Soc. Limitada ou S.A. Fechada
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Soc. Limitada ou S.A. Fechada

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246.475-DF (agravo regimental no agravo de instru­
mento). Dl 1.8.2000

77. Vale lembrar que, para o INSS e para aju­
risprudência trabalhista, o simples descumprimento
da obrigação de pagar o tributo ou verba trabalhista
configura descumprimento da lei, com a conseqüen­
te responsabilização direta dos sócios. Conforme se
demonstrará, esse entendimento configura o supra­
SUmo da violação dos mais comezínhos princípios
constitucionais que regem a Ordem Econômica Na­
cional.

diretamente atividade econômica quando
tal for necessário para resguardar a segu­
rança nacional ou houver em questão rele­
vante interesse coletivo. Fora dessas hipó­
teses compete, por óbvio, à iniciativa pri­
vada o exercício das ati vidades econômi­
cas, limitando-se o Estado a incentivar e
fiscalizar essa última, sendo suas ações (ex­
postas preferencialmente nos Planos Plu­
rianuais, Diretrizes orçamentárias e orça­
mento anual- art. 165, CF/l988) indica­
tivas para o setor privado (art. 174, CF!
1988).

Ora, se à iniciativa privada compete
ordinariamente o exercício das atividades
econômicas, sendo certo ainda que essa úl­
tima tem por fim "assegurar a todos exis­
tência digna" (art. 170 da CF/l988), o que
a Constituição acaba por determinar é que
será aquela a responsável pela obtenção
desse objetivo constitucional. Dessa forma,
qualquer ato (seja emanado do Poder Legis­
lativo ou Judiciário) que amesquinhe a con­
dução da ordem econômica pela iniciativa
privada é inconstitucional.

A doutrina comercialista é unânime em
afirmar e demonstrar que o desrespeito às
regras de responsabilidade limitada restrin­
ge a livre condução das atividades econô­
micas, pois, caso negado ao empreendedor
o que podemos chamar de "direito ao in­
sucesso", pouquíssimas pessoas se aventu­
rariam a criar empresas (com prejuízo à
sociedade corno um todo), e, quando o fi­
zessem, a taxa de retorno deveria ser alta o ~
bastante para compensar o risco de perda
de todo o patrimônio do agente (novamen­
te com prejuízo geral, especialmente para
os consumidores).

A respeito do tema, confira-se a lição
do amigo e advogado mineiro Flávio de
Mendonça Campos. Pela importância do
tema e pela qualidade dos argumentos, cita­
se o trecho pertinente na íntegra, especial­
mente por não ter sido publicado:

"O que se quer enfatizar com tais ob­
servações é que a limitação da responsabi­
lidade dos sócios, traço nuclear do regime

62 REVISTA DE DIREITO MERCANTIL- I 33

jurídico das sociedades por quotas, não é
mero acidente ou mesmo regra menor do
Direito Positivo; corresponde, reversamen­
te, ao reconhecimento politico-juridico de
uma necessidade social altamente relevan­
te, constituindo um valor em si e um meio
para a realização de diversos valores fun­
damentais dos ordenamentos jurídicos con­
temporâneos.

"Discorrendo sobre o princípio da
autonomia patrimonial, Fábio Ulhoa Coe­
lho sintetiza com acuidade as razões de or­
dem ética, política, econômica e social que
convergem para que o Direito prestigie a
distinção entre o patrimônio da sociedade
e o patrimônio dos sócios, de forma a que
os riscos por estes assumidos se limitem,
em princípio, aos investimentos feitos na
sociedade, correndo por conta desta os
riscos quanto aos prejuízos do empreendi­
mento:

"'Claro está que muitos empreendedo­
res poderiam ficar desmotivados em se lan­
çar a novos e arriscados empreendimentos
se pudessem perder todo o patrimônio pes­
soal caso o negócio não prosperasse. Não
se pode esquecer que fatores relati vamente
imprevisíveis, sobre os quais os empresá­
rios não têm nenhum controle, podem, sim­
plesmente sacrificar a empresa. A motiva­
ção jurídica se traduz pela limitação das
perdas, que não devem ultrapassar as rela­
cionadas com os recursos já aportados na
atividade. Essa será a parte do prejuízo dos
sócios da sociedade empresária falida; a
parte excedente será suportada pelos cre­
dores, muitos deles empresários e também
exercentes de atividades de risco. A limita­
ção das perdas, em outros termos, é fator
essencial para a disciplina da atividade eco­
nômica capitalista.

