Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

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2008).

Daí advém que os embriões submetidos a congelamento são embriões
com vida e não é o próprio congelamento que lhes retira tal condição, ainda que
existam registros de queda nas taxas de nascimento, como mostram Donadio e outros,
que apontam uma queda média de 10 pontos percentuais no índice de implantação
após o congelamento (op.cit.).

Tampouco lhes retira essa condição o fato de estarem congelados há
mais de três anos. Há inúmeros registros de nascimentos relacionados a embriões
congelados há cinco, oito e até treze anos (Disponível em: Folha de São Paulo, edição
de 22/3/2008; <http://veja.abril.com.br/220306/p 114.html>:
<http://www.folhape.corn.br/folhape/sc-segunda.asp?data edicao=8/2/2006&mat=15041> e
<http://www.ivf.net/ivf/woman gives birth after embryo frozen for 13 years-o 1537-en.html>).

Segundo o artigo de Tummon e outros (Frozen-thawed embryo
transfer and live birth: long-term follow-up after one oocyte retrieval), embriões
descongelados representaram 39% de nascimentos com vida (249 em 639). A
sobrevivência após o descongelamento alcançou um índice de 95% (2.129 de 2.247)
(Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science?_ob=ArticleURL&_udi=B6T6K
-4K18VWK-5&_user=10&_rdoc=1&_fmt=&_orig=search&_sort=d&view=c&_acct=C000050221&
_version=1&_urlVersion=0&_userid=10&md5=362ecb3f0e331380b7f1fff7d008d5c8>).

Sendo assim, conclui-se que os embriões congelados a que se refere o
inciso II do art. 5o da Lei n° 11.105/2005 são embriões com vida. O método de extração
de células-tronco embrionárias que acarrete a sua destruição violará, na minha
compreensão, o direito à vida de que cuida o caput do art. 5o da Constituição da
República. No ponto exato em que o autoriza, a lei é inconstitucional.

É preciso considerar que a fertilização in vitro é realizada, já-se disse,

ADI 3.510/DF

com o objetivo da geração de uma vida. Não foi destinada à pesquisa científica pura ou
terapêutica. É claro que o argumento utilitarista valoriza o eventual descarte, o jogar
fora dos embriões fertilizados in vitro e não utilizados pelos genitores. Assim, se estes
não pretendem mais utilizar a fecundação que procuraram, então podem autorizar que
sejam usados para a pesquisa.

O argumento é poderoso em duas frentes. A primeira, diz com a
mobilização de pessoas portadoras de patologias para as quais se promete a cura. A
segunda, com a inutilidade de manter-se o congelamento indefinidamente.

Quanto à primeira frente, não me parece correta. E assim é pelo simples
fato de não ser possível prometer cura quando ainda não se tem dados científicos
disponíveis que autorizem essa conclusão. O processo é longo e isso deve ser
reconhecido, mesmo para as pesquisas com células-tronco adultas. Por outro lado, é
preciso compreender e acolher as angústias das pessoas que padecem de patologias
alcançadas pelo descortinar das pesquisas tanto com células-tronco embrionárias
quanto com células-tronco adultas. A esperança é viva e devemos tudo fazer para
torná-la realidade. De fato, essa é a razão pela qual afirmei antes e reafirmo agora que
não se está pretendendo enxergar solução que não seja aquela capaz de tornar real a
esperança, de trazer para a prática a teoria, de abrir o dom da vida pelo pensar e agir
do homem, preservando-se esse mesmo dom para os que vão nascer. É assim o mais
belo encontro entre o que é e o que está sendo. E por isso mesmo é que merece
destacado que no Brasil, ainda este ano, existe forte possibilidade de o sistema público
de saúde oferecer tratamento oriundo dessas células-tronco adultas para portadores de
algumas patologias: cardiomiopatia dilatada, cardiopatia chagásica, cardiopatia
isquêmica e infarto agudo do miocárdio. Esse objetivo consta do Estudo Multicêntrico
Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias - EMRTCC, um dos maiores
estudos do mundo envolvendo a avaliação da eficácia do implante autólogo de células-
tronco de medula óssea e que já se encontra em sua fase final, previstas para o
segundo semestre deste ano a análise e a divulgação dos resultados (Disponível em: <
http://portal.saude.gov.br/portal/aplicacoes/noticias/noticias detalhe.cfm?co seq noticia=13034
> e <http://www.incl.rj.saude.gov.br/incl/celula-tronco/laboratorio.asp>. Acesso em: 5mai.

