Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I32 materiais158 seguidores
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responsável". 
O planejamento familiar responsável é liberdade, direito fundamental 
do casal. Como se fosse pouco, a Constituição arremata o seu 
discurso por esta forma: 
"competindo ao Estado propiciar recursos 
educacionais e científicos". 
Daí a reprodução assistida; daí a produção do embrião 
in vitro, em placa de Petri. Enfim, diz a Constituição: 
"para o exercício desse direito". 
E vai além. Não fica nisso não. 
"vedada qualquer forma coercitiva por parte 
de instituições oficiais ou privadas." 
Então, quando uma sentença "aditiva" é proposta, fico 
preocupado porque me remeto para essa parte final do dispositivo 
constitucional: 
"vedada qualquer forma coercitiva por parte de 
instituições oficiais ou privadas." 
ADI 3.510 / DF 
Essa liberdade científica, signo de evolução ou de 
status civilizatório avançado e de consolidação do processo 
democrático, está numa pesquisa recentemente feita pela ANIS dando 
conta de que - Vossas Excelências devem ter recebido o memorial -
dos vinte e cinco Estados com nível de desenvolvimento tecnológico 
comparado ao Brasil, vinte e quatro fazem pesquisas com células-
-tronco embrionárias. 
O estudo desenvolvido sob os auspícios do Ministério 
da Saúde abrangeu vinte e cinco países, nos quais se concentram 
- isso é muito importante - mais da metade da população do planeta. 
Noventa por cento das publicações científicas e onde se encontram 
presentes todas as principais religiões praticadas no mundo : 
cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo e hinduísmo. Nele se 
constatou que um único país, a Itália, proíbe as pesquisas; outros 
dois apresentam restrições que não impedem sua realização: os 
Estados Unidos, onde se limita o financiamento por parte do governo 
federal, mas não dos Estados, que têm investido maciçamente, e a 
Alemanha, que proíbe a utilização de embriões produzidos em seu 
território, mas não a importação; ou seja, não a importação de 
linhagens embrionárias. 
Fiz uma pesquisa sobre essa lei italiana e constatei 
que ela, de tão detalhista, praticamente engessa a ciência. Impõe 
metodologias rigorosas e especificação de procedimentos e definições 
ADI 3.510 / DF 
técnico-cietíficas nela própria, na lei, e o fato é que tudo isso 
foi objeto de declaração de inconstitucionalidade por três tribunais 
italianos; quer dizer, é uma lei que peca por excesso. Estamos a 
falar de uma lei brasileira supostamente defeituosa por 
insuficiência regratória, e temos, na Itália, um caso absolutamente 
inverso em que a lei - exatamente por engessar a ciência e trabalhar 
com conceitos que a própria ciência vai produzindo à medida que as 
novas tecnologias e o redimensionamento de novos quadros mentais vão 
surgindo - sofreu um contraponto por parte de três tribunais, o de 
Cagliari, o de Firenze e o de Lazio, na Sentença 398, datada de 31 
de outubro de 2007 e depositada em 21 de janeiro de 2008. Essas 
decisões suspenderam dispositivos da lei que vedavam a verificação 
de má formação genética do embrião antes do implante e a limitação 
em três do número de embriões fecundados com a obrigatoriedade de 
implante imediato deles; ou seja, obrigando as mulheres a 
engravidarem. Tudo isso os tribunais decidiram com base na 
Constituição italiana, que se aproxima muito da nossa. 
Diz a Carta italiana: "Todos os cidadãos têm a mesma 
dignidade social" e "são iguais perante a lei". Diz mais: "a saúde é 
direito fundamental do indivíduo". Logo, alei não pode, em nenhum 
caso, atentar contra a dignidade da pessoa humana. 
Por isso que, diante do risco ou do perigo de excesso 
do poder do legislador, consignaram os tribunais: não há um direito 
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ADI 3.510 / DF 
absoluto do embrião frente ao da "dona" ou mulher que o abrigue. É 
que os italianos vivenciaram recentemente o que estamos 
experimentando aqui nesta sessão. Está-se a propor, aqui, uma 
sentença de caráter aditivo, mesclada com interpretação conforme, 
para dotar a lei brasileira de uma exuberância regratória que, em 
matéria científica e de saúde, já foi considerada inconstitucional 
pela Corte italiana; depois, a proposta de interpretação conforme 
pressupõe - todos nós sabemos - uma polissemia, uma 
plurissignificatividade do texto legal sob exame que não me parece 
própria do artigo sob análise. Pelo que não tenho como cabível para 
o caso a técnica de interpretação "conforme a Constituição". 
