Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

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ponderáveis, consistentes de opinião em um sentido e de

opinião em outro sentido.

Eu, também, tentei evitar dizer que as células-tronco

embrionárias são mais promissoras para a Medicina do que as

células-tronco adultas, porque também há opiniões ponderáveis nos

dois sentidos.

Recentemente, um dos vencedores do prêmio Nobel de

Medicina e Fisiologia, aqui, no Brasil, Oliver Smithies, prestou

depoimentos dizendo que o debate sobre o uso de células-tronco

embrionárias humanas, em pesquisa, tomou o rumo errado. Ou seja, uma

coisa não inviabiliza a outra. As duas são pesquisas válidas e podem

Jacqueline.Sousa
Texto digitado

ADI 3.510 / DF

caminhar pari passu. Falou sobre o Supremo Tribunal Federal, dizendo

o seguinte:

"Gostaria que o Supremo Tribunal Federal
pensasse em células-tronco de modo diferente. Imagine
que eu seja um jovem morto num acidente de carro. Há
partes do meu corpo que ainda são úteis e podem ser
dadas a outras pessoas para manter suas vidas. Então,
parte de mim vive em outra pessoa. Se uma célula-
-tronco embrionária é feita para terapia, aquele
embrião não é morto, " - vale dizer, não há destruição
- "aquele embrião dá vida a outra pessoa."

Quer dizer, é um prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia

deixando claro que o que se chama de destruição do embrião não é

senão, em verdade, o resgate de uma perspectiva de vida em uma

terceira pessoa, dentro de uma filosofia rigorosamente fraternal ou

solidária. Se aquele embrião não tem a menor chance de entrar no

útero feminino - não é redundante dizer isso -, que ele seja

aproveitado para outros fins de terapia e assim servir à humanidade.

O que se extrai dessas iniciais considerações é o

seguinte: a Constituição, no art. 1º, inciso III, fala, sim, de

dignidade da pessoa humana, mas ela já se autoexplica: dignidade da

pessoa ou de um ser dotado de personalidade, porque só a pessoa

humana detém personalidade. A personalidade é um atributo da pessoa

humana.

Quando a Constituição, no art. 5a, fala "Dos Direitos

e Garantias Fundamentais", inclusive da vida, diz que assegura tais

direitos "aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País".

ADI 3.510 / DF

Ora, a toda evidência, um embrião não é um brasileiro. Ele não tem

nacionalidade. E, enquanto permanecer ali in vitro, fora do útero

materno, sem possibilidade de nidação, ele jamais vai ganhar uma

nacionalidade. Também não é um estrangeiro. Esta categoria de

brasileiro e de estrangeiro como condição para gozo "Dos Direitos e

Garantias Fundamentais", essa condição, para o embrião, é um

indiferente jurídico. 0 embrião jamais vai alcançar o status de

brasileiro ou de estrangeiro. Para que o embrião tenha direito à

vida, nos termos da Constituição, é preciso reconhecer a ele o

direito a um útero. E o embrião tem direito a um útero? Claro que

não! Eu estou falando do embrião in vitro, daquele embrião produzido

sem ato sexual, sem acasalamento, sem conúbio, que não é produzido

pela natureza, mas produzido pelo homem. Não é só a natureza que

produz o homem; o homem produz cientificamente o homem. Quer dizer,

é um embrião que não saiu de nenhuma mulher. O que saiu do corpo da

mulher foi um singelo óvulo desfecundado até então. Não saiu de

nenhum homem também. 0 que saiu do homem foi um jato, um jorro de

espermatozóides. Esse embrião in vitro jamais entrará - nos termos

da lei - no corpo de uma mulher. Nem saiu do corpo feminino, nem vai

entrar. Não há nidação; não há gravidez; não há maternidade no

sentido que eu expus; não há cérebro.

É isso o que está causando perplexidade aos juristas

de uma maneira geral. É que nós estamos lidando com uma realidade

ADI 3.510 / DP

absolutamente insimilar. É um embrião que não corresponde jamais ao

conceito de nascituro. Não há nascituro, muito menos alma. É de se

supor que a alma vem ao mundo para cumprir uma função e ela é

inteligente o suficiente para não ficar confinada em um vidrinho,

sob a forma de embrião.

