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teria advertido ao Sr.
Dühring que começo e fim são conceitos necessariamente ligados, como pólo norte e pólo sul; se se
abandona o fim, o começo se torna fim - o único fim da série, e assim reciprocamente.
 Toda essa quimera não existiria se não fosse hábito dos matemáticos operarem com séries infinitas.
Como em matemática é preciso partir do determinado e finito, para chegar ao indeterminado e infinito, é
preciso que todas as séries matemáticas, positivas ou negativas, comecem pela unidade, sem o que é
impossível calcular com essas séries. Mas a necessidade mental do matemático está longe de ser uma lei
que aja necessariamente sobre o mundo real.
 De resto, o Sr. Dühring não poderá jamais compreender, sem contradição, a infinidade real. A
infinidade é, por si mesma, uma contradição prenhe de contradições.
 Já é contraditório que uma infinidade se componha de quantidades finitas e, no entanto, isso acontece
na realidade. Admitir que o mundo material tem limites não conduz a menos contradições que admiti-lo
ilimitado. Toda a tentativa para afastar essa contradição leva, conforme vimos, a novas e mais
lamentáveis contradições. Precisamente porque é uma contradição, a infinidade é um processo infinito a
desenvolver-se, sem fim no tempo nem fim no espaço. A supressão da contradição seria o fim da
infinidade. Hegel já o havia visto muito bem e é por isso que trata aos que se dedicam a fantasiar sobre
essa contradição com um merecido desprezo.
 Continuemos. O tempo teve, pois, um começo. Que havia, então, antes do começo? O mundo num
estado idêntico a si próprio e invariável. E como, nesse estado, não há mudanças que se sucedam umas às
outras, o conceito mais especifico do tempo se transforma na idéia do ser.
 Primeiramente, é-nos completamente indiferente saber quais os conceitos que se transformam na
cabeça do Sr. Dühring: não se trata do conceito do tempo, mas do tempo real, do qual o Sr. Dühring não
se desembaraçará tão facilmente. Em segundo lugar, que o conceito do tempo se transforme na idéia
geral do ser, isso não nos fará dar um passo à frente, porque as formas essenciais de todo o ser são o
espaço e o tempo e um ser fora do tempo é um absurdo tão grande quanto um ser fora do espaço.
 O ser de Hegel, "ser extinto fora do tempo", e o "ser irrepresentável", de que falam os
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neo-schellinguianos, são concepções racionais, se as compararmos com esse ser concebido à margem do
tempo. O Sr. Dühring, aliás, vai com muita cautela por esse caminho; propriamente falando, é bem um
tempo, mas um tempo tal que, no fundo, não se poderia chamá-lo de tempo, pois o tempo não se compõe
em si mesmo de partes reais e é somente a nossa inteligência que nele introduz divisões arbitrárias; só um
tempo repleto realmente de fatos diferenciáveis pode ser contado, não se podendo mesmo descobrir o que
poderia significar a continuidade de uma duração, no vazio, verdadeira quimera.
 O que essa sucessão poderia significar é-nos, agora, completamente indiferente: a questão é saber se o
mundo, no estado aqui suposto, tem ou não uma duração no tempo. Que não se obtém resultado algum
medindo uma duração semelhante e muito menos operando com medidas sem desígnio e sem finalidade
objetiva, no espaço vazio, sabemos de há muito. E é precisamente no que esse processo tem de inútil que
Hegel chama a essa infinidade de má infinidade. Segundo o Sr. Dühring, o tempo não existe senão pela
mudança e não é a mudança que existe no tempo e pelo tempo. Justamente por que é tão diverso e
independente da mudança, é que se pode medi-lo pela mudança, porquanto para medir é necessário
sempre um elemento distinto da coisa que se mede. O tempo, em que se não produzem mudanças
cognoscíveis está muito longe de não ser tempo algum, ele é antes o tempo puro, isento de qualquer
influência estranha, isto é, é o tempo verdadeiro, o tempo como tal. Realmente, quando queremos
conceber a idéia do tempo em toda a sua pureza, fora de todas as misturas estranhas e heterogêneas,
somos obrigados a afastar como estranhos todos os acontecimentos diversos que se produzem,
simultânea e sucessivamente, no tempo, como alheios a ele, representando-nos, assim, um tempo em que
nada se passa. Por aí não fizemos, pois, diluir a idéia do tempo na idéia geral do ser: pelo contrário, foi
por aí somente que chegamos à idéia pura do tempo.
 Mas toda essas contradições e esses absurdos não passam de brincadeiras de criança ao lado da
confusão caótica em que se embrenha o Sr. Dühring, com o seu "estado primitivo do mundo idêntico a si
próprio". Se o mundo já esteve num estado em que não se produzia absolutamente mudança alguma,
como pode passar desse estado à mudança? O que é desprovido absolutamente de mobilidade, o que