Senhor Presidente, concluo dizendo que nossa 
Constituição, legitimadora da Lei de Biossegurança, só merece 
elogios. A lei, em si, não é de bioinsegurança, vamos atentar bem 
para as coisas. Ao contrário, a lei é de biossegurança. Conforme 
disse o ministro Celso Lafer, chanceler tão respeitado por todos 
nós, que é um jusfilósofo de reconhecido peso científico no Brasil e 
no mundo, a lei fez adequadamente a ponderação de interesses e de 
valores pelo seu art. 5a, que estamos examinando, e está ancorada 
numa Constituição da mais enxuta contemporaneidade. 
Tenho para mim que, em matéria de saúde, em matéria 
de ciência, em matéria de dignidade da pessoa humana e liberdade do 
casal para procriar a seu modo e tempo, a nossa Constituição 
ADI 3.510 / DF 
homenageou dois luminares do pensamento ocidental. O primeiro foi 
Goethe, que morreu dizendo "luz, mais luz ainda"; e o segundo foi 
Victor Hugo, dizendo o seguinte: "nada é tão irresistível quanto a 
força de uma ideia cujo tempo chegou". E a Medicina Celular ou 
Regenerativa encontrou, nas palavras precisas de Dráuzio Varella, 
também acatado médico brasileiro, a seguinte emissão de juízo, com a 
qual termino minha intervenção. 
O EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO MENEZES DIREITO: 
Senhor Presidente, só queria registrar, com todo 
respeito, que eu não vou redargüir as observações feitas pelo meu 
eminente querido amigo Carlos Britto, incluída a questão técnica que 
nós todos, o Ministro Carlos Britto sabe que, se estamos sentados 
aqui, a conhecemos razoavelmente bem, em respeito ao tempo dos 
Colegas e ao adiantado da hora, mas presto também as minhas 
homenagens ao Ministro Carlos Britto. 
O SENHOR MINISTRO CARLOS BRITTO (RELATOR) - Senhor 
Presidente, renovo meu juízo de louvor ao voto proferido pelo 
ministro Carlos Alberto Menezes. 
É que o ordenamento jurídico é assim mesmo. Ele se 
vaza numa estrutura de linguagem. Estamos aqui dissentindo no plano 
das ideias, mas sem nenhum confronto de ordem pessoal. 
Finalmente, Dráuzio Varella disse o seguinte: 
ADI 3 . 510 / DF 
"Ninguém se engane, a Medicina celular ou 
regenerativa vai cumprir no século XXI a mesma função 
revolucionária que o antibiótico cumpriu no século 
XX". 
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28/05/2008 TRIBUNAL PLENO 
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3.510-0 DISTRITO FEDERAL 
E X P L I C A Ç Ã O 
O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES (PRESIDENTE) 
Senhores Ministros, terminamos mais uma vez uma parte desta sessão, 
mais uma assentada memorável. 
Gostaria, ao encerrar esta parte da sessão, de 
registrar a importância deste debate, e a importância, inclusive, do 
pedido de vista previsto regimentalmente e, também, no Código de 
Processo Civil. 
Não podemos olvidar que a jurisdição constitucional 
legitima-se democraticamente pela reflexão e pela argumentação 
produzidas segundo a racionalidade própria das normas e 
procedimentos que conduzem os julgamentos. 
Trago à tona as lições de Robert Alexy, para afirmar 
que "o parlamento representa o cidadão políticamente, o tribunal 
constitucional argumentativamente". 
É o que nós estamos a fazer aqui. A sociedade 
brasileira só tem a ganhar com a produção de um debate qualificado 
argumentativamente, com a reflexão pormenorizada, com o julgamento 
rigoroso por parte desta Corte. 
2 8 / 0 5 / 2 0 0 8 TRIBUNAL PLENO 
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3 . 5 1 0 - 0 DISTRITO FEDERAL 
ANTECIPAÇÃO AO VOTO 
A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - Senhor Presidente, 
sejam de cumprimento as minhas primeiras palavras ao eminente 
Ministro-Relator