Jurisprudência Nascituro (3)
526 pág.

Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
Pré-visualização50 páginas
são
o PCR (do inglês Polimerase Chain Reaction), que permite a replicação de uma
seqüência de DNA para análise, e o FISH (do inglês Fluorescence in situ
Hibridization), no qual os cromossomos são marcados com reagentes luminescentes.

É claro que a adoção dessa técnica não deixa margem a ilusão. Se os

ADI 3.510 / DF
embriões cujo diagnóstico é negativo são implantados e nascerão com a certeza de
que não sofrerão das anomalias pesquisadas, é certo que aqueles cujo diagnóstico é
positivo não serão escolhidos para implantação. Pior, serão, na grande maioria dos
casos, simplesmente descartados. É a realidade da seleção genética, um grande
fantasma da manipulação de embriões.

As técnicas de manipulação de gametas e embriões desenvolvidas nas
clínicas de reprodução assistida permitem atualmente a realização de diversos
procedimentos de intervenção no processo de reprodução e desenvolvimento
humanos, dos quais a seleção genética possibilitada pelo diagnóstico pré-implantação
é apenas um dos mais simples.

É hoje possível, por exemplo, a clonagem por divisão artificialmente
provocada de embriões, a clonagem por intermédio da transferência do núcleo de uma
célula somática humana para um óvulo humano, a clonagem por meio da transferência
do núcleo de uma célula somática humana para um óvulo animal (sendo os dois
últimos processos variações do procedimento chamado SCNT (somatic cell nuclear
transfer), o transplante pro nuclear (transferência do pronúcleo de um óvulo fertilizado
para um óvulo de terceiro cujo núcleo foi retirado), a partenogênese de um óvulo
humano, a criação artificial de quimeras (através da conjugação de blastômeros obtidos
de diferentes embriões), a ginogênese (transplante pronuclear utilizando apenas o
núcleo da mãe) e a androgênese (transplante pronuclear utilizando apenas o núcleo do
pai) (cf. AUSTRALIAN GOVERNMENT NATIONAL HEALTH AND RESEARCH
COUNCIL. Human Embryo - A Biological Definition, 2005. págs.16 a 19).

O estudo de Fukuyama e Furger reporta o caso de um casal que
concebeu três filhos com a técnica da co-cultura, pela qual o óvulo fertilizado in vitro
foi cultivado por vários dias em tecido animal, o que provavelmente terá transferido
material genético animal para as crianças. Outro experimento envolveu a produção
artificial de uma quimera humana através da fusão de blastômeros de dois embriões,
um masculino e outro feminino. O teste, segundo o autor do estudo, visava demonstrar
a possibilidade de uma correção genética, mas foi considerado um engodo (op.cit.,
pág. 87).

ADI 3.510/DF

Tudo isso mostra que a experimentação científica parece não se conter
em limites auto-impostos. As repercussões do uso prático dessas técnicas transbordam
do plano jurídico e das dificuldades de identificação parental para atingir o marco
definidor da espécie humana, com conseqüências sequer imaginadas.

É claro que para o cientista, no recôndito de sua curiosidade intelectual,
aberto a experiências de toda ordem, o ideal é a ausência de qualquer tipo de limitação
para o desenvolvimento de suas pesquisas. Mas é preciso não esquecer que ao lado
da ciência biológica e das demais ciências exatas outras ciências interagem no existir
do homem. É o que ocorre com a filosofia, a ética, o direito. A interação dessas
ciências é que enseja a plenitude da vida humana. Por essa razão é que muitos
estudos são dedicados hoje à bioética, considerando-se necessariamente que a
descoberta de hoje será ultrapassada no futuro, se nós admitirmos, ao contrário de
muitos filósofos, a divisão do tempo fora da existência do tempo presente. Ademais, as
limitações éticas ou filosóficas não significam redução da liberdade de pesquisar. Ao
reverso, podem significar confiança ilimitada na capacidade dos cientistas de alcançar
resultados com menor risco, relevando que a redução do risco é imperativa quando se
trata de vida humana a partir da união dos cromossomos ou, se assim preferirmos, a
partir da necessidade de assegurar a dignidade humana.

