudesse ser violado. 
Liberdade de pesquisa com células-tronco embrionárias e o direito à vida 
14. Alguns dos amici curiae fazem a defesa da tese de 
inconstitucionalidade das normas questionadas pelo Procurador-Geral da 
República, com base no art. 4º do Pacto de São José de Costa Rica \u2013 
tratado de direitos humanos firmado pelo Brasil \u2013, segundo o qual \u201cArtigo 
4º - Direito à vida 1. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua 
vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o 
momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.\u201d 
Se de um lado é garantido o direito à vida \u2013 e para os defensores da 
tese sustentada na peça inicial desta ação haverá inconstitucionalidade 
nas normas questionadas exatamente porque essa garantia vale desde a 
concepção e o embrião já seria vida garantida em sua inviolabilidade e não 
poderia, então, ser destruído -, de outro lado aquela norma pactuada 
internacionalmente há de receber interpretação a partir de todos os seus 
termos, nos quais se contém proibição de que alguém possa dela ser privado 
arbitrariamente. 
Dá-se que a lei e o arbítrio são incompossíveis e, no caso agora 
analisado, não se cuida do segundo \u2013 arbítrio - exatamente porque os 
termos da norma legal apreciada firmam o sentido contrário a abuso levado 
a efeito pela pesquisa com os embriões. Nem se há de afirmar que haveria 
arbítrio no aproveitamento de células-tronco embrionárias, porque ali se 
tem uma substância humana, que se propõe seja utilizada para a 
Supremo Tribunal Federal
Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
343
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
 
 
ADI 3.510 / DF 
 
19 
dignificação da vida daqueles que se podem ver tratados com os 
procedimentos a que podem dar ensejo as pesquisas feitas. 
A sua utilização conforma-se aos cuidados e condições definidas na 
lei, pelo que de arbítrio não se há de falar aqui. O embasamento 
constitucional, neste caso, parece incontestável. 
15. Dispõe o art. 199, § 4º, da Constituição brasileira: 
\u201cArt. 199 - ... 
§ 4º - A lei disporá sobre as condições e os requisitos que 
facilitem a remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para 
fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, 
processamento e transfusão de sangue e seus derivados, sendo vedado 
todo tipo de comercialização.\u201d 
 
 A célula-tronco embrionária, mencionada na Lei n. 11.105/2005, tem 
exatamente a natureza de substância humana. Logo, não apenas não haveria 
incompatibilidade entre a norma constitucional e a norma legal 
questionada, como ainda se poderia afirmar que a lei cuida de um fator 
humano que não mais pode ser utilizado para os fins a que inicialmente ele 
se destinou, pois os incisos I e II do art. 5º daquele diploma legal 
estabelecem que será permitido pesquisa e terapia com células-tronco 
embrionárias inviáveis ou congeladas no período legalmente assinalado. O 
período de três anos de congelamento, registre-se, é aquele que determina 
um marco após o qual a viabilidade do procedimento de implante da célula-
tronco embrionária torna-se pequena. As clínicas de reprodução assistida 
dispõem de estatísticas, apresentadas em trabalhos divulgados 
cientificamente, a comprovar que, após o triênio, a chance de o embrião 
se viabilizar é baixa. Apesar de congelado, as membranas tendem a oxidar-
se, não lhes garantindo o resultado desejado. 
 
A substância humana aqui considerada consiste no que se denominou 
embrião, ou célula-tronco embrionária, que tem origem após a fecundação de 
um óvulo por um espermatozóide com a formação da célula ovo, que contém em 
Supremo Tribunal Federal
Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622
Jacqueline.Sousa
Texto digitado
344
 
 
ADI 3.510 / DF 
 
20 
seu núcleo 46 cromossomos, sendo 23 originários do espermatozóide e os 
outros 23 do óvulo. Essa célula, substância genética, é resultado da 
junção de outras duas células humanas e tem a finalidade de gerar todos os 
tecidos de um indivíduo adulto devido a sua pluripotencialidade. 
 
 Nessa condição, resultado do que acima asseverado, pode-se dizer que 
essa matriz humana há ser tida como uma das substâncias humanas que a 
Constituição permite possam ser manipuladas com vistas ao progresso 
científico da humanidade e à melhoria da qualidade de vida dos povos, 
respeitados, como é óbvio, os demais princípios constitucionais afirmados 
e que se compatibilizam com o quanto posto naquela norma constitucional. 
 
 O art. 225, § 1º, inc. II, da Constituição brasileira estabelece o 
princípio da solidariedade entre as gerações, como forma de garantir a 
dignidade da existência humana, quer dizer, não apenas a dignidade do 
vivente (agora), mas a dignidade do viver e a possibilidade de tal 
condição perseverar para quem vier depois. 
 
 Reza aquele artigo: