Soc. Limitada ou S.A. Fechada
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te 'indicativo para o setor privado' e 'deter­
minante para o setor público', tudo confor­
me prevê o art. 174 [da CF/1988]; ora o 
fará (b) mediante incentivos à iniciativa pri­
vada (também supostos no art. 174), esti­
mulando-a com favores fiscais; e ora (c) ele 
próprio, em casos excepcionais, como logo 
se dirá, atuará empresarialmente no setor, 
mediante pessoas que cria par tal fim.' 3D 
"Ora bem, ao reconhecer na iniciati­
va privada, na atividade empresarial pri­
vada, a força motriz principal da ordem 
econômica, é evidente que a Constituição 
a reconhece não apenas como um valor em 
si (art. 3º, IV, expressão fundamental do 
direito à liberdade - CF/1988, arts. 3º, I, 
Sº, caput, e 170 - e da garantia fundamen­
tal da propriedade privada - CF/1988, art. 
5º, XXII), mas também como o meio para 
80. Curso de Direito Administrativo, 14ê ed., 
p.619. 
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realização dos objetivos fundamentais do l,
 
Estado neste campo: reconhece, portanto,
 
a Constituição considera que é (sobretudo
 
e fundamentalmente) a atividade empresa­
rial que propiciará o fim previsto no art.
 
170 ('assegurar a todos existência digna,
 
conforme os ditames da justiça social') e,
 
em larga medida (ao menos naquilo que ti­
ver dependência do econômico) os objeti­
vos fundamentais da República elencados
 
no art. 3º ('construir uma sociedade livre,
 
justa e solidária', 'garantir o desenvolvi­
mento nacional', 'erradicar a pobreza e a
 
marginalização e reduzir as desigualdades
 
sociais', 'promover o bem de todos'). Em
 
suma, a Constituição reconhece que a ati­
vidade empresarial gera importantíssimos
 
e imprescindíveis benefícios sociais; que o
 
exercício daquela atividade, quando bem
 
sucedido, não beneficia apenas o empresá­
rio, mas toda a sociedade, através da gera­
ção de empregos, da criação de riquezas,
 
do desenvolvimento sócio-econômico etc.
 
