Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

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improcedente a ação direta, pediu vista dos autos o Senhor
Ministro Menezes Direito. Falaram: pelo Ministério Público Federal,
o Procurador-Geral da República, Dr. Antônio Fernando Barros e Silva
de Souza; pelo amicus curiae Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil - CNBB, o Professor Ives Gandra da Silva Martins; pela
Advocacia-Geral da União, o Ministro José Antônio Dias Toffoli; pelo
requerido, Congresso Nacional, o Dr. Leonardo Mundim; pelos amici
curiae Conectas Direitos Humanos e Centro de Direitos Humanos - CDH,
o Dr. Oscar Vilhena Vieira e, pelos amici curiae Movimento em Prol
da Vida - MOVITAE e ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e
Gênero, o Professor Luís Roberto Barroso. Plenário, 05.03.2008.

Presidência da Senhora Ministra Ellen Gracie.
Presentes à sessão os Senhores Ministros Celso de Mello, Marco
Aurélio, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim
Barbosa, Eros Grau, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia e Menezes
Direito.

Procurador-Geral da República, Dr. Antônio Fernando
Barros e Silva de Souza.

Luiz Tomimatsu
Secretário

28/05/2008 TRIBUNAL PLENO

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3.51041 DISTRITO FEDERAL

VOTO - VISTA

O EXMO. SR. MINISTRO MENEZES DIREITO:
Ao pedir vista deste processo para melhor estudar e refletir sobre tema

da mais alta relevância para a vida nacional, como é de praxe nesta Suprema Corte,
lendo e ouvindo tudo quanto se disse em seguida, na melhor expressão de nossa
sociedade plural, lembrei-me de Arthur Schopenhauer. Nascido em 1788, no mesmo
ano que Kant escreveu a sua fundamental Crítica da Razão Prática, o filósofo de
Dantzig ensinou.

"Pois o que alguém é para si mesmo, o que o acompanha
na solidão e ninguém lhe pode dar ou retirar, é manifestamente para ele
mais essencial que tudo quanto puder possuir ou ser aos olhos dos
outros" (Aforismos para a sabedoria da vida. São Paulo, Martins
Fontes, 2002. págs. 8/9).

Tenho certeza de que é esse o sentimento dos Juízes desta Suprema
Corte do Brasil neste e em todos os feitos que são submetidos ao seu julgamento.

Trata-se de Ação Direta ajuizada pelo Procurador-Geral da República
apontando a inconstitucionalidade do art. 5o, caput e parágrafos, da Lei n° 11.105, de
24 de março de 2005, que tem a redação que se segue:

"Art. 5e É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a
utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos
produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo
procedimento, atendidas as seguintes condições:

I - sejam embriões inviáveis; ou
II - sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais,

na data da publicação desta Lei, ou que, já congelados na data da
publicação desta Lei, depois de completarem 3 (três) anos, contados a
partir da data de congelamento.

ADI 3.510/DF
§ 1- Em qualquer caso, é necessário o consentimento dos

genitores.
§ 2º instituições de pesquisa e serviços de saúde que

realizem pesquisa ou terapia com células-tronco embrionárias humanas
deverão submeter seus projetos à apreciação e aprovação dos
respectivos comitês de ética em pesquisa.

§ 3º É vedada a comercialização do material biológico a
que se refere este artigo e sua prática implica o crime tipificado no art.
15 da Lei n0 9.434. de 4 de fevereiro de 1997."

Sustenta que violariam o disposto nos arts. 1o e 5o da Constituição da
República, notadamente as garantias da inviolabilidade do direito à vida e à dignidade
da pessoa humana, com a redação a seguir transcrita:

"Art. 1o A República Federativa do Brasil, formada pela
união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal,
constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
( • • ) " ;

"Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (...)".

O núcleo da impugnação é a afirmação de que "a vida humana acontece
na, e a partir da, fecundação" (fl. 3) e que, portanto, a utilização do embrião para
retirada de células-tronco, com sua conseqüente destruição, importaria na violação do
direito à vida.

