antiduring
155 pág.

antiduring

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
como plano, o
ser único torna-se no pensamento um ser unitário, uma unidade de idéia, porque a essência de todo
pensamento consiste na aglutinação dos elementos de consciência numa unidade.
 Esta última proposição é simplesmente falsa. Em primeiro lugar, o pensamento consiste tanto em
decompor analiticamente os objetos representados na consciência em seus elementos, como em unir os
elementos conexos numa unidade. Sem análise, não há síntese. Em segundo lugar, a não enveredar por
falsos caminhos, somente os elementos de consciência podem ser, pelo pensamento, reduzidos à unidade,
unidade essa que existia previamente nesses mesmos elementos ou nos objetos.
 Não é bastante que me resolva eu a classificar uma escova de sapatos na classe dos mamíferos, para
que a mesma, como que por encanto, apresente glândulas mamárias. A unidade do ser, ou seja, aquilo
que justifica a redução à unidade no pensamento, é, pois, justamente o que era mister demonstrar; e,
quando o Sr. Dühring nos assegura que concebe o ser como unidade e não como duplicidade, nada mais
faz senão expor uma opinião pessoal que a ninguém convence.
 Seu processo mental, exposto rigorosamente, é o seguinte: "Começo pelo que existe. Penso. pois,
sobre o que tem existência real. A idéia do que existe constitui uma unidade. Mas o pensamento e o que
existe. têm que estar de acordo, correspondem-se, "coincidem", Portanto, o que existe é também, na
realidade, unitário. Donde se conclui que o sobrenatural não existe". Se o Sr. Dühring nos tivesse falado
assim, sem subterfúgios, ao invés de nos apresentar os dogmas anteriormente citados, sua ideologia se
tornaria compreensível. Querer demonstrar a realidade de um resultado mental qualquer por meio da
identidade entre o que se pensa e o que existe é, de fato, uma das fantasias febris mais loucas de... Hegel.
 Mesmo admitindo que toda a sua argumentação fosse exata, o Sr. Dühring não teria ganho uma só
polegada de terreno aos espiritualistas, estes lhe responderiam com muita precisão: também para nós o
mundo constitui uma unidade; o seu desdobramento em mundo real e mundo sobrenatural somente existe
para o nosso ponto de vista especificamente terreno, de homens pecadores; mas, em si e para si, isto é,
em Deus, tudo quanto existe constitui uma unidade. Acompanhariam, assim, o Sr. Dühring a percorrer
seus amados "planetas" e lhe apontariam um ou vários em que, por não ter havido pecado original, não
conhece a distinção entre mundo real e sobrenatural e onde, portanto, a unidade do mundo é um artigo de
fé.
 O mais cômico nessa história é que o Sr. Dühring, para provar a não existência de Deus por meio do
conceito do ser, lança mão da prova ontológica da existência de Deus. Diz essa prova: quando pensamos
em Deus, nós o concebemos como a soma de todas as perfeições. Ora, a soma de todas as perfeições
implica, antes de tudo, na existência, pois um ser inexistente é necessariamente imperfeito. Devemos,
pois, incluir a existência no número das perfeições de Deus. Logo, necessariamente, Deus existe, É esse,
tal qual, o raciocínio do Sr. Dühring; quando ideamos o ser, ideamo-lo como conceito uno. O que se
compreende num só conceito é uno. O que existe não corresponderia, portanto, ao seu conceito se não
constituísse uma unidade; Deus, portanto, não existe, etc.

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (23 of 155) [05/04/2001 17:55:01]

