Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

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vistas à
reparação de tecidos desse órgão; (i) a Dra. Maria Eugênia Leite Duarte, na
Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, tenta utilizar células-tronco
mesenquimais no reparo da osteonecrose e reconstrução de perdas ósseas; e (j)
também relacionada a cardiopatias, a pesquisa de Renato Abdala Karam Kalil

ADI 3.510 /DF
(transplante autólogo de células-tronco da medula na miocardiopatia dilatada não-
isquêmica - Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul/Fundação Universitária de
Cardiologia - IC-FUC).

A imprensa noticiou há poucos dias que cientistas da PUC do Paraná,
em parceria com a Santa Casa de Misericórdia de Curitiba e a Fundação Oswaldo
Cruz, do Rio, conseguiram criar vasos capilares através do uso de células-tronco
adultas extraídas do cordão umbilical (O Estado de São Paulo, edição de 14/5/2008,
pág. A47).

No que concerne às células-tronco embrionárias, em um dos artigos
mais citados pelos estudiosos na área biotécnica, os autores dão conta de que, no
período entre 1°/1/1998 e 31/12/2005, 315 (trezentos e quinze) relatos de pesquisas
com essas células foram publicados, dos quais 28% diziam respeito à sua
diferenciação em células ou tecidos especializados, enquanto outros 27,5% à sua
caracterização molecular. Outros 33% relacionavam-se à derivação de linhagens ou ao
desenvolvimento de melhores técnicas de cultura (GUHR, Anke et al. Current state of
human embryonic stem cell research: an overview of cell lines and their use in
experimental work. Stem Cells, 2006).

As notícias acerca de pesquisas com células-tronco embrionárias
extraídas da página Bio-Medicine, em 13/3/2008, confirmam esse quadro, anunciando
experimentos em fase de testes que podem levar a terapias para inibir melanomas;
curar a diabetes, tendo sido criadas células producentes de insulina; tratar derrames;
reparação do tecido muscular cardíaco; recriar cartilagem; e contra a catarata
(exemplos foram retirados da página Bio-Medicine.org. Disponível em: <http://news.bio-
medicine.orq/medicine.asp?s=Stem%20Cell%20Research&w=Stem%20Cell&paqe=1&i
=1>).

No Brasil, atualmente são desenvolvidas as seguintes pesquisas
relacionadas com células-tronco embrionárias humanas: (a) no Instituto Nacional de
Cardiologia de Laranjeiras e na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, o Dr.
Antonio Carlos Campos de Carvalho busca mecanismos de diferenciação e uso
terapêutico; (b) na Universidade Federal de Goiás, a Dra. Lídia Andreu Guillo testa o

ADI 3.510/DF
uso de nanopartículas magnéticas na expansão in vitro dessas células; (c) a Dra.
Lygia Pereira, no Laboratório de Genética Molecular da Universidade de São Paulo -
USP, tenta estabelecer novas linhagens; (d) também na USP, a Dra. Mari Cleide
Sogayar testa o uso de células-tronco embrionárias no reparo de lesões em doenças
degenerativas (diabetes, hepatopatias, neuropatias, lesões ósseas e lesões renais); e
(e) no Rio de Janeiro, o Dr. Stevens Kastrup Rehen, no Laboratório de Neurogênese e
Diferenciação Celular da UFRJ, busca o controle da aneuploidia e a diferenciação
neural. Aliás, é importante que se registre o empenho e a seriedade dos respeitados
pesquisadores que atuam na Universidade Federal do Rio de Janeiro, vencendo
dificuldades materiais, como o próprio Dr. Stevens e os Doutores Radovan Borojevic e
Cláudia Maria de Castro Batista, Pós-Doutora em Neurociências pela Universidade de
Toronto, Canadá, e responsável pelo estudo de células-tronco neurais em modelos pré-
clínicos e em doenças neurodegenerativas.

Muito importante é o registro da descoberta de Shinya Yamanaka,
cientista da Universidade de Kioto, Japão. Ele conseguiu, em novembro de 2007,
transformar células-tronco adultas em células de caráter pluripotente, ou seja,
equiparáveis às células-tronco embrionárias, através do que se chamou de
"reprogramação celular'', um método alternativo que vem sendo considerado bastante
promissor e capaz de suplantar, como fonte de células-tronco pluripotentes, o método
corrente. Algum tempo depois, cientistas americanos igualaram o feito, um deles o
próprio Dr. James Thomson.

