Soc. Limitada ou S.A. Fechada
43 pág.

Soc. Limitada ou S.A. Fechada


DisciplinaDireito Empresarial I16.633 materiais87.711 seguidores
Pré-visualização21 páginas
246.475-DF (agravo regimental no agravo de instru­
mento). Dl 1.8.2000 
77. Vale lembrar que, para o INSS e para aju­
risprudência trabalhista, o simples descumprimento 
da obrigação de pagar o tributo ou verba trabalhista 
configura descumprimento da lei, com a conseqüen­
te responsabilização direta dos sócios. Conforme se 
demonstrará, esse entendimento configura o supra­
SUmo da violação dos mais comezínhos princípios 
constitucionais que regem a Ordem Econômica Na­
cional. 
diretamente atividade econômica quando 
tal for necessário para resguardar a segu­
rança nacional ou houver em questão rele­
vante interesse coletivo. Fora dessas hipó­
teses compete, por óbvio, à iniciativa pri­
vada o exercício das ati vidades econômi­
cas, limitando-se o Estado a incentivar e 
fiscalizar essa última, sendo suas ações (ex­
postas preferencialmente nos Planos Plu­
rianuais, Diretrizes orçamentárias e orça­
mento anual- art. 165, CF/l988) indica­
tivas para o setor privado (art. 174, CF! 
1988). 
Ora, se à iniciativa privada compete 
ordinariamente o exercício das atividades 
econômicas, sendo certo ainda que essa úl­
tima tem por fim "assegurar a todos exis­
tência digna" (art. 170 da CF/l988), o que 
a Constituição acaba por determinar é que 
será aquela a responsável pela obtenção 
desse objetivo constitucional. Dessa forma, 
qualquer ato (seja emanado do Poder Legis­
lativo ou Judiciário) que amesquinhe a con­
dução da ordem econômica pela iniciativa 
privada é inconstitucional. 
A doutrina comercialista é unânime em 
afirmar e demonstrar que o desrespeito às 
regras de responsabilidade limitada restrin­
ge a livre condução das atividades econô­
micas, pois, caso negado ao empreendedor 
o que podemos chamar de "direito ao in­
sucesso", pouquíssimas pessoas se aventu­
rariam a criar empresas (com prejuízo à 
sociedade corno um todo), e, quando o fi­
zessem, a taxa de retorno deveria ser alta o ~ 
bastante para compensar o risco de perda 
de todo o patrimônio do agente (novamen­
te com prejuízo geral, especialmente para 
os consumidores). 
A respeito do tema, confira-se a lição 
do amigo e advogado mineiro Flávio de 
Mendonça Campos. Pela importância do 
tema e pela qualidade dos argumentos, cita­
se o trecho pertinente na íntegra, especial­
mente por não ter sido publicado: 
"O que se quer enfatizar com tais ob­
servações é que a limitação da responsabi­
lidade dos sócios, traço nuclear do regime 
62 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL- I 33 
jurídico das sociedades por quotas, não é 
mero acidente ou mesmo regra menor do 
Direito Positivo; corresponde, reversamen­
te, ao reconhecimento politico-juridico de 
uma necessidade social altamente relevan­
te, constituindo um valor em si e um meio 
para a realização de diversos valores fun­
damentais dos ordenamentos jurídicos con­
temporâneos. 
"Discorrendo sobre o princípio da 
autonomia patrimonial, Fábio Ulhoa Coe­
lho sintetiza com acuidade as razões de or­
dem ética, política, econômica e social que 
convergem para que o Direito prestigie a 
distinção entre o patrimônio da sociedade 
e o patrimônio dos sócios, de forma a que 
os riscos por estes assumidos se limitem, 
em princípio, aos investimentos feitos na 
sociedade, correndo por conta desta os 
riscos quanto aos prejuízos do empreendi­
mento: 
"'Claro está que muitos empreendedo­
res poderiam ficar desmotivados em se lan­
çar a novos e arriscados empreendimentos 
se pudessem perder todo o patrimônio pes­
soal caso o negócio não prosperasse. Não 
se pode esquecer que fatores relati vamente 
imprevisíveis, sobre os quais os empresá­
rios não têm nenhum controle, podem, sim­
plesmente sacrificar a empresa. A motiva­
ção jurídica se traduz pela limitação das 
perdas, que não devem ultrapassar as rela­
cionadas com os recursos já aportados na 
atividade. Essa será a parte do prejuízo dos 
sócios da sociedade empresária falida; a 
parte excedente será suportada pelos cre­