 Quando falamos do ser e somente do ser, a unidade não pode consistir senão em que todos os objetos
de que se trata - são, existem. Na unidade desse ser e em nenhuma outra é que se harmonizam, e a
expressão aplicada a todos em comum, isto é, - que todos são - não só não lhes pode conferir quaisquer
outras qualidades, comuns ou não comuns, como exclui por enquanto de nossa consideração todas essas
outras qualidades. Temos que nos afastar, um só milímetro que seja, desse simples fato fundamental de
que todos os objetos têm em comum a existência para que, desde logo, comecem a surgir aos nossos
olhos suas diferenças. Decidir se tais diferenças consistem em que uns são brancos, outros pretos; uns
animados, outros inanimados; uns, se assim se quer, terrenos, outros supraterrenos; é coisa que não
saberíamos fazer baseando nossa conclusão no fato de que unicamente a existência a todos atribuída
igualmente.
 A unidade do mundo não consiste precisamente em existir, se bem que seja isto uma condição de sua
unidade, pois, de qualquer modo, é preciso, evidentemente, que ele seja antes de poder ser, uno. É
necessário levar-se em conta que a existência começa a ser um problema a partir dos limites de nosso
circulo visual. A unidade real do mundo consiste na sua materialidade e esta última prova-se, não com
algumas frases de prestidigitador, mas por uma longa e laboriosa evolução da filosofia e das ciências da
natureza.
 Mas prossigamos na leitura do texto. O ser de que nos fala o Sr. Dühring "não é esse ser puro que,
idêntico a si próprio, igual a si mesmo, é desprovido de qualquer propriedade concreta que não representa
efetivamente senão uma contra-imagem do nada ou da ausência da idéia". Logo, porém, veremos que o
mundo do Sr. Dühring começa, sem dúvida alguma, por um ser despido de toda diferenciação interna, de
todo movimento e de toda mudança, um mundo que não é, no fundo, mais que um reflexo do nada e não
é, pois, senão um nada real. É somente a partir desse ser nada que se desenvolve o estado atual do
mundo, diferenciado, mutável, apresentando já uma evolução, um processo de formação; e é somente
depois de termos compreendido isso que chegamos a encontrar, de novo, sob essa transformação
perpétua, "o conceito do ser universal idêntico a si mesmo". Assim, pois, temos agora o conceito de ser
num grau superior, em que compreende em si tanto a permanência quanto a mudança, tanto o ser como o
vir-a-ser. Uma vez aí chegados, descobrimos que "o gênero e a espécie, o geral e o particular são
caracteres distintivos mais simples, sem os quais a constituição das coisas não pode ser compreendida".
Tratam-se, porém, de caracteres distintivos da qualidade. Depois de nos termos ocupado disso,
continuemos: "Aos gêneros opõe-se o conceito de grandeza como uma homogeneidade na qual já não se
verificam diferenças qualitativas de nenhuma espécie. Dito de outro modo: passamos da qualidade à
quantidade, sendo esta sempre mensurável.
 Comparemos agora essa "nítida classificação dos esquemas gerais" e esse "ponto de vista
verdadeiramente crítico", com as ingenuidades, as grosserias e os sonhos febricitantes de Hegel.
Verificamos que a Lógica, de Hegel, tem o ser, como ponto de partida, exatamente como a do Sr.
Dühring; que o ser se manifesta como nulidade, tal como o do Sr. Dühring: que dessa nulidade do ser foi
que se passou ao vir-a-ser, cujo resultado é a existência, isto é, uma forma mais elevada, mais rica, do
ser, tal como no Sr. Dühring. A existência conduz à qualidade e esta à quantidade - ainda da mesma
forma que no Sr. Dühring. E para que nenhuma peça essencial falte ao sistema, o Sr. Dühring conta-nos o
seguinte, noutro trecho: "Do reino da insensibilidade não se passa ao da sensação, apesar de toda a
continuidade quantitativa, a não ser por um salto qualitativo do qual... podemos dizer que se diferencia
infinitamente da simples variação de graus de uma só e mesma propriedade". É exatamente a linha nodal
de desproporções hegelianas em que uma adição ou uma subtração puramente quantitativa produz, em
certos pontos nodais, um salto qualitativo. É o caso, por exemplo, da água aquecida ou esfriada, para a
qual o ponto de ebulição e o ponto de congelação são os nós ou elos em que se realiza, a uma pressão
normal, o salto para um novo estado de agregação, nos quais, consequentemente, a quantidade se

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (24 of 155) [05/04/2001 17:55:01]

transforma em qualidade.
 Nossa investigação tenta igualmente ir até a raiz das coisas e, ao atingir a raiz dos profundos
esquemas fundamentais do Sr.