Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
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sendo que, no primeiro,
apenas uma instituição (a Universidade de Kioto, através de seu Stem Cell Research

ADI 3.510/DF

Center) está autorizada a produzir linhagens de células-tronco embrionárias.

A Austrália, por fim, adota um critério, chamado por Fukuyama e Furger
(op. c i t ) de "auto-regulamentação regulamentada" (pág. 153), que autoriza a pesquisa
com embriões, mas restringe uma série de técnicas.

O que se verifica no direito comparado é que há preocupação não
apenas quanto à definição do estatuto do embrião, mas também quanto às
conseqüências do progresso das técnicas de manipulação genética e celular,
especialmente aquelas relacionadas ao uso de gametas e de embriões.

Questões como seleção de sexo, comercialização de gametas e
embriões, diagnóstico genético pré-implantação, clonagem reprodutiva,
aperfeiçoamento genético, cisão de embriões, criação de embriões para fins de
pesquisa e experimentos com quimeras mostram que há um universo de possibilidades
e riscos que não pode ser desprezado.

Será possível deixar de enxergar a gravidade do cenário montado, por
exemplo, pelas técnicas de diagnóstico genético de embriões, em que se torna possível
selecionar geneticamente aqueles que mereçam seguir adiante, descartando os
demais porque portadores de defeito genético? Isso quer dizer que é possível descartar
aqueles embriões em que se diagnostica a trissomia do cromossomo 21, como se os
portadores da Síndrome de Down não tivessem o direito de viver.

A busca da eugenia, da raça pura, do ser humano programado em
laboratórios, não é, certamente, um ideal para a humanidade. Ao contrário, a
diversidade que torna iguais os desiguais e transplanta a noção de igualdade para o
tratamento jurídico dos desiguais como iguais na sua diversidade é um valor ético que
não pode ser menosprezado.

Observo, desde logo, que na lei brasileira sob exame não existe nenhum
protocolo para orientar os procedimentos, que são hoje integralmente liberados
ensejando os grandes riscos da má utilização que os contemporâneos do século XX já
viveram, enlouquecidos pela purificação racial, na pior perspectiva para a grandeza
infinita do ser do homem.

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ADI 3.510/DF
Não me parece que esse cenário que estamos vendo autorize a

simplificação do controle de constitucionalidade que agora examinamos.
Com todo o maior respeito aos que entendem em contrário, na minha

compreensão, não é possível declarar-se simplesmente constitucional ou
inconstitucional uma lei que desafia a ciência e diz diretamente com o futuro da
humanidade. Será razoável acreditar que a ciência tudo pode e que por isso não se há
de impor limites, sem falar naqueles limites éticos que são essenciais à convivência
social?.

Será que devemos pôr no plano mais geral de absoluta liberdade das
pesquisas do poder dito incontrastável da ciência ou da proibição terminante delas, a
catalogar os que se alinham na primeira como vanguardistas e os que se encontram na
segunda como obscurantistas? Será que devemos fechar nossos olhos para os que na
dor, no sofrimento, na angústia, juntam a fé para que um caminho seja descoberto
curando os enfermos que estão próximos de nós? Será que devemos, nessa hora,
liberar uma paixão sem prover uma razão?.

Respondo, sem o ceticismo de David Hume, que não! Ao revés, a
impaciência deve ceder à tolerância com o tempo para buscar convergências que nos
permitam encontrar iluminados amanheceres.

Estou convencido de que este tema que nos ocupa põe em evidência a
necessidade de criar mecanismos adequados de controle, uma limitação, no campo
das pesquisas que avancem sobre o genoma humano. Limites não apenas decorrentes
do medo do desconhecido, do temor de nossa própria irresponsabilidade. Limites que
não se originem somente de uma ponderação de benefícios e riscos, como parece ter
ocorrido em grande parte do mundo ocidental, mas que decorram de uma escolha
ética, livre e responsável, consciente de nossa imperfeição. Uma consciência que,
paradoxalmente, terá vindo à tona apenas em virtude de nosso próprio progresso, de
nosso caminhar incessante na busca da perfeição.