Questiona, ainda, a importância das pesquisas com células-tronco
embrionárias, diante dos "avanços muito mais promissores da pesquisa científica com
células-tronco adultas, do que com embrionárias", e solicita a designação de audiência
pública para oitiva de especialistas que apresenta.

Manifestaram-se nos autos o Senhor Presidente da República, por meio
da Advocacia-Geral da União, o Congresso Nacional e a Procuradoria-Geral da

ADI 3.510 /DF

República. Também foram recebidas as manifestações das seguintes entidades, todas
admitidas como amici curiae: CONECTAS - Direitos Humanos; Centro de Direitos
Humanos - CDH; Movimento em Prol da Vida - MOVITAE; ANIS - Instituto de
Bioética, Direitos Humanos e Gênero e CNBB - Confederação Nacional dos Bispos do
Brasil.

Atendendo à sugestão formulada pela Procuradoria-Geral da República,
o eminente Ministro Carlos Britto, Relator, convocou uma audiência pública (fls.
448/449), designada para o dia 20/4/2007, que contou com a participação de diversos
especialistas no tema tratado nesta ação, indicados pela autora e pelos defensores da
lei.

Em sua manifestação (fls. 82 a 115), o Senhor Presidente da República
sustenta que o caso requer uma interpretação própria para o termo "vida" na
Constituição, destacada de sua conceituação biológica, antropológica, religiosa, física,
química ou médica, fazendo alusão ao caso julgado no HC n° 82.424 em que se
interpretou o vocábulo "raça" de forma diversa de sua acepção científica.

Em seguida, menciona a situação do nascituro, que, segundo
Washington de Barros Monteiro, seria mera pessoa em potencial, mas distinto do
embrião que não esteja implantado no ventre materno que "não pode ser tido como um
fato futuro e certo". Compara também a cessação da vida na morte cerebral com a
ausência dessa atividade no embrião, para concluir que "não comporta debater,
também, se existe ou não vida humana a ser protegida pelo Direito nos embriões, uma
vez que a tutela jurídica pátria, como visto, recai sobre a vida da pessoa humana".

Quanto à dignidade da pessoa humana, afirma que:

"(...) a própria terminologia empregada no principio afasta,
per si, a possibilidade do enquadramento almejado. Veja-se.

O princípio da dignidade da pessoa humana protege,
inquestionavelmente, o ser humano enquanto considerado como pessoa
humana, ou seja, o ser humano detentor de personalidade jurídica."

Cuida, ainda, da natureza do embrião como pessoa em potencial, cujo

ADI 3.510/DF

estatuto jurídico deve distinguir-se daquele baseado na personalidade, e da
potencialidade das pesquisas com células-tronco, pedindo o reconhecimento da
constitucionalidade da Lei.

Por sua vez, o Congresso Nacional (fls. 222 a 245) defendeu a
constitucionalidade da lei, destacando os seguintes pontos: (i) a possibilidade de que
os direitos constitucionais sejam conformados pelo legislador, não sendo diferente o
caso do direito à vida, citando o art. 128 do Código Penal; e (ii) a autorização, por parte
do Estado, para uso de técnicas de eliminação do embrião antes da ocorrência da
nidação, representada nos atos que disciplinam o uso do DIU (Dispositivo Intra-Uterino)
e da "Pílula do Dia Seguinte". Descreveu o que é atualmente feito com embriões e a
superioridade das células-tronco embrionárias, para as pesquisas terapêuticas, em
relação às células-tronco adultas.

Em sentido contrário, a Procuradoría-Geral da República, reforçando os
argumentos da inicial, ofereceu parecer (fls. 357 a 380) com a ementa que se segue:

"Ementa:
1. O conceito jurídico do início da vida não se esgota no

campo do direito civil.
2. O direito civil, parte do sistema