Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I22 materiais122 seguidores
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correio eletrônico do Professor
Luiz Fernando Dale, Médico Especialista em Reprodução Humana pela Universidade
de Paris V, quanto as conclusões da Sociedade Européia para Reprodução Humana e
Embriologia - ESHRE dão conta de que o diagnóstico pré-implantação não acarreta
mais riscos do que o processo de fertilização in vitro por meio de ICSI - HARPER et
al. ESHRE PGD consortium data collection VII: cycles from january to december
2004 with pregnancy follow-up to October 2005. in Human Reproduction, v. 23,
2008. págs. 741 a 755).

Já se levantou grande objeção a essa técnica de extração de células-
tronco, baseada na totipotência que geralmente se reconhecia nas primeiras células do
embrião. Nesse sentido, por ter a capacidade de gerar um indivíduo completo, o
blastômero extraído seria um verdadeiro embrião, pelo que seu uso para gerar uma

ADI 3.510 /DF
linhagem de células-tronco atentaria contra a sua vida da mesma maneira que o
método padrão na fase de blastocisto.

Essa objeção está, contudo, superada. É que a pesquisa realizada pela
Doutora Magdalena Zernicka-Goetz identificou as duas primeiras células do embrião
através de coloração e constatou que cada uma gerava um tipo diverso de tecido,
permitindo a conclusão de que, mesmo nessa fase, já há uma nítida especialização das
células, não podendo ser reconhecida a totipotência senão no zigoto (PEARSON,
Helen. Developmental biology: your destiny from day one. in Nature. 418. págs.
14/15.jul. 2002).

Diga-se que a possibilidade de extração de uma única ou duas células-
tronco de um embrião sem destrui-lo já constava de estudos de 2005 como informaram
Eric Scott Sills, Tackumi A. Takeuchi, Noriko Tanaka, Quennie V. Neri e Gianpero
D. Palermo (cf. Identification and isolation of embryonic stem cells in
reproductive endocrinology: theoretical protocols for conservation of human
embryos derived from in vitro fertilization):

"Blastômeros obtidos para PGD são geralmente fixados e
processados com fluoretos de cromo para a detecção de aneuploídias
através de análise parcial do cariótipo, ainda que o processo tenha
recentemente evoluído para permitir testes para desordens especificas
via PCR e para a amplificação do genoma de uma única célula através
de deslocamento múltiplo amplificado. Esse processo altera
irreversivelmente o blastômero destinado para PGD - a viabilidade
dessa célula é sacrificada em prol da obtenção de informações
genéticas essenciais. Todavia, presumindo que dois blastômeros
distintos sejam extraídos por uma biópsia para PGD e desde que na
ausência de mosaicismo cada blastômero detenha potencial para se
tomar um organismo completo, existe a possibilidade de que um dos
blastômeros extraídos possa ser mantido em cultura para a produção de
células-tronco embrionárias. "

E a geração de células-tronco a partir dessa fonte foi confirmada
pelos trabalhos de Strelchenko (STRELCHENKO, N. et. al. Morula-derived human
embryonic stem cells reproductive biomedicine online 9(6), 623-629 2004);
Klimanskaya (KLIMANSKAYA et. al. Human embryonic stem cell lines derived from

ADI 3.510/DF

single blastomeres. Nature 444:481-485 2006, estes citados no Relatório Alternative
Sources of Human Embryonic Stem Cells. The President's Council on Bioethics)
e Robert Lanza (CHUNG et. al. Human embryonic stem cell lines generated
without embryo destruction, in Nature 2(2): 113-117 2008).

Lanza mostra que a eficiência desse método é comparável àquela do
método que envolve a destruição do embrião (20% dos embriões dando origem a
linhagens), bem como que as características das linhagens obtidas em nada se
diferenciam daquelas obtidas da massa celular interior (ICM - inner cell mass) do
blastocisto, tendo as três camadas germinais sido identificadas.

