Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I32 materiais149 seguidores
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ao de um ser humano já nascido. 
Jürgen Habermas, como de hábito, estuda em profundidade esse tema, 
merecendo destacado o trecho que exibe a polaridade que o assunto provoca: 
"Um lado descreve o embrião no estágio prematuro de 
desenvolvimento como um 'amontoado de células' e o confronta com a 
pessoa do recém-nascido, a quem primeiramente compete a dignidade 
ADI 3.510/DF 
humana no sentido estritamente moral. O outro lado considera a 
fertilização do óvulo humano como o início relevante de um processo de 
desenvolvimento já individualizado e controlado por si próprio. Segundo 
essa concepção, todo exemplar biologicamente determinável da espécie 
deve ser considerado como uma pessoa em potencial e como um 
portador de direitos fundamentais" (O Futuro da natureza humana. São 
Paulo, Martins Fontes, 2004. pág. 44). 
Uma alegoria filosófica bem antiga torna-se apropriada neste tema: o 
Paradoxo Sorites, atribuído ao filófoso de Mégara Eubulides de Mileto e popularizado 
pelos estóicos, talvez inspirado por Zenão de Eléia, também referido por Aristóteles, 
que autoriza um questionamento sobre a fluidez dos conceitos. Um grão de areia forma 
um monte de areia? Dois grãos? Três? Um milhão? Talvez sim. Indaga-se, então, em 
que momento a adição de um único grão de areia origina o monte. 
Os problemas que se encaixam nesse paradoxo podem ser geralmente 
resolvidos adotando-se uma convenção. 
E é isso que muitos se propõem a fazer, com base em alguns eventos 
bem identificados durante o processo de reprodução humana: blastocisto, formação da 
linha primitiva, nidação, movimento, nascimento etc. 
Em Roe vs Wade, Justice Harry Blackmun adotou uma dessas 
convenções. Não para determinar o início da vida, mas para estabelecer em que 
momento passaria a existir um direito do feto à vida, inviolável mesmo em contraste 
com o direito da mãe. 
De certa forma, foi o que fez o douto Ministro Carlos Britto ao comparar 
a vida do embrião preservado em laboratório com a vida do embrião implantado no 
útero de uma mulher e a vida de um recém-nascido (vida biográfica), para não 
reconhecer ao primeiro um direito absoluto à sua preservação. Leia-se: 
"(...) as três realidades não se confundem: o embrião é o 
embrião, o feto é o feto e a pessoa humana é a pessoa humana. Esta 
não se antecipa à metamorfose dos outros dois organismos. É o produto 
final dessa metamorfose" (grifos originais). 
A idéia da metamorfose, contudo, é desafiada pelos que valorizam o 
ADI 3.510/DF 
embrião. Um dos principais argumentos em contrário é amparado em estudos que 
indicam haver diversos estágios contínuos no processo de desenvolvimento 
embrionário e fetal, não sendo possível isolar as etapas e, portanto, considerar 
algumas mais importantes que outras. 
Essa visão não seria, assim, fruto de uma crença ou de um dogma, mas 
de uma inferência lógica a partir dos dados que informam o processo de reprodução 
humana. 
Nessa linha, fixar um marco por convenção, ao meu sentir, não passaria 
de uma escolha arbitrária. 
A dificuldade do problema fica clara quando são analisadas as decisões 
tomadas pelos diversos países do mundo sobre o tema, o que mostra sua 
universalidade e sua desvinculação da dogmática religiosa. 
O dissenso em escala global impediu que a Organização das Nações 
Unidas - ONU regulamentasse as pesquisas com células-tronco embrionárias, 
limitando-se a divulgar, em 8/3/2005, uma declaração sobre a clonagem humana, que 
foi rejeitada por diversos países, dentre os quais o Brasil, por conta da alegada 
ambigüidade do termo "vida humana", que poderia impedir a clonagem terapêutica, 
método adotado por algumas nações e do qual deriva, segundo muitos, um organismo 
em nada diferente de um embrião (Declaração das Nações Unidas sobre Clonagem 
Humana, 59a Assembléia Geral; 82a Reunião, item 150 - Disponível em: 
<http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN/N04/493/06/PDF/N0449306.pdf? 
OpenE!ement>). 
