Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
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levantar sobre
quem somos e por que somos como somos, uma coisa é certa: somos organismos
vivos complexos, com um corpo propriamente dito ('corpo', para abreviar) e com um
sistema nervoso ('cérebro', para abreviar)', possuindo o organismo uma estrutura e
miríades de componentes com numerosos órgãos combinados em sistemas" (Estudos
de direito público e privado, págs. 286/287).

A questão em torno da natureza do embrião autoriza desafiar, desde
logo, a comparação que se procura fazer entre o embrião gerado em processo de
fertilização in vitro e o embrião implantado no útero, ao argumento de que, sem este,
não há vida possível. Essa interessante visão do problema está bem enunciada com
claridade notável pela séria, respeitada e reconhecida pesquisadora Patrícia Pranke,
Professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e
sócia fundadora do Instituto de Pesquisa com Células (in O Terceiro Elemento da
Vida, texto ainda não publicado). Neste precioso trabalho acadêmico, ela escreve que
a "implantação, e conseqüente gestação, só ocorre graças às moléculas que existem
no útero. A gravidez é a sintonia entre o embrião e o próprio útero da mulher. A
ovulação prepara o útero para receber o embrião. Tanto que, se o embrião gerado in
vitro, crescido até o quinto dia, não for introduzido no corpo feminino enquanto
organicamente o útero estiver preparado, e for introduzido no organismo da mulher dias
mais tarde, a implantação não ocorre. Ou seja, aquele embrião só tem a potencialidade
de se transformar em um bebê se for introduzido no útero em condições favoráveis de

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implantação, o que, de forma natural, só ocorre em sincronismo com o processo da
ovulação, ou se, artificialmente, o endométrio materno for 'preparado'. Isso ocorre
apenas durante a janela de implantação, em que todas as condições estão adequadas
para receber aquele embrião. Afora essa condição, o embrião, mesmo introduzido no
organismo materno, não tem como ser implantado. Então, não basta apenas colocar o
embrião no organismo materno. Ele tem que estar lá no momento em que o útero está
preparado para recebê-lo. E isso ocorre quando seu endométrio está secretando uma
série de fatores que poderão interagir com o embrião para ajudar na sua implantação e
transformação. Novamente, reforça-se a idéia de que sem as dezenas de moléculas
envolvidas no processo não há como um embrião ter a potencialidade de se tornar 'ser
humano'".

Todavia, com o maior respeito e admiração que tenho pela Professora
Patrícia Pranke, entendo que essa posição inovadora deixa ainda mais nítida a
distinção conceituai entre potência e possibilidade que, como antes procurei mostrar,
considero conceitos diversos.

A possibilidade traz em seu âmago o seu próprio opósito, já que uma
possibilidade é sempre e ao mesmo tempo uma impossibilidade, o que não se dá com
a potência. Esta não encerra em si a sua negação e só não resulta em ato se, como
visto, um impedimento externo se interpõe.

Mas mesmo um impedimento externo não é capaz de privar o ser de sua
potência e, conseqüentemente, de sua essência. Pode apenas impedir a sua
atualização.

E é esse empecilho que se constitui em artifício, contrário à natureza e à
essência do ser.

É importante lembrar que a "produção" dos embriões nos processos de
fertilização in vitro é orientada teleologicamente. Não é lícita a fertilização in vitro para
fins outros que não os da reprodução. Mesmo gerados através de um procedimento
artificial, o destino dos embriões fertilizados in vitro é a implantação no útero. Uma vez
criados, é essa a sua vocação natural. Sua potência, assim, em nada difere da
potência encontrada naqueles embriões engendrados pela reprodução sexuada.

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Revela-se, aqui, segundo entendo, um desvio de perspectiva. Diz-se que
o normal é que os embriões produzidos na fertilização in vitro e não utilizados nunca
venham a nascer, como se o curso natural a ser seguido fosse esse. Esquece-se de
que, quando gerados, foram gerados para a vida, pelo que a implantação é o seu
destino.

