Jurisprudência Nascituro (3)
526 pág.

Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
Pré-visualização50 páginas
(o ser das coisas é o
movimento, assentou Heráclito), mas sem a menor possibilidade de
caminhar na transformadora direção de uma pessoa natural"

(xvii) sobre, mais uma vez, a utilidade da solução dada pela Lei ao
embrião de que trata, na seqüência do número 58:

"A única trilha que se lhe abre é a do desperdicio do seu
acreditado poder de recuperar a saúde e até salvar a vida de pessoas,
agora sim, tão cerebradas quanto em carne e ossor músculos, sangue,
nervos e cartilagens, a repartir com familiares, médicos e amigos as
limitações, dores e desesperanças de uma vida que muitas vezes tem
tudo para ser venturosa e que não é. Donde a inevitabilidade da
conclusão de que a escolha feita pela Lei de Biossegurança não
significou um desprezo ou desapreço pelo embrião in vitro, menos ainda
um frio assassinato, porém u'a mais firme disposição para encurtar
caminhos que possam levar à superação do infortúnio alheio. Um
olhar mais atento para os explícitos dizeres de um ordenamento
constitucional que desde o seu preâmbulo qualifica 'a liberdade, a
segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça'
como valores supremos de uma sociedade mais que tudo 'fraterna'. O
que já significa incorporar às imperecíveis conquistas do
constitucionalismo liberal e social o advento do constitucionalismo
fraternal, tendo por finalidade específica ou valor fundante a integração
comunitária. Que é vida em comunidade (de comum unidade), a
traduzir verdadeira comunhão de vida ou vida social em clima de

ADI 3.510/DF
transbordante solidariedade. Trajetória do Constitucionalismo que bem
se retrata no inciso I do art. 3o da nossa Constituição, verbis: 'Art. 3°.
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I
- construir uma sociedade livre, justa e solidária' (...)".

(xviii) sobre o direito de expressão dos cientistas através das
pesquisas e o respectivo incentivo público:

"62. (...) Sendo de todo importante pontuar que o termo
'ciência', já agora por qualquer de suas modalidades e enquanto
atividade individual, também faz parte do catálogo dos direitos
fundamentais da pessoa humana. Confira-se:

'Art. 5o.
(...)
IX - é livre a expressão da atividade

intelectual, artística, científica e de comunicação'.

63. E aqui devo pontuar que essa liberdade de expressão
é clássico direito constitucional-civil ou genuíno direito de personalidade,
oponível sobretudo ao próprio Estado, por corresponder à vocação de
certas pessoas para qualquer das quatro atividades listadas. Vocação
para misteres a um só tempo qualificadores do indivíduo e de toda a
coletividade. Por isso que exigentes do máximo de proteção jurídica, até
como signo de vida em comum civilizada. Alto padrão de cultura jurídica
de um povo.

(...)

65. Tão qualificadora do indivíduo e da sociedade é essa
vocação para os misteres da Ciência que a Constituição mesma abre
todo um destacado capítulo para dela, Ciência, cuidar por modo
superlativamente prezável. É o capítulo de n° IV do título VIII, que
principia com a peregrina regra de que 'O Estado promoverá e
incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação
tecnológicas' (art. 218, caput). Regra de logo complementada com um
preceito (§ 1o do mesmo art. 218) que tem tudo a ver com a autorização
de que trata a cabeça do art. 5o da Lei de Biossegurança, pois assim
redigido:'A pesquisa científica básica receberá tratamento prioritário do
Estado, tendo em vista o bem público e o progresso das ciências'."

O tema, como sabido, é relevante e pioneiro. Pedi vista para melhor

ADI 3.510 /DF
examiná-lo. Impunha-se conhecer o cenário em que se desenvolvem as pesquisas que
estão sendo realizadas. Tenha-se ainda presente que em matéria de ciência e
tecnologia os avanços são tão significativos que as afirmações feitas em um momento
logo em seguida podem estar ultrapassadas.