"Em sendo assim, e urna vez reconhe­
cido que a autonomia patrimonial é condi­
ção fundamental para o exercício pleno e 
livre das atividades empresariais, é lícito 
dizer que a garantia desta autonomia cons­
titui mesmo um princípio constitucional 
implícito. Tal assertiva pode ser confirma­
da tanto por inferência lógica quanto a par­
tir de dispositivos específicos da Constitui­
ção FederaL 
"No campo da inferência lógica, vol­
ta-se aos argumentos de Fábio Ulhoa Coe­
í ~lho. 
"É induvidoso que a autonomia patri­ !í '. t
monial constitui poderosíssimo incentivo à 
iniciativa empresarial privada. Sem ela di­ i" 
ficilmente teríamos o pleno desenvolvimen­
to econômico almejado pela Constituição ,t
(art. 3º, lI) e os benefícios sociais que dele t' 
resultam (notadamente a geração de empre­
gos, frustrando a erradicação da pobreza, a Iredução das desigualdades sociais e a ga­
rantia a todos de urna existência digna ­
CF/1988, arts. 3º, Ill, e 170, caput), uma 
vez que o nível de investimentos privados 
nas atividades empresariais diminuiria dras­
~-
64 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL-I 33 
ticamente. Qualquer atividade de maior 
vulto econômico, que não excedesse à mera 
economia de subsistência do empresário e 
que por isso apresentasse risco significati­
vo seria preterida, ou somente seria perse­
guida por quem tivesse segurança patrimo­
nial suficiente para bancar o risco respecti­
vo. O efeito de concentração econômica 
que adviria desta situação é evidente e con­
trário aos objetivos da livre concorrência 
(CF/l988, art. 170, IV). Inúmeras outras 
atividades simplesmente não seriam perse­
guidas, pela inexistência de investidores 
privados dispostos a assumir seus riscos 
(num sistema de sua sujeição integral a todo 
e qualquer prejuízo advindo do fracasso 
empresarial), forçando o Estado a ampliar 
desmesuradamente sua atuação como agen­
te econômico direto (o que seria difícil ou 
quase impossível, uma vez que a principal 
fonte de receita do Estado é a tributação 
sobre a riqueza privada, gerada sobretudo 
pelas atividades empresariais). Com isso, 
frustrar-se-ia a intenção constitucional de 
dar à atuação empresarial do Estado cará­
ter subsidiário e excepcionalíssimo (art. 
173, CF/l988), intenção baseada na com­
provação histórica da menor eficiência do 
Estado no campo empresarial em face da 
livre atuação da iniciativa privada. Além 
disso, a sujeição dos empresários ao risco 
de perdas superiores aos investimentos ver­
tidos na atividade empresarial geraria um 
ambiente econômico insalubre: quem tem 
tudo a perder já não tem, por definição, 
nada a perder, no sentido de que estará dis­
posto a tudo para evitar sua ruína total ­
inclusive e especialmente atuar de forma 
ilegal ou antiética, no que, aí sim, poderia 
se qualificado como 'capitalismo selva­
gem', antítese do ambiente econômico ne­
cessário à construção de uma sociedade 
'justa, livre e solidária' (CF/l988, art. 3Q, 
I). 
'.'De outro lado, há dispositivos cons­
titucionais específicos que reforçam tal con­
clusão. 
"Veja-se, por exemplo, o disposto no 
art. 7Q , XI, da CF1l988, que assegura aos 
empregados o direito à participação nos 
lucros ou resultados da empresa, desvin­
culados da remuneração. A desvinculação 
da remuneração se justifica porque há uma 
indiscutível diferença entre a posição jurí­
dico-econômica do empregado e do empre­
sário em face da empresa; o empresário, por 
definição, é quem assume o risco do em­
preendimento (CLT, art. 2Q) . Esta assunção 
de risco não pode mais, contudo, notada­
mente após a promulgação da Constituição, 
ser tida como absoluta ou exclusiva. A par­
tir do momento em que o trabalhador par­
ticipa dos bônus da atividade empresarial, 
dos seus lucros ou resultados, é indiscutí­
vel- até por uma questão de isonomia ­
que ele passa a participar, também, ainda 
que em menor medida, dos riscos do em­
preendimento. 
"A lógica isonômica (que, antes de ser 
jurídica, como é, é também de cunho mo­
ral) presente neste raciocínio aplica-se, a 
rigor, a todos os demais credores da socie­
dade empresária. Fábio Ulhoa Coelho fala 
em 'socialização de prejuízos' como fator 
necessário ao cálculo empresarial do retor­
no dos investimentos. No entanto, a socia­
lização dos prejuízos revela-se, juridica­
mente, como a contrapartida necessária e 
indispensável à socialização dos benefícios 
resultantes da atividade empresarial, so­
cialização presente, de jure et defacto, não 
apenas na participação stricto sensu (parti­
cipação jurídica, mediante direito de cré­
dito) dos trabalhadores e, mais amplamen­
te, de toda a sociedade (através da tributa­
çãO,81 principal fonte de receita para que o 
Estado possa desempenhar as atividades 
que lhe são próprias na busca do bem co­
mum) nas riquezas geradas pela atividade 
empresarial, mas também na participação 
econômica da sociedade nos benefícios dela 
advindos (geração de empregos e riquezas, 
8I. Questão relevantíssirna, inclusive para a 
adequada compreensão da extensão da responsabili­
dade dos sócios por débitos tributários, mormente 
num contexto econômico como o nosso, em que o 
Estado se apropria, pela via da tributação de 40% da 
totalidade da riqueza produzida no País (PIE). 
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ATUi\l.IDADES 65 
desenvolvimento do conhecimento cientí­
fico e tecnológico etc.). 
"Por se tratar de uma lógica isonômica, 
e não igualitária, e por ter nossa Constitui­
cão admitido uma ordem econômica fun­
dada no sistema capitalista, é evidente que 
esta repartição de riscos e benefícios se fará, 
juridicamente, em graus variados, corres­
pondentes às peculiaridades do status jurí­
dico-econômico dos agentes sociais (em­
presário, empresa, trabalhadores, credores 
negociais e extranegociais) envol vidos. 
"É igualmente evidente que, por não 
ser um valor único ou absoluto, antes de­
vendo ser compatibilizado com outros va­
lores assegurados pelo ordenamento cons­
titucional, a autonomia patrimonial será 
matizada e graduada, a fim de que possa 
atender aos fins legítimos a que se destina, 
evitando-se seu desvirtuamento para a frus­
tração destes mesmos fins ou valores.