Por terem sido criados artificialmente, dependem de que algo seja feito,
também artificialmente, para que voltem ao seu destino natural, sem o que não se dará
a sua atualização. Isso confere ao destino dos embriões não implantados por escolha
médica uma aparência de processo regular: como não há interferência de cientistas
após o congelamento desses embriões, fica parecendo que o seu confinamento é o
seu destino natural, o que contribui para facilitar a escolha, ao meu sentir apressada,
entre essa sina dita inútil e a sua utilidade, com sua destruição, para pesquisa.

Esse ponto de vista turva a visão do fim essencial do embrião: a geração
da vida humana seja ela natural seja ela artificial. Isso não é um artifício como alguns
parecem sustentar ou um desvio na trajetória do confinamento; é o ato que compensa
a geração não-natural do embrião, o resgate de sua natureza. Toda ação que não se
volta para esse fim impede a sua atualização. O congelamento, diga-se, não é
irreversível, porque não põe termo definitivo á atualização. A destruição do embrião,
por seu turno, é impedimento externo, que corta o seu desenvolvimento, tira-lhe a vida.
Ele deixa, por isso, de ter um vir a ser.

A vida humana é a vida de um organismo autônomo, com movimento e
projeto próprios, que evolui de acordo com um programa contido em si mesmo e que
pode ser executado independentemente de impulsos externos.

Chama a atenção o descuido com que se invoca Tomás de Aquino neste
tema, no ponto em que se afirma o reconhecimento do ser somente após a animação.
O problema não é tão simples quanto parece, o que, de resto, é característico de tudo
aquilo que diga respeito ao Doutor Angélico, como já alertava Chesterton. Se de fato
ele entendia que a animação se dava algum tempo após a fecundação (quarenta ou
noventa dias, conforme o sexo), isso dizia respeito à alma racional, ao entendimento.
As outras faculdades, vegetativa e sensitiva, vinham anteriormente, decorentes da

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matéria germinal, como bem anota Jesus Valbuena O.P., em seus comentários sobre
o "Tratado do Governo Divino do Mundo" (op. c i t , págs. 1.042/1.043). Diga-se que em
se tratando de embriologia o que foi já não é, daí o cuidado de Padre Jesus Valbuena
ao encerrar a introdução às Questões 118 e 119 do Tratado com a lembrança da frase
de Agostinho de Hipona: "Não sei se poderei chegar a saber quando começa o
homem a viver no seio materno" (op. cit., pág. 1.044).

Tudo isso só demonstra a potência (totipotência) presente no embrião
desde o início e sua constante atualização.

Mesmo assim, a se comparar o momento da animação racional e a
formação do sistema nervoso, o gênio de São Tomás não impediu que chegasse
incrivelmente perto da cronologia moderna do desenvolvimento do embrião. E, como
sustenta Stephen J. Heaney, Professor de Filosofia da Universidade Saint Paul,
Minnesota, se tivesse os conhecimentos hoje disponíveis ele teria revisto seu
entendimento para reconhecer a animação desde o momento da fecundação
(Disponível em: <http://studentorqs.vanderbilt.edu/sfl/ThomistFertilization.htm>. Acesso
em: 27mar. 2008).

A embriologia moderna dispõe de conhecimentos extraordinários e um
dos mais importantes textos de referência do mundo nessa área, adotado em inúmeras
faculdades de medicina, o de Moore e Persauit, ensina que o desenvolvimento
humano se inicia exatamente na fecundação (Embriologia clínica. Rio de Janeiro:
Elsevier, 7a ed., 2004). No mesmo sentido Jan Langman (Medical embryology.
Baltimore: Williams and Wilkins, 3a ed., 1975. pág. 3) e Bruce M. Carlson (Patten's
foundations of embryology. N. York: McGraw-Hill, 6a ed., 1996. pág. 3). Assim
também sustenta o Doutor Gerson Cotta-Pereira, destacado médico patologista,
Chefe do Serviço de Imunoquímica e Histoquímica da Santa Casa de Misericórdia do
Rio de Janeiro, em