Embora ambos afirmem que ainda levará certo tempo para que essas
células possam ser usadas da mesma forma que as células-embrionarias, James
Thomson, que confessou ter sempre se preocupado com as implicações éticas das
pesquisas com embriões, prevê que "daqui a uma década, isso [a problemática das
pesquisas com células-tronco embrionárias] será apenas uma histórica nota de
rodapé". A propósito das descobertas, o Dr. Ian Wilmut, criador da ovelha "Dolly",
acabou declarando que iria abandonaras pesquisas com transferência nuclear para se
dedicar à reprogramação celular.

De todos os modos, não é razoável, como já acentuei, sob nenhum

ADI 3.510/DF
ângulo, desqualificar a qualidade das células-tronco embrionárias, reconhecidas
cientificamente como de maior espectro para as pesquisas com objetivo terapêutico. A
circunstância de oferecerem maior risco carcinogênico do que as células-tronco adultas
não quer dizer que estas não sejam suscetíveis de riscos assemelhados. A questão,
portanto, está assentada no plano científico, a cargo dos pesquisadores, não nos
cabendo analisar ou avaliar.

No atual contexto, os avanços e resultados diariamente obtidos nas
pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias ora aumentam, ora reduzem as
diferenças entre um e outro tipo e, por conseguinte, as suas reais possibilidades de
aplicação terapêutica. Por isso, segundo boa parte dos cientistas, ainda não seria
interessante abandonar uma ou outra linha de pesquisa.

Permanece, então, no presente estado da ciência, uma divisão
intransponível, que subjaz a este julgamento: para serem obtidas as células-tronco
embrionárias, segundo o método adotado como padrão, o embrião humano é
destruído, o que é inaceitável para muitos.

Do debate que vem sendo travado em praticamente todo o mundo
ocidental, colhem-se argumentos de diferentes naturezas, favoráveis e contrários às
pesquisas com embriões em geral e com células-tronco embrionárias em particular.

Os argumentos favoráveis às pesquisas são geralmente:

(i) o custo da destruição do embrião é coberto pelos benefícios a
serem obtidos;
(ii) o embrião não é apenas um aglomerado de células, mas não
tem o mesmo valor que o ser humano vivo ou mesmo o feto;
(iii) considerando que são embriões excedentes de um processo
de FIV e seriam de toda sorte destruídos, seu aproveitamento nas
pesquisas só traria benefícios;
(iv) as células-tronco embrionárias são mais flexíveis que as
células-tronco adultas.

ADI 3.510/DF
Por sua vez, os argumentos contrários às pesquisas amparam-se:

(i) na premissa de que o óvulo fecundado (embrião), exatamente
por ser totipotente e poder gerar um ser humano integral e
completo, já é vida humana;
(ii) na existência de métodos alternativos de pesquisa que
dispensariam a destruição do embrião;
(iii) na existência de insubsistências nas pesquisas com células-
tronco embrionárias;
(iv) na superestimação das potencialidades dessas pesquisas.

No meu entendimento, a valoração do embrião é crucial para o debate.
De fato, a se entender que não tem nenhum valor especial, pelo menos um valor
diverso do que aquele de um conjunto de células em cultura, todos os empecilhos
éticos desapareceriam. A conclusão não é muito diversa se a medida desse valor
supera a de um grupo de células, mas não alcança aquela de um ser humano formado
ou mesmo de um feto. Sua destruição, nessa visão, não passaria da eliminação de um
material biológico.

É essa, por exemplo, a visão de Fukuyama e Furger quando anotam
que "nós não partimos de uma posição pró-vida. Nós acreditamos que os embriões
humanos têm um status moral intermediário. Eles não são moralmente equivalentes
aos recém-nascidos; a destruição de um embrião para nós não se compara a um
homicídio" (op.cit., págs. 44/45).

O problema ganha corpo e substância quando se entende que o embrião
tem um valor idêntico