Quando o decreto regulamentar da lei sob exame menciona, por
exemplo, a qualificação da inviabilidade do embrião com alterações genéticas ou
alterações morfológicas, abre campo minado para a eugenia, que sob nenhum aspecto
pode ser tolerada. Admitir que as clínicas de reprodução assistida sejam as
responsáveis pela identificação das alterações genéticas e morfológicas para descartar
os embriões, equivale a investi-las de poder absoluto sobre o que pode, ou não,
desenvolver-se autonomamente até o nascimento com vida. Esse poder, certamente,
não nos pertence.

O conceito de células-tronco não é objeto de controvérsias na
comunidade científica, podendo ser adotada a definição dada pelo National Institute
of Health, órgão governamental americano responsável pelas políticas federais de
saúde: são células não especializadas, que têm a faculdade de se renovar mediante

ADI 3.510/DF

um processo autônomo de divisão e se caracterizam pela possibilidade de, sob certas
condições fisiológicas ou experimentais, transformarem-se em células de função
especializada, como células cardíacas ou produtoras de insulina (Stem cell basics.
Disponível em: <http://stemcells.nih.gov/info/basics/basics1.asp>. Acesso em 6mar.2008).

O conceito é fundamentalmente o mesmo do Glossário da International
Society for Stem Cell Research - ISSCR:

"Células que têm a dupla capacidade de se auto-renovar
(produzir mais células-tronco por divisão celular) e de se transformarem
em células maduras e especializadas" (Disponível em:
<http://www.isscr.org/public/glossary.htm#stem>. Acesso em
7mar.2008).

E também da European Molecular Biology Organisation - EMBO:

"Célula-Tronco - Célula que pode produzir continuamente
células-fílhas idênticas e tem a capacidade de produzir células-fílhas
com diferentes e mais específicas propriedades" (cf. SMITH, Austin. A
glossary for stem cell biology, in Stem Cell Research - Status,
Prospects, Prerequisites. EMBO, 2006. pág. 75).
Dois são os tipos de células-tronco de acordo com sua origem, ou fonte:

as células-tronco embrionarias e as células-tronco adultas. Estas, é importante que se
diga, são extraídas de tecidos já desenvolvidos, como a pele, sangue, intestinos e
músculos e também do cordão umbilical. Têm sido assim chamadas exatamente para
diferenciá-las das células-tronco embrionárias, obtidas de embriões. Quanto às últimas,
vale anotar que são obtidas de embriões oriundos de processos de fertilização
assistida e não de fertilização natural.

Vale transcrever a definição do NIH no já citado Stem Cell Basics
mostrando que as células-tronco embrionárias "são derivadas de embriões. Mais
precisamente, células-tronco embrionárias são derivadas de embriões que se
desenvolveram de óvulos fertilizados in vitro - em uma clínica de fertilização in vitro - e
posteriormente doados para fins de pesquisa com o consentimento informado dos
doadores. Elas não são derivadas de óvulos fertilizados no corpo de uma, mulher. Os

ADI 3.510/DF
embriões dos quais derivam as células-tronco embrionárias têm, em regra, cinco ou
seis dias de existência e são uma microscópica bola de células chamada blastocisto"
(Disponível em: < http://stemcells.nih.gov/info/basics/basics3.asp>. Acesso em
7mar.2008). Na Enciclopédia Eletrônica Medline Plus, as células-tronco embrionárias
"são obtidas tanto de fetos abortados quanto de óvulos fertilizados decorrentes da
fertilização in vitro (FIV). Elas são úteis para finalidades médicas e de pesquisa pois
são capazes de produzir células para quase todos os tecidos do corpo". As células-
tronco adultas, por sua vez, "não são tão versáteis para fins de pesquisa por serem
específicas de certos tipos de célula, como as sanguíneas, intestinais, epidérmicas e as
musculares (Disponível em: <http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/007120.htm>.
Acesso em 7mar.2008). E no Glossário do ISSCR, as células-tronco adultas são
"encontradas em diferentes tecidos do organismo