Nesse sentido tenho como preciso o magistério de Hans Jonas ao
afirmar "que os novos tipos e limites do agir exigem uma ética de previsão e
responsabilidade compatível com esses limites, que seja tão nova quanto as situações

ADI 3.510/DF
com as quais ela tem de lidar (...). O homo faber aplica sua arte sobre si mesmo e se
habilita a refabricar inventivamente o inventor e confeccionador de todo o resto. Essa
culminação de seus poderes, que pode muito bem significar a subjugação do homem,
esse mais recente emprego da arte sobre a natureza desafia o último esforço do
pensamento ético, que antes nunca precisou visualizar alternativas de escolha para o
que se considerava serem as características definitivas da constituição humana"
(JONAS, Hans. O Princípio responsabilidade. Rio de Janeiro: Editora PUC, 2006.
pág. 57). E avançou afirmando que "(...) o homem quer tomar em suas mãos a sua
própria evolução, a fim de não meramente conservar a espécie em sua integridade,
mas de melhorá-la e modificá-la segundo seu próprio projeto. Saber se temos o direito
de fazê-lo, se somos qualificados para esse papel criador, tal é a pergunta mais séria
que se pode fazer ao homem que se encontra subitamente de posse de um poder tão
grande diante do destino" (op. c i t . pág. 61).

O ponto que se deve relevar agora e sempre é que a biologia, o
desenvolvimento das pesquisas que mexem com a vida humana, a dignidade do ser do
homem, tudo isso deve necessariamente estar subordinado a valores éticos. Estes
valores devem prevalecer sobre os argumentos meramente utilitaristas ou sobre
aqueles que pretendem tornar ilimitada a busca científica. Não foi outro propósito que
levou Edgar Morin a advertir que a "ciência, aventura desinteressada, cai nas malhas
dos interesses econômicos; a ciência, aventura apolítica, toma-se refém das forças
políticas, em primeiro lugar pelo Estado. (...) Foi muito difícil por muito tempo conceber
que a ciência, identificada à razão, ao progresso, ao bem, podia ser profundamente
ambivalente em sua natureza. (...) Os espíritos formados por um modo de
conhecimento que repudia a complexidade, logo a ambivalência, não conseguem
conceber a ambivalência inerente à atividade científica, em que conhecimento e
manipulação são as duas faces um mesmo processo. (...) Como a ciência moderna,
pela própria natureza, é indiferente a qualquer consideração ética estranha à ética do
conhecimento e à ética do respeito às regras do jogo científico, há uma cegueira de
muitos cientistas em relação aos problemas éticos postos pela atividade científica.
Essa cegueira é criada por um processo de cegamento inerente ao conhecimento

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objetivo. Husserl, numa célebre conferência feita há 70 anos sobre a crise da ciência
européia, mostrou que havia uma mancha cega no objetivismo científico; era a mancha
da consciência de si" (O Método - 6. Ética. Editora Sulina, 2005. págs. 70 a 72).

É claro que os cientistas não são apenas cientistas. Eles exercem suas
atividades a partir de uma condição de cidadãos e cidadãs, pais e mães de família,
maridos e esposas, filhos e filhas, muitos com suas próprias convicções morais e até
mesmo religiosas. É isso que pode colocá-los em condições éticas de discutir seus
próprios limites ou a ausência deles; nunca a sua posição de cientistas.

A questão das relações entre ética e ciência não é nova. Os iluministas
Hume e Kant, no século XVIII, procuraram sentar as bases de uma moral secular livre
de conotação religiosa. A idéia central era a de a moral não decorrer da mera
experiência, porque esta apenas nos fornece o ser, jamais o dever-ser. Kant escreveu
no seu clássico Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) que a moral
não é um fato, mas uma exigência da vontade humana livre. Isso faz com que a moral
seja uma exigência racional, embora