antiduring
155 pág.

antiduring

Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Dühring, encontra... "fantasias febris" de um Hegel, as categorias da
Lógica hegeliana (primeira parte, teoria do ser) da qual se originam esses sonhos seguindo as "deduções"
rigorosamente conformes à velha "variação de graus" hegeliana, e isso sem procurar esconder o plágio.
 E, não contente com haver tomado de empréstimo o seu esquematismo daquele, dentre os seus
predecessores que ele mais calunia, o Sr. Dühring, depois de ter ele próprio dado o exemplo referido
acima, de uma passagem brusca da quantidade em qualidade, tem a ousadia de falar de Marx, nestes
termos: "Como é cômico vê-lo (a Marx) referir-se a essa Idéia confusa e nebulosa de Hegel, de que a
quantidade se transforma em qualidade!
 Idéia confusa e nebulosa! Quem é que "se transforma" e quem é cômico, Sr. Dühring?
 Todas essas lindas idéias não são, portanto, "estabelecidas de maneira axiomática" segundo uma
ordem: são, pelo contrário, tranqüilamente importadas de fora, da Lógica de Hegel. E tanto é assim que,
em todo esse capítulo, a única coisa que tem a aparência de uma conexão lógica interna é a que .foi
emprestada de Hegel, e tudo, finalmente, resulta em inúteis fantasias sobre o espaço e o tempo, a
imobilidade e a mudança.
 Do ser, Hegel passa à substância, à dialética. Aí, trata das determinações reflexas de seus
antagonismos e contradições internas (por exemplo, negativo e positivo), depois chega a causalidade ou
relação de causa e efeito, finalizando com o estudo da necessidade. Outra coisa não faz o Sr. Dühring.
Onde Hegel escreve "teoria da substância", o Sr. Dühring traduz por "propriedades lógicas do ser". Mas
estas consistem antes de tudo, nos "antagonismos das forças", nos antagonismos. Mas a contradição é
negada firmemente pelo Sr. Dühring. Voltaremos a esse assunto. Depois. ele passa à causalidade e desta
à necessidade. Quando, pois, o Sr. Dühring diz de si próprio: "nós, que não filosofamos de uma gaiola
para fora", ele quer dizer, sem dúvida, que filosofa dentro da gaiola, a do esquematismo das categorias
hegelianas.

Capítulo V - FILOSOFIA DA NATUREZA. O TEMPO E O ESPAÇO
 Passemos, agora, à filosofia da natureza. O Sr. Dühring tem razões, aqui também, para não estar
satisfeito com os seus predecessores. A filosofia da natureza "caiu tanto, que se tornou uma árida e má
poesia, feita de incultura" e foi "abandonada à filosofia prostituída, à maneira de um Schelling e outros
tipos desse gênero que, traficando com o sacerdócio do absoluto, mistificavam o público". A fadiga
livrou-nos desses "monstros", mas até agora não deram lugar senão ao "insustentável" e, "no que se
refere ao grande público, a retirada de um grande charlatão é sempre, como se sabe, uma oportunidade
para um sucessor, embora mais medíocre, mas com habilidade bastante que lhe permita repetir as
produções do outro, como rótulo diverso". Os próprios naturalistas não revelam "muito gosto em fazer
uma excursão pelo reino das idéias universais", limitando-se, no domínio teórico, a "improvisações
incoerentes". Nesse terreno há, pois, necessidade de um socorro urgente e, por felicidade, o Sr. Dühring
está presente.
 Para poder apreciar com justeza as revelações que se seguem sobre o desenvolvimento do mundo no
tempo e sua limitação no espaço, é mister citar aqui algumas passagens da "esquemática do mundo".
 O Sr. Dühring, também de acordo neste ponto com Hegel(2), atribui ao ser a infinidade - o que Hegel
chama de má infinidade - e assim a aprecia: "A mais clara forma de se representar sem contradição a
infinidade é a sucessão ilimitada dos números na série numérica... Do mesmo modo que a cada número
podemos acrescentar uma nova unidade sem jamais esgotar a possibilidade de continuar a numeração, a
cada estado, do ser, qualquer que seja, acrescenta-se mais um e é na produção ilimitada desses estados