A questão submetida ao julgamento desta Suprema Corte, sem dúvida,
está em um plano de relevância que exige uma prudente reflexão, que cada Juiz, no
íntimo de sua consciência, deve realizar. Por outro lado, não se há de diminuir a
diversidade que apresenta, apontando soluções e caminhos que bem revelam a
essência da sociedade plural que todos devemos respeitar e estimular. Não foi por
outra razão que escrevi em trabalho acadêmico que uma compreensão do homem na
dimensão de corpo e alma, distante da idéia de ser apenas uma energia que se esgota
no seu corpo, deve preceder á resposta da pergunta sobre para que devem servir as
descobertas cientificas e tecnológicas. E, mais ainda, essa concepção do ser do
homem permite que entendamos melhor que cada descoberta científica e tecnológica é
o resultado de um longo processo de amadurecimento, composto de passos e passos
de evolução, que, muitas vezes, levam a vida inteira, expondo o homem a sacrifícios
inúteis, em síntese, desrespeitando aquele valor infinito da vida. Veja-se que as
bactérias não foram descobertas por um cientista, mas, sim, por um dono de
armarinho, o holandês Antony Van Leeuwenhoek, no século XVII, e ganhou o mundo
porque Regnier de Graaf, seu compatriota, médico e anatomista, que descobriu o ponto
gerador de óvulos no ovário, escreveu ao Secretário da Sociedade Real de Londres
que Leeuwenhoek havia construído um microscópio que podia enxergar objetos muito
pequenos; e dessa descoberta até a primeira observação do médico inglês John
Tyndall, com seus tubos de ensaio, sobre a luta entre as bactérias e o mofo, o
Penicillium, cerca de dois séculos se passaram; e, ainda, daí até Alexander Fleming
perceber que os estafilococos não cresciam em torno do mofo, dando origem aos
antibióticos, termo criado por Selman Waksman, o descobridor da estreptomicina, mais
cerca de trinta anos se foram, passando pelo desastre de Robert Koch, o notável
médico alemão descobridor do bacilo da tuberculose, que, em decorrência do
apressado anúncio de uma vacina, provocou a morte de centenas de pacientes

Página 16

ADI 3.510/DF

(Estudos de direito público e privado. Rio de Janeiro, RENOVAR, 2005. pág. 288).
O mesmo se diga com relação à descoberta do código genético a partir do cientista
americano Ross Granville Harrison, que descobriu, no início do século XX, que a fibra
nervosa procedia da propria célula nervosa, inaugurando a era da cultura dos tecidos
(op.cit.,pág. 289).

Neste julgamento, penso que deve ficar claro que não se trata aqui de
buscar uma definição científica de determinado evento fazendo uma declaração de
princípios de natureza religiosa, canônica. Não se pode pôr a questão sob esse
ângulo. Trata-se, ao contrário, de decidir uma questão sob o ângulo jurídico, o que não
afasta a necessidade de buscar perspectiva interdisciplinar considerando valores
apropriados que não se esgotam em um só segmento do conhecimento humano. Vale
lembrar nesse passo a eterna lição de Santo Tomás de Aquino sobre a verdade no
intelecto e nas coisas, na ordem em que se relacionam com o intelecto divino (Summa
theologica. Tratado de Deus uno, tradução do Padre Raimundo Suarez, O.P. BAC,
Madrid, 1964. págs. 633 a 651).

A partir dessa visão de mundo que prestigia a diversidade e a
pluralidade, as instituições políticas e sociais devem se organizar para estabelecer com
respeito e dignidade uma regular interação entre os homens. Nunca é demais repetir o
magistério do Chief Justice Holmes no caso Lochner vs New York (1905), assinalando
que a Constituição destina-se a pessoas de pontos de vista fundamentalmente diversos
e que a circunstância de considerarmos algumas opiniões naturais e familiares ou
inovadoras e mesmo escandalosas não pode influenciar nosso julgamento na questão
sobre se a lei que as corporifica conflita com a Constituição.

Francis Fukuyama e Franco Furger acentuaram que "cientistas
enquanto cientistas não têm qualquer autoridade especial para fazer julgamentos éticos
ou políticos acerca dos limites das pesquisas científicas. Dados são dados: mesmo