De maneira que, à luz da Constituição, a vida não pode

começar senão por um embrião e que o embrião humano é, portanto, o

início de toda a vida. Daí não se pode derivar, extrair o raciocínio

de que embrião é pessoa humana. Ele é um bem a proteger

juridicamente. É um interesse juridicamente protegido, mas, à luz da

Constituição, não é uma pessoa. Até porque, Senhor Presidente, nos

trabalhos constituintes, houve três propostas para se proteger o

embrião, para se proteger o ser humano desde a concepção: uma

proposta da então Deputada Rita Camata; do então Deputado Carlos

Virgílio ; e da então Deputada Sandra Cavalcanti, nos capítulos "Da

Saúde" e "Da Família". Todas as três propostas foram rejeitadas. A

Comissão de Constituição e Justiça remeteu o tema para a lei

ordinária.

0 Código Civil diz, efetivamente, que "a personalidade

civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a

salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro" (art. 2º do

Código Civil). Ora, sem o ímã do útero, sem a vis atrativa do útero,

ADI 3.510 / DF

sem o húmus do útero, não há nascituro. Não há como alguém nascer do

lado de fora dessa entidade mágica que é o útero humano. Feminino.

Então, derivar do raciocínio de que não há vida humana

que não comece pelo embrião a afirmativa de que o embrião já é uma

pessoa não procede. Não é correto. Não se pode confundir embrião de

pessoa com pessoa embrionária. Não existe pessoa embrionária, mas

simples embrião de pessoa humana. Não incorramos na falácia indutiva

de que falava David Hume, ou seja, as premissas não autorizam a

conclusão.

Depois, a Constituição, no art. 6o, faz da saúde um

direito fundamental. E nós sabemos quantos cadeirantes estão à

espera das pesquisas com células-tronco embrionárias e sabemos o que

significa o Supremo Tribunal Federal cortar toda essa expectativa,

esse alento, ainda que a eficácia do tratamento só ocorra daqui a

cinco, seis, sete, oito anos, não interessa. É preciso recomeçar o

processo que foi estancado há três anos. E a saúde é um direito

fundamental que está no art. 6a da Constituição. Não pode esperar.

Mas não é só. A Constituição também, no art. 5a,

inciso IX, diz:

"é livre a expressão da atividade intelectual,
artística, científica e de comunicação"(...)

Ou seja, a inviolabilidade não é para o embrião ia

vitro, mas para a atividade científica em si. Aliás, a Constituição

ADI 3.510 / DF

prestigia tanto a liberdade acadêmica, a liberdade de cátedra, a

liberdade de pesquisa, a liberdade científica, enfim, que abriu todo

um capítulo com o nome de "Da Ciência e Tecnologia".

Como se não bastasse isso. Senhor Presidente. Olha,

não estou falando de filosofia nem teologia, nem de ciência pura,

nem de pesquisa básica, estou falando da Constituição brasileira.

Estou desfilando pela passarela da Constituição, de ponta a ponta,

para, na Constituição, buscar os fundamentos de meu voto, porque,

como disse a ministra Ellen Gracie, no seu luminoso voto na primeira

assentada, o que nos cabe é dar uma resposta jurídica constitucional

para a questão que nos é posta. Porque, no plano do direito, não

devemos nos perder no infinito das discussões. Há um ponto de

partida e há um ponto de chegada. A Constituição diz no art. 226, §

7°, com todas as letras, em alto e bom som:

"Fundado nos princípios da dignidade da pessoa
humana".

Agora, sim, a Constituição diz dignidade da pessoa

humana. Não é por ilação ; não é por abstração ; não é por uma

construção cerebrina; estou lendo o texto:

"e da paternidade responsável o planejamento
familiar é livre decisão do casal".

ADI 3.510 / DF

Ou seja, a dignidade da pessoa humana também se

manifesta na liberdade decisório-familiar. Planejar o número de

filhos, a quantidade de filhos, a possibilidade de assisti-los

afetiva e materialmente, tudo isso é matéria regrada pela

Constituição com este emblemático nome de "paternidade