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (25 of 155) [05/04/2001 17:55:01]

que consiste a infinidade. Essa infinidade concebida com precisão, não tem, por conseguinte, senão uma
forma fundamental e uma direção única. Se bem que seja, com efeito, indiferente para o nosso
pensamento traçar uma direção oposta a essas sucessões de estados do ser, a infinidade que progride para
trás não é, entretanto, mais que uma representação precipitada e imatura. Seria preciso que ela tivesse
sido, na realidade, percorrida em sentido contrário; e assim, teria em cada um de seus estados uma série
infinita de números. Mas, então, cometeríamos a inadmissível contradição de uma série infinita já
percorrida e desse modo se revela como absurda a idéia de supor uma segunda direção da infinidade".
 O primeiro corolário que deriva dessas concepções da infinidade é que o encadeamento das causas e
dos efeitos, no mundo, deve ter tido necessariamente um começo: "um número infinito de causas, que se
houvessem previamente seguido umas após outras, é inconcebível, só pelo fato de supor como já
percorrido o inumerável". Assim fica demonstrado a existência de uma causa final.
 O segundo corolário é "a lei do número determinado; a acumulação do idêntico, em não importa que
espécie real de conceitos independentes, não é concebível senão formando um número determinado".
Não só o número dos corpos existentes no universo deve ser, em qualquer momento, um número em si
mesmo determinado, como também deve sê-lo o número total das partículas independentes de matéria
existente no mundo, por menores que sejam. Esta última necessidade é a verdadeira razão que impede
realizar-se qualquer síntese em átomos. Toda divisão real tem sempre uma determinação finita e deve
te-la, se não quisermos ver surgir a contradição do inumerável percorrido. Não só pela mesma razão por
que o número de voltas que a terra deu até agora em torno do sol deve necessariamente ser um número
determinado, embora desconhecido, todos os processos periódicos da natureza devem também ter tido
um começo e todas as suas diferenciações, todas as variedades da natureza, derivadas uma das outras,
devem ter, como origem, um estado idêntico a si próprio. Pode este estado, sem contradição, ter existido
por toda a eternidade; mas mesmo essa representação seria também inconcebível se o próprio tempo se
compusesse de partes reais, e não por um fracionamento ideal de possibilidades, classificadas, à vontade,
por nosso entendimento.
 Já com o conteúdo real e diferenciável do tempo não se dá o mesmo: à medida em que o tempo é
realmente ocupado por acontecimentos, diferenciavelmente, específicos, esta função real do tempo e as
formas de existência deste campo se enquadram, por serem mesmo distintas, como suscetíveis de serem
contadas. Imaginemos um estado sem mudanças que, na sua perfeita identidade consigo próprio, não
apresenta nenhuma diferença de efeitos; o conceito restrito de tempo torna-se, assim, a idéia mais geral
do próprio ser. É impossível fazer uma idéia de acumulação de uma duração vazia.
 O Sr. Dühring, até aqui como que se mostra maravilhado com a importância dessas descobertas. Ele
espera, de início, que "pelo menos não serão consideradas como uma verdade sem importância"; logo
depois confere uma maior importância a estas descobertas.
 E mais adiante diz: "Lembremo-nos do método extremamente simples pelo qual nós demos aos
conceitos do infinito e à sua crítica um alcance até aqui desconhecido... Recordemo-nos dos elementos
do tempo e do espaço, concebidos universalmente, que se constituíram de maneira tão simples pelo
presente método de precisá-los e de aprofundá-los".
 Acertamos! "Nitidez" e "profundidade" reais! Mas, quem é que acertou? Em que época vive? Quem
aprofundou e precisou?
 "Tese. O mundo teve um começo no tempo e também no espaço é igualmente limitado.
 "Prova: Admitamos, com efeito, que o mundo não tem começo no tempo, uma eternidade se teria
escoado até chegar a um momento dado, fluindo, portanto, no mundo, uma série infinita de estados de
coisas sucedidos uns aos outros. Mas a infinidade de uma série consiste precisamente em que ela nunca
pode