ADI 3.510/DF

2008).
Quanto à segunda frente, não é o fato de existir o congelamento que

alivia a questão de modo a simplificá-la ao ponto de afirmar que se o que foi fecundado
não for usado para gerar uma vida, então deixe isso para a manipulação dos cientistas.
Ora, nenhum de nós pode ter o poder de manipular ao seu talante o que foi fecundado
para ser vida. É como se nós déssemos aos cientistas desse ramo uma carta branca
para fazer da genética um campo aberto para a sua curiosidade científica. É claro que
devemos estimular o conhecimento de como uma célula-tronco embrionária se
transforma em um tecido do fígado e outra no pâncreas e outra no pulmão. Mas é
imperativo que isso seja feito com apropriado controle sem causar a morte do que é
vida. Esse domínio da ciência deve também considerar a ética e a filosofia, ciências
que são inerentes à existência do homem e ao equilíbrio da humanidade. Creio que a
razão nos autoriza a afirmar, respeitando com a mesma dignidade que todos os
contrários devem exigir uns dos outros, que assim deve ser feito. E, ainda, assim é,
porque este é um campo em que não há certezas, tantas são as interrogações que nos
invadem a cada passo adiante.

Não merecem consideração, portanto, os argumentos utilitaristas que se
assentam no aproveitamento de embriões fertilizados in vitro e que serão descartados.
E desse modo entendo pela simples razão de que não há de se sacrificar o meio para
privilegiar o fim. Todas as vezes que a humanidade fica cega na busca de resultados,
resvala para a deformidade. Isso precisa ser repelido. O princípio da ponderação entre
meio e fim resulta sempre na afirmação de que os fins não justificam os meios. Por isso
é que devemos retornar à questão jurídica que estamos examinando. Simplificar a
solução pela justificativa utilitarista é criar para a humanidade opções que esmagam a
dignidade da pessoa humana. Se pelo bem praticamos o mal, se para salvar uma vida
negamos outra, ficará sem salvação o homem, que estará aguardando a sua vez de
ser sacrificado. Os cientistas, sejam os da área médica, sejam os da área biológica,
sejam os da área jurídica, não podem, diante de seus compromissos com o futuro da
humanidade, cair no abismo do utilitarismo. As opções que fazemos no mundo
científico não serão exitosas pelos resultados que alcançarmos se esses resultados

ADI 3.510 /DF
ferirem valores éticos que não são contingentes. Para viver com esses valores será
necessário muitas vezes morrer por eles. Assim, para sermos dignos da vida, devemos
valorizar a vida.

Essa valorização da vida é que nos torna responsáveis para abraçar
aqueles que esperam renascer para a plenitude com a cura de suas patologias. E essa
responsabilidade é que nos faz encontrar a saúde sem sacrificar a vida. E a ciência em
todos os seus níveis deverá construir esse caminho, na melhor expectativa de fazer o
bem a partir do bem e não a partir do mal.

Esse caminho já está aberto. A própria ciência apresenta método
alternativo de extração de células-tronco de embriões com vida que não resulta
necessariamente em sua destruição. Conseqüentemente, não viola o direito
fundamental à vida.

Trata-se da extração de uma única ou no máximo duas células
(blastômeros) de um embrião com oito células através de uma punção celular. Essa
extração é realizada rotineiramente no processo de fertilização in vitro para possibilitar
o diagnóstico pré-implantação que investiga, através de uma única célula do embrião,
se ele é portador de alguma anomalia genética. Nesse procedimento, se o diagnóstico
é negativo, o embrião é implantado e pode nascer, como tem ocorrido ordinariamente,
com vida e saúde (tanto as informações colhidas por