"'Um outro aspecto da questão diz res­
peito ao custo da atividade econômica, ele­
mento que compõe o preço a ser pago pe­
los consumidores ao adquirirem produtos
e serviços no mercado. Se o direito não dis­
puser de instrumentos de garantia para os
empreendedores, no sentido de preservá­
los da possibilidade de perda total, eles ten­

derão a buscar maior remuneração para os
investimentos nas empresas. Em outros ter­
mos, apenas aplicariam seus capitais em
negócios que pudessem dar lucro suficien­
te para construírem um patrimônio pessoal
de tal grandeza que não poderia perder-se
inteiramente na hipótese de futura e even­
tual responsabilização. Ora, para gerar lu­
cro assim, a sociedade deve reduzir custos
e praticar preço elevado. O princípio da
autonomia patrimonial das pessoas jurídi­
cas, observado em relação às sociedades
empresárias, socializa as perdas decorreu­
tes do insucesso da empresa entre seus só­
cios e credores, propiciando o cálculo em­
presarial relativo ao retorno dos investimen­
toS.'78

"Por tais razões, a limitação da res­
ponsabilidade dos sócios ou, mais ampla­
mente, a autonomia patrimonial, constitui,
hoje, um dos pilares mestres do Direito de
Empresa." Muito embora tal abordagem
não seja comum na doutrina, é possível
mesmo divisá-lo como princípio, ainda que

78. Ob. cit., p. 38.
79. Nos dizeres de Fábio Ulhoa Coelho, um

dos "fundamentos do direito societário". É indiscu­
tível que "a velha sociedade coletiva, na qual se em­
penhavam ilimitadamente os sócios com suas pes­
soas e patrimônios, tornou-se obsoleta" (Nelson Abrão,
ob. cit.. P. 36). A manutenção, no novo Código Ci­
vil, de figuras como a sociedade simples (arts. 997 a
1.038) e a sociedade em nome coletivo (arts. 1.039 a
1.044) explica-se mais como apego à tradição do que
por qualquer outra razão. À exceção da sociedade
em comum, não personificada (a antiga "sociedade
de fato"), cuja disciplina se reveja útil num país com
economia altamente marcada pela "informalidade",
estas figuras (sociedade em nome coletivo, socieda­
de simples, mesmo a sociedade em comandita) são
marcadas pela senilidade precoce; nascem fadadas
ao desuso, em face da constatação de que pratica­
mente a totalidade das sociedades empresariais per­
sonificadas no Brasil são sociedades por quotas de
responsabilidade limitada (imensa maioria) ou anô­
nimas. E é natural que assim o seja. A complexidade
da atividade empresarial no contexto econômico con­
temporâneo não se compadece com um regime jurí­
dico em que os sócios assumam integralmente os ris­
cos demalogro da empresa. A própria idéia de socie­
dade personificada, dissociada da idéia de autono­
mia patrimonial, perde grandemente (senão totalmen­
te) sua utilidade prática.

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ATUALIDADES 63

implícito, de matiz constitucionaL Senão,
vejamos,

"Constituição Federal, ainda que per­
meada de um sem número de normas e prin­
cípios de cunho socializante, fez uma clara
opção pelo capitalismo, ao dispor que o
exercício das ati vidades empresariais é re­
servado aos particulares; que tal exercício
é livre, não sendo possível ao Estado
direcionar à/orça o exercício das ativida­
des empresariais, sendo seu planejamento
econômico meramente indicativo para o
setor privado; que, finalmente, o Estado só
poderá atuar empresarialmente na econo­
mia em situações absolutamente excepcio­
nais (CF/1988, arts 170, 173 e 174). Como
lembra Celso Antônio Bandeira de Mello:

"<Considerando-se panoramicamente
a interferência do Estado na ordem econô­
mica, percebe-se que esta pode OCOlTer de
três modos, a saber: (a) ora dar-se-á atra­
vés de seu 'poder de polícia', isto é, median­
te leis e atos administrativos para executá­
las, como 'agente normativo e regulador da
atividade econômica', caso no qual exer­
cerá funções de 'fiscalização' e em que o
planejamento que conceber será meramen­