Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
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a serem praticados não pode ser deixada a cargo
de usuários interessados apenas na eficácia e no custo-benefício. Isso é que
compatibiliza o método com a disciplina constitucional. Assim, os métodos Lanza e
Landry-Zucker, tal qual o de Yamanaka e qualquer outro que não acarrete a morte do
embrião, podem ser admitidos pela Constituição brasileira por cumprirem o objetivo de
estimular a pesquisa em área sensível para o desenvolvimento da humanidade sem o
sacrifício da vida, valor que deve ser respeitado e preservado.

Nessa direção apontou o Dr. Rao Mahendra, renomado pesquisador
americano, em recente estudo sobre as fontes alternativas de células-tronco
embrionárias ou pluripotentes:

"Concluímos com um pensamento que para alguns pode
parecer herético: talvez as restrições impostas pela administração Bush
tenham servido a um resultado positivo, intencional ou não, por levar a
um desenvolvimento de alternativas inovadoras. Mais ainda, talvez tanto
cidadãos quanto cientistas estejam mais preparados para essas
inovações. A ciência ofereceu mais de uma possível solução para o
dilema ético que envolve as pesquisas com células-tronco. Agora é hora

ADI 3.510/DF
de incentivar os criativos desenvolvimentos nas pesquisas que se
verificaram em diversas frentes e de receber aqueles dentre nossos
colegas que conseguiram, sozinhos e com reduzidos recursos, esses
avanços (. .)".

Por outro lado, torna-se relevante assinalar que não é possível manter
nessa área uma autorização independente de qualquer controle estatal centralizado
seja no que diz com a fiscalização das clínicas de reprodução assistida, seja no
desenvolvimento das pesquisas com relação às células-tronco. Não foram tomados
nem mesmo os mais óbvios cuidados no trato de um procedimento tão delicado, cujos
desvios éticos oferecem gravíssimos riscos de manipulação da espécie humana e de
utilização indevida do mais importante objeto da pesquisa científica na atualidade. É
fácil perceber que o art. 5º foi inserido em lei que originariamente não se destinava a
cuidar das pesquisas com células-tronco embrionárias.

Tudo isso enseja a sua disciplina através da interpretação constitucional
em suas diversas modalidades. De nada adianta a existência de comitês éticos nas
universidades se não existir um sistema único nacional capaz de concentrar os dados e
estabelecer registros apropriados para fiscalização, autorização e controle do que está
sendo feito, a exemplo do que ocorre na grande maioria dos países que já estão
desenvolvendo essas pesquisas. E isso quer dizer, também, impedir a mercantilização
que pode, como em qualquer setor, dominar essa área crítica para o próprio
fortalecimento da humanidade. Como todos sabem, a disputa por patentes nesse
segmento é assustadora e os recursos financeiros envolvidos são enormes.

Não se pode, na minha compreensão, pôr essa complexa questão em
termos tão simplistas como aqueles que opõem radicais de toda posição. E não é fácil
reconhecer esse fato. É necessário evitar qualquer tipo de fundamentalismo. Seria, por
exemplo, o dizer da Antigüidade em que a garantia do solo fértil ou da colheita
abundante exigia a oferta de presentes aos deuses. E o maior deles era o sacrifício de
uma vida humana, que abriria as portas petas quais adentraria a abundância
(BLAINEY, Geoffrey, Uma breve história do mundo, Fundamento, 2a ed., 2007, pág.
38). Esse simplismo, que a história da humanidade conhece, repete-se exaustivamente
de tempos em tempos e serve de alerta para que o crescimento humano do mundo não

ADI 3.510 /DF

se faça com preço que sacrifique a natureza humana.
Em nosso caso, a perspectiva do uso de células-tronco embrionárias a

partir dos embriões ditos inviáveis ou daqueles congelados nas clínicas de reprodução
assistida não pode, sob nenhum pretexto, resvalar para o absoluto sem a preservação
da vida. Impõe-se estabelecer padrão ético que nem deixe de considerar a bem-
aventurança da pesquisa, seja para fins puramente científicos, seja para fins
terapêuticos, nem deixe de privilegiar a importância do destino desejado pelos
genitores ao procurar a continuidade biológica por meio da fertilização in vitro. O que
se há de buscar é a preservação da vida e da dignidade do homem, assim, a
integridade da vida que nascerá se não sofrer interrupção natural ou provocada e a
possibilidade de avançar na descoberta do próprio mistério da vida.