A União Européia não fugiu ao debate, mas tampouco obteve o 
consenso de seus membros quanto a uma posição única e, por decisão de 25/4/2007, 
deixou os estados-membros livres para autorizar ou proibir as pesquisas com células-
tronco embrionárias, o que se interpretou como estímulo ao desenvolvimento de 
pesquisas inovadoras (cf. Le Monde, edição de 27/4/2007). 
Assim, a Europa se divide exatamente entre os países que proíbem e os 
que autorizam as pesquisas com células-tronco embrionárias, sendo que estes últimos 
praticam diferenciados graus de intervenção na respectiva regulamentação. 
ADI 3.510/DF 
Alinham-se entre os países que proíbem as pesquisas, a Alemanha, a 
Itália, a Áustria e a Polônia (Cellules souches et choix éthiques. pág. 140-3; e 
Beyond bioethics - a proposal for modernizing the regulation of human 
biotechnologies. Também <http://www.mbbnet.umn.edu/scmap.html>). 
Na Alemanha, a proibição é a regra, mas, excepcionalmente, é admitida 
a importação e a utilização de células-tronco embrionárias, desde que: (i) tais células-
tronco tenham sido obtidas até determinada data no país de origem, de acordo com a 
legislação respectiva, e tenham sido preservadas em cultura ou por meio de métodos 
criogênicos (a data limite prevista originalmente era a de 1o de janeiro de 2002, tendo 
sido revista recentemente para 1o de maio de 2007 (&quot;Parlamentares Alemães 
Diminuem Restrições Sobre Células-Tronco&quot;, O Estado de São Paulo, 11/4/2008); (ii) 
os embriões dos quais se originaram tenham sido obtidos através de fertilização in 
vitro conduzida por médico e com o propósito de induzir a gravidez, não servindo mais 
a esse fim por razões inerentes ao próprio embrião; (iii) nenhum pagamento ou outra 
vantagem patrimonial tenha sido prometido em troca da doação desses embriões; (iv) a 
pesquisa seja aprovada pela agência competente, mediante análise da descrição do 
projeto e da compatibilidade de suas razões científicas com o objetivo de (a) gerar 
conhecimento em pesquisa básica ou (b) desenvolver métodos diagnósticos, 
preventivos ou terapêuticos a serem aplicados a seres humanos; (v) o objeto da 
pesquisa já tenha esgotado todos os meios envolvendo células animais ou 
experimentos com animais; (vi) o conhecimento científico a ser obtido não possa ser 
alcançado senão através do uso de células-tronco embrionárias; (vii) tais células-tronco 
sejam aquelas registradas em um registro público, cientificamente reconhecido, 
mantido por agências governamentais ou agências autorizadas pelo respectivo 
governo; e (viii) receba a aprovação de um comitê ético (Stem Cell Act -
Stammzellgesetz - StZG, 28 de junho de 2002). A autorização ainda pode ser 
concedida por tempo limitado. 
De acordo com a Lei de Proteção ao Embrião, de 1o de janeiro de 1991 
(Gesetz Zum Schutz Von Embryonem), só é permitida a fertilização de três óvulos por 
ciclo e também não se permite a implantação de mais de três embriões. 
ADI 3.510/DF 
A legislação alemã foi novamente submetida ao Parlamento neste ano, 
tendo sido elaborados quatro modelos básicos de regulamentação: o que mantinha o 
modelo atual; o que previa a liberação de todas as pesquisas e formas de manipulação 
do embrião; o que buscava a proibição integral; e, finalmente, o que foi aprovado, 
contendo apenas uma extensão do termo final de congelamento dos embriões 
admitidos para pesquisa (Germany eases stem cell restrictions, deutsche welle. 
Disponível em: <http://www.dw-world.de/dw/article/0\u201e3259556,00.html?maca=en-
kalenderblatt_topthema_englisch-347-rdf>. Acesso em: 11abr. 2008). 
A França, através de lei de 6 de agosto de 2004 (Lei n° 2004-800 -
Relative à la Bioéthique), adotou uma interessante posição. Embora mantendo o 
princípio de proibição de pesquisas com células-tronco embrionárias estabelecido 
desde a Lei de Saúde Pública de 1994, concedeu uma permissão temporária, uma 
moratória de 5 (cinco) anos, contada da data de publicação do decreto regulamentar de 
7/2/2006, ou seja, até 2011. 
Até lá, as pesquisas dependem dos seguintes requisitos: (i) devem se 
dar a