Jurisprudência Nascituro (3)
526 pág.

Jurisprudência Nascituro (3)

Disciplina:Teoria Geral do Direito Privado I20 materiais121 seguidores
Pré-visualização50 páginas
para se dar ao

viver digno. Não se há falar apenas em dignidade da vida para a célula-
tronco embrionária, substância humana que, no caso em foco, não será
transformada em vida, sem igual resguardo e respeito àquele princípio aos
que buscam, precisam e contam com novos saberes, legítimos saberes para a

possibilidade de melhor viver ou até mesmo de apenas viver. Possibilitar
que alguém tenha esperança e possa lutar para viver compõe a dignidade da
vida daquele que se compromete com o princípio em sua largueza maior, com

a existência digna para a espécie humana.

14. Preceituam os arts. 5º, inc. IX, e 218, da Constituição

brasileira:

“Art. 5º - ...

IX. é livre a expressão da atividade intelectual, artística,
científica e de comunicação, independentemente de censura ou

licença;...”

“Art. 218. O Estado promoverá e incentivará o desenvolvimento
científico, a pesquisa e a capacitação tecnológicas.

§ 1º - A pesquisa científica básica receberá tratamento
prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso
das ciências”.

A liberdade de expressão da atividade intelectual e científica é
considerada um dos fundamentos constitucionais do art. 5º, da Lei n.

11.105/05. Bem assim o desenvolvimento científico e a pesquisa que podem
servir à melhoria das condições de vida para todos. A compatibilização de
tais regras com os princípios magnos do sistema, aí assegurada, sempre e

em todo e qualquer caso a dignidade humana, dota-as do necessário
fundamento constitucional, de modo a não se reconhecer nelas qualquer eiva

a inválidá-las.

Supremo Tribunal Federal

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622

Jacqueline.Sousa
Texto digitado
342

ADI 3.510 / DF

18

Não há violação do direito à vida na garantia da pesquisa com
células-tronco embrionárias, menos ainda porque o cuidado legislativo
deixou ao pesquisador e, quando vier a ser o caso, ao cientista ou ao

médico responsável pelo tratamento com o que da pesquisa advier, a
exclusiva utilização de células-tronco embrionárias inviáveis ou
congeladas há mais de três anos. Se elas não se dão a viver, porque não
serão objeto de implantação no útero materno, ou por inviáveis ou por
terem sido congeladas além do tempo previsto na norma legal, não há que se
falar nem em vida, nem em direito que pudesse ser violado.

Liberdade de pesquisa com células-tronco embrionárias e o direito à vida

14. Alguns dos amici curiae fazem a defesa da tese de

inconstitucionalidade das normas questionadas pelo Procurador-Geral da

República, com base no art. 4º do Pacto de São José de Costa Rica –
tratado de direitos humanos firmado pelo Brasil –, segundo o qual “Artigo

4º - Direito à vida 1. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua
vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o

momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.”

Se de um lado é garantido o direito à vida – e para os defensores da
tese sustentada na peça inicial desta ação haverá inconstitucionalidade
nas normas questionadas exatamente porque essa garantia vale desde a

concepção e o embrião já seria vida garantida em sua inviolabilidade e não
poderia, então, ser destruído -, de outro lado aquela norma pactuada

internacionalmente há de receber interpretação a partir de todos os seus
termos, nos quais se contém proibição de que alguém possa dela ser privado
arbitrariamente.

Dá-se que a lei e o arbítrio são incompossíveis e, no caso agora
analisado, não se cuida do segundo – arbítrio - exatamente porque os

termos da norma legal apreciada firmam o sentido contrário a abuso levado
a efeito pela pesquisa com os embriões. Nem se há de afirmar que haveria
arbítrio no aproveitamento de células-tronco embrionárias, porque ali se
tem uma substância humana, que se propõe seja utilizada para a

Supremo Tribunal Federal

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622

Jacqueline.Sousa
Texto digitado

Jacqueline.Sousa
Texto digitado

Jacqueline.Sousa
Texto digitado
343

Jacqueline.Sousa
Texto digitado

ADI 3.510 / DF

19

dignificação da vida daqueles que se podem ver tratados com os

procedimentos a que podem dar ensejo as pesquisas feitas.

A sua utilização conforma-se aos cuidados e condições definidas na

lei, pelo que de arbítrio não se há de falar aqui. O embasamento
constitucional, neste caso, parece incontestável.

15. Dispõe o art. 199, § 4º, da Constituição brasileira:

“Art. 199 - ...

§ 4º - A lei disporá sobre as condições e os requisitos que
facilitem a remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para
fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta,

processamento e transfusão de sangue e seus derivados, sendo vedado

todo tipo de comercialização.”

 A célula-tronco embrionária, mencionada na Lei n. 11.105/2005, tem
exatamente a natureza de substância humana. Logo, não apenas não haveria

incompatibilidade entre a norma constitucional e a norma legal

questionada, como ainda se poderia afirmar que a lei cuida de um fator

humano que não mais pode ser utilizado para os fins a que inicialmente ele

se destinou, pois os incisos I e II do art. 5º daquele diploma legal

estabelecem que será permitido pesquisa e terapia com células-tronco
embrionárias inviáveis ou congeladas no período legalmente assinalado. O
período de três anos de congelamento, registre-se, é aquele que determina
um marco após o qual a viabilidade do procedimento de implante da célula-
tronco embrionária torna-se pequena. As clínicas de reprodução assistida
dispõem de estatísticas, apresentadas em trabalhos divulgados

cientificamente, a comprovar que, após o triênio, a chance de o embrião
se viabilizar é baixa. Apesar de congelado, as membranas tendem a oxidar-
se, não lhes garantindo o resultado desejado.

A substância humana aqui considerada consiste no que se denominou

embrião, ou célula-tronco embrionária, que tem origem após a fecundação de
um óvulo por um espermatozóide com a formação da célula ovo, que contém em

Supremo Tribunal Federal

Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001, que institui a Infra-estrutura de Chaves Públicas Brasileira - ICP-Brasil. O
documento pode ser acessado no endereço eletrônico http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o número 566622

Jacqueline.Sousa
Texto digitado
344

ADI 3.510 / DF

20

seu núcleo 46 cromossomos, sendo 23 originários do espermatozóide e os
outros 23 do óvulo. Essa célula, substância genética, é resultado da
junção de outras duas células humanas e tem a finalidade de gerar todos os
tecidos de um indivíduo adulto devido a sua pluripotencialidade.

 Nessa condição, resultado do que acima asseverado, pode-se dizer que

essa matriz humana há ser tida como uma das substâncias humanas que a
Constituição permite possam ser manipuladas com vistas ao progresso

científico da humanidade e à melhoria da qualidade de vida dos povos,
respeitados, como é óbvio, os demais princípios constitucionais afirmados
e que se compatibilizam com o quanto posto naquela norma constitucional.

 O art. 225, § 1º, inc. II, da Constituição brasileira estabelece o

princípio da solidariedade entre as gerações, como forma de garantir a

dignidade da existência humana, quer dizer, não apenas a dignidade do

vivente (agora), mas a dignidade do viver e a possibilidade de tal
condição perseverar para quem vier depois.

 Reza aquele artigo: