Jurisprudência Nascituro (3)
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Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
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Jacqueline.Sousa
Texto digitado
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ADI 3.510 / DF

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A alegação, portanto, de que haveria desnecessidade de continuação

das pesquisas com células-tronco embrionárias, para se dar cumprimento aos
princípios e regras constitucionais relativas ao direito à saúde e à
dignidade da vida humana, não tem embasamento científico.

De resto, cumpre realçar que a lei em causa não está excluindo a
utilização das células-tronco adultas em pesquisa e, nesse caso, até mesmo
nas terapias já conhecidas e em outras novas, que possam vir a sê-lo. Não
se cuidam de linhas de pesquisa e utilização em tratamento excludentes as

que se referem às células-tronco adultas e às células-tronco embrionárias.
Antes, elas devem ser auxiliares para o benefício de quem necessite do

tratamento com que pode ser acudido o doente conforme o seu caso e a sua

necessidade.

11. Tem-se, na peça inicial da ação, que “a vida humana acontece na,

e a partir da, fecundação ... a vida humana é contínuo desenvolver-
se...estabelecidas tais premissas, o artigo 5º e parágrafos, da Lei n.
11.105, de 24 de março de 2005, por certo inobserva a inviolabilidade do

direito à vida, porque o embrião é vida humana e faz ruir o fundamento
maior do Estado democrático de direito, que radica na preservação da
dignidade da pessoa humana...”.

12. Quanto a ser a utilização de células-tronco embrionárias uma
forma de violação do direito à vida, talvez conviesse se partir do que
significa a violabilidade e o seu contrário, vedado constitucionalmente em
relação ao direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade (art. 5º, caput, da Constituição brasileira1).

Violar tem o sentido de infringir com violência, transgredir ou

ofender o que posto pelo direito. A inviolabilidade do direito à vida, que
o Procurador-Geral da República põe como estando descumprido pelo art. 5º
e parágrafos da Lei n. 11.105/2005, não pode ser interpretada a partir da
idéia de direito absoluto.

Todo princípio de direito haverá de ser interpretado e aplicado de
forma ponderada segundo os termos postos nos sistema. Como acentuado pelo

Supremo Tribunal Federal

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Procurador-Geral da República em sua petição, dignidade humana é
princípio, e esse se aplica na ponderação necessária para que o sistema
possa ser integralmente acatado. Mesmo o direito à vida haverá de ser
interpretado e aplicado com a observação da sua ponderação em relação a

outros que igualmente se põem para a perfeita sincronia e dinâmica do

sistema constitucional. Tanto é assim que o ordenamento jurídico
brasileiro comporta, desde 1940, a figura lícita do aborto nos casos em

que seja necessário o procedimento para garantir a sobrevivência da
gestante e quando decorrer de estupro (art. 128, incs. I e II, do Código
Penal).

Comentando aquelas normas penais (referentes ao aborto terapêutico e
ao aborto necessário), acentuava Nelson Hungria que “o aborto terapêutico
foi resolvido pelo nosso legislador penal com critérios de política
criminal, e não com princípios da religião católica. Trata-se de um caso
especialmente destacado de ‘estado de necessidade’. ... Muito antes da

Reforma, quando a religião católica era a religião do Estado e não sofria
contrastes, já o direito secular não vacilava em admitir a impunidade do
aborto terapêutico. A palavra de Santo Tomás de Aquino, de que innocentes
nullo pacto occidere licet, não teve repercussão na lei social, que é
editada para o plano terreno, e não para a Civitas Dei. Do ponto de vista

humano-social, é despropósito sacrificar a gestante e o feto, quando
aquela pode ser salva com sacrifício deste. Semelhante absurdo não passou

despercebido ao padre Agostinho Gemelli, o maior sábio que a Igreja possui
na atualidade, e no Congresso Obstétrico reunido em Milão, no ano de 1931,
explicou ele, interpretando a encíclica Casti Connubit, que era permitido

o aborto indireto, isto é, conseqüente à ministração de meios terapêuticos
sem intenção positiva de eliminar o feto, ainda que este venha a morrer ou

ser expulso prematuramente. Ora, esse apelo ao aborto indireto é apenas
uma acomodação com o céu, um expediente ardilosamente excogitado para
conciliar escrúpulos religiosos com a imperativa necessidade prática.
Tanto vale querer um resultado quanto assumir o risco de produzi-lo”

(Comentários ao Código Penal. Rio de Janeiro: Forense, 1958, v. V, p.
307/8).

Supremo Tribunal Federal

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De pronto se registre que o presente caso nada tem a ver com o

aborto, que é interrupção da gravidez. Na hipótese prevista na lei em
foco, não há gravidez, logo não se há cogitar, sequer longiquamente, da
questão do aborto. A citação aproveitada acima, portanto, tem o condão

exclusivo de demarcar o estatuto jurídico-constitucional do direito à vida
e sua aplicação a situações diferentes.

A inviolabilidade do direito à vida constitucionalmente positivada
é, nos termos precisos de José Afonso da Silva “uma determinante
normativa, como objeto da garantia, em que o artigo definido revela o
conteúdo intrínseco dos direitos enunciados, valendo dizer que eles contêm
em si a qualidade essencial de serem invioláveis. Não é a Constituição que
lhes confere a inviolabilidade; ela reconhece essa qualificação conceitual

pré-constitucional, e, por isso, preordena disposições e mecanismos que a
assegurem...”(Comentário contextual à Constituição. São Paulo: Malheiros,
2007, p. 65).

Ao reconhecer a Constituição ser inviolável o direito à vida,
expressa ela, em todo o seu texto e no contexto traçado em torno dos

direitos fundamentais, outros direitos, como o da liberdade e o da saúde,
que tornam possível a efetivação daquele primeiro. Há de se interpretarem
todos eles para se concluir sobre a validade constitucional, ou não, do

art. 5º e seus parágrafos, da Lei n. 11.105/2005.

O art. 5º, inc. IX, e art. 218, da Constituição brasileira e o art. 5º, da

Lei n. 11.105/2005

13. Ao fixar a liberdade de pesquisar cientificamente, de informar e

de ser informado sobre as pesquisas científicas e seus resultados, sobre

usufruir deles quando positivos, segundo padrões éticos que se afinem com
os princípios democráticos, a Constituição garante a efetivação do direto
à vida digna, propiciando que vivam melhor aqueles que, por qualquer
adversidade, não podem contar com a plena condição de saúde física,
psíquica e mental. Põem-se na esteira destes princípios as normas contidas

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Texto digitado
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no art. 5º e parágrafos, da Lei n. 11.105, pelo que não há discordância
entre o que neles contido e o que afirmado constitucionalmente.

A Constituição garante não apenas o direito à vida, mas assegura a
liberdade para que o ser humano dela disponha; liberdade