Um levantamento feito por iniciativa da autoridade inglesa responsável
pela regulamentação das pesquisas com embriões (HFEA - Human Fertilisation and
Embryonic Authority) dá conta de que a equipe de Robert Lanza obteve 5 (cinco)
linhagens de células-tronco embrionárias humanas ao mesmo tempo que os embriões
continuaram a se desenvolver, mas concluiu que ainda seriam necessários mais
estudos para mostrar o bom desenvolvimento do embrião sujeito à biópsia (RICHERS,
Helen. Alternatives to embryonic stem cells. HFEA. The Scientific and Clinical
Advances Group. Disponível em: <http://www.hfea.gov.uk/docs/2008-02-21 SCAG paper -
Alternatives ES cells.pdf>).

De fato, o estudo menciona a adoção de um método similar ao do
diagnóstico pré-implantação e, portanto, não-idêntíco, o que poderia levar à conclusão
de que a diferença poderia acarretar mais riscos ao embrião do que aqueles gerados
por diagnósticos pré-implantação.

Para esclarecer esse ponto, entramos em contato direto com o Professor
Lanza Na resposta, este confirmou que o método de retirada da célula do embrião é o
mesmo utilizado nos diagnósticos pré-implantação e, por isso, o risco ao embrião é
mínimo. Disse, ainda, não haver diferença de custo ou de eficiência.

Mesmo diante da ressalva de que seriam necessários mais estudos
mostrando que os embriões que sofrem essa intervenção se desenvolvem
normalmente, e a despeito de ainda não ser adotado como método regular de obtenção
de células-tronco humanas, o método de Lanza serve para demonstrar que é possível

ADI 3.510/DF
compatibilizar a Lei com a Constituição, abrindo espaço para a pesquisa sem atentar
contra a vida do embrião.

Diante dos nascimentos saudáveis após o diagnóstico pré-implantação,
especula-se que os genitores não estariam dispostos a correr riscos autorizando a
extração de um blastômero de um embrião sobre o qual não pairasse uma razoável
probabilidade de anomalia genética. A Lei, contudo, trata de embriões congelados por
pelo menos três anos e de embriões inviáveis. Assim, se a lei presume que os pais
autorizariam a destruição mesma desses embriões, por que não autorizar a retirada de
uma única célula sem feri-lo?

De todo modo, ainda que não haja risco maior para o embrião - e anote-
se que qualquer procedimento em matéria médica envolve sempre algum risco, ainda
que risco mínimo - , é preciso averiguar eventual ofensa à sua dignidade, que não é
reduzida pelo só fato de estar o embrião congelado ou ser inviável. A extração de um
blastômero para fins de produção de uma linhagem de células-tronco não deixaria de
constituir uma utilização do embrião como meio para o atingimento de um fim, o que
faz lembrar a censura de Kant.

Há que se ponderar, todavia, se essa não é uma visão equivocada. Não
se trata de um embrião produzido apenas para a extração de células-tronco e, ao
contrário do método padrão, essa extração não resultará na sua destruição, o que não
inviabiliza os fins naturalmente concebidos para ele. Após a extração, que pode ser
comparada à doação de uma célula epitelial ou de qualquer outro tecido renovável, e,
ainda, à doação de um órgão, como o rim, o embrião poderá cumprir seu destino
natural, isto é, a implantação e o nascimento.

De acordo com o padrão que a Lei n° 11.105/2005 pretendeu
estabelecer no Brasil, outra fonte de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa
e terapia é o embrião dito inviável.

A Lei, contudo, não o define, pelo que talvez fosse o caso de deixar tal
definição à ciência.

Ocorre que a ciência não encontra, ainda, uma conceituação precisa.
Esse termo, em verdade, foi adotado e tem sido utilizado principalmente por

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profissionais envolvidos com os processos de reprodução assistida e tem servido para
designar o embrião inadequado para fins de reprodução, ou seja, aquele que tem
menos chance, não só de nascer, mas de vir à luz como um indivíduo saudável.

Assim é que não há um padrão ou um protocolo rígido para a
identificação desse embrião inviável. Diversos critérios são hoje aceitos e costumam
ser aplicados em paralelo em uma mesma clínica ou laboratório. São em geral visuais:
velocidade da divisão/clivagem, emparelhamento