dores, muitos deles empresários e também 
exercentes de atividades de risco. A limita­
ção das perdas, em outros termos, é fator 
essencial para a disciplina da atividade eco­
nômica capitalista. 
"'Um outro aspecto da questão diz res­
peito ao custo da atividade econômica, ele­
mento que compõe o preço a ser pago pe­
los consumidores ao adquirirem produtos 
e serviços no mercado. Se o direito não dis­
puser de instrumentos de garantia para os 
empreendedores, no sentido de preservá­
los da possibilidade de perda total, eles ten­
derão a buscar maior remuneração para os 
investimentos nas empresas. Em outros ter­
mos, apenas aplicariam seus capitais em 
negócios que pudessem dar lucro suficien­
te para construírem um patrimônio pessoal 
de tal grandeza que não poderia perder-se 
inteiramente na hipótese de futura e even­
tual responsabilização. Ora, para gerar lu­
cro assim, a sociedade deve reduzir custos 
e praticar preço elevado. O princípio da 
autonomia patrimonial das pessoas jurídi­
cas, observado em relação às sociedades 
empresárias, socializa as perdas decorreu­
tes do insucesso da empresa entre seus só­
cios e credores, propiciando o cálculo em­
presarial relativo ao retorno dos investimen­
toS.'78 
"Por tais razões, a limitação da res­
ponsabilidade dos sócios ou, mais ampla­
mente, a autonomia patrimonial, constitui, 
hoje, um dos pilares mestres do Direito de 
Empresa." Muito embora tal abordagem 
não seja comum na doutrina, é possível 
mesmo divisá-lo como princípio, ainda que 
78. Ob. cit., p. 38. 
79. Nos dizeres de Fábio Ulhoa Coelho, um 
dos "fundamentos do direito societário". É indiscu­
tível que "a velha sociedade coletiva, na qual se em­
penhavam ilimitadamente os sócios com suas pes­
soas e patrimônios, tornou-se obsoleta" (Nelson Abrão, 
ob. cit.. P. 36). A manutenção, no novo Código Ci­
vil, de figuras como a sociedade simples (arts. 997 a 
1.038) e a sociedade em nome coletivo (arts. 1.039 a 
1.044) explica-se mais como apego à tradição do que 
por qualquer outra razão. À exceção da sociedade 
em comum, não personificada (a antiga "sociedade 
de fato"), cuja disciplina se reveja útil num país com 
economia altamente marcada pela "informalidade", 
estas figuras (sociedade em nome coletivo, socieda­
de simples, mesmo a sociedade em comandita) são 
marcadas pela senilidade precoce; nascem fadadas 
ao desuso, em face da constatação de que pratica­
mente a totalidade das sociedades empresariais per­
sonificadas no Brasil são sociedades por quotas de 
responsabilidade limitada (imensa maioria) ou anô­
nimas. E é natural que assim o seja. A complexidade 
da atividade empresarial no contexto econômico con­
temporâneo não se compadece com um regime jurí­
dico em que os sócios assumam integralmente os ris­
cos demalogro da empresa. A própria idéia de socie­
dade personificada, dissociada da idéia de autono­
mia patrimonial, perde grandemente (senão totalmen­
te) sua utilidade prática. 
I
 
L 
::
"',,',',' 
ATUALIDADES 63 
implícito, de matiz constitucionaL Senão, 
vejamos, 
"Constituição Federal, ainda que per­
meada de um sem número de normas e prin­
cípios de cunho socializante, fez uma clara 
opção pelo capitalismo, ao dispor que o 
exercício das ati vidades empresariais é re­
servado aos particulares; que tal exercício 
é livre, não sendo possível ao Estado 
direcionar à/orça o exercício das ativida­
des empresariais, sendo seu planejamento 
econômico meramente indicativo para o 
setor privado; que, finalmente, o Estado só 
poderá atuar empresarialmente na econo­
mia em situações absolutamente excepcio­
nais (CF/1988, arts 170, 173 e 174). Como 
lembra Celso Antônio Bandeira de Mello: 
&quot;<Considerando-se panoramicamente 
a interferência do Estado na ordem econô­
mica, percebe-se que esta pode OCOlTer de 
três modos, a saber: (a) ora dar-se-á atra­
vés de seu 'poder de polícia', isto é, median­
te leis e atos administrativos para executá­
las, como 'agente normativo e regulador da 
atividade econômica', caso no qual exer­
cerá funções de 'fiscalização' e em que o 
planejamento que conceber será meramen­