De tudo o que foi exposto até aqui, são duas as conclusões a que
forçosamente se chega: (i) há uma urgente necessidade de controle da atividade das
clínicas de reprodução assistida, especialmente no que se refere aos procedimentos de
fertilização in vitro em geral e aos diagnósticos pré-implantacionais; e (ii) as pesquisas
com células-tronco embrionárias são importantes e não merecem ser obstadas,
observados limites e controles e desde que não causem a destruição do embrião, vida
humana protegida pela Constituição Federal.

O que causa perplexidade e, mais do que perplexidade, representa fonte
de grande preocupação é que a origem das pesquisas com células-tronco
embrionárias, nos termos da lei brasileira, está nas clínicas de fertilização in vitro que
operam, independentemente da seriedade de seus respeitáveis profissionais, sem
nenhuma fiscalização ou controle. Veja-se que a ANVISA - Agência Nacional de
Vigilância Sanitária não fiscaliza nem controla as clínicas, salvo quanto aos aspectos
físicos, das instalações. Mas não há nenhum sistema organizado de supervisão do
processo, com cadastro de embriões e registros adequados, incluída a identificação
genética, assim, por exemplo, nos diversos casos em que são realizados os
diagnósticos pré-implantação.

De fato, com a Resolução n° 33, de 2006, da Diretoria Colegiada da
ANVISA, os chamados Bancos de Células e Tecidos Germinativos (BCTG), assim

ADI 3.510 / DF
entendidos como todos os estabelecimentos que possuam em seu poder gametas e
embriões, neles incluídas as clínicas que guardam os embriões congelados, devem
informar semestralmente dados como (i) quantidades de sêmen, oócitos e embriões
congelados; (ii) tempo de congelamento; (iii) taxa de fertilização; (iv) taxa de
clivagem; (v) procedimentos adotados; e (vi) processos de classificação de embriões
(ou pré-embriões), o que já é alguma coisa. No entanto, segundo informação da própria
agência, através de sua Gerência Geral de Sangue, Outros Tecidos, Células e Órgãos
- GGSTO, ainda não foi possível, até o dia 10/4/2008, obter informações consolidadas
sobre os serviços dessas clínicas, até porque as vigilâncias sanitárias estaduais e
municipais ainda estão sendo capacitadas para a fiscalização. Apenas no dia 12 de
maio deste ano é que a Agência baixou a Resolução n° 29, pretendendo organizar um
banco de dados sobre os embriões em poder dos Bancos de Células e Tecidos
Germinativos a ser alimentado pelos próprios bancos, com obrigatoriedade somente
após o prazo de 60 (sessenta) dias. Vê-se, portanto, que atualmente não há nenhum
controle.

Tampouco há norma legal que proíba ou impeça a realização de
procedimentos inadmitidos em diversos ordenamentos, como a fertilização para fins
não reprodutivos, o uso do diagnóstico pré-implantação para seleção de sexo, a
destruição de embriões considerados inviáveis, a geração de grande número de
zigotos, a redução embrionária etc.

Muito menos se vê algum tipo de controle e reprimenda a procedimentos
que põem em risco os limites da própria espécie humana, como a clonagem
reprodutiva, a transferência nuclear, o transplante pronuclear, a fabricação de
quimeras, a conjugação de tecidos humanos e animais, tudo isso com conseqüências
ainda não vislumbradas.

A já citada Resolução n° 1.358/1992 do Conselho Federal de Medicina
serve como uma boa orientação ao estabelecer para a comunidade médica "Normas
Éticas Para a Utilização das Técnicas de Reprodução Assistida". Mas é pouco. A
realidade mostra que o Conselho, por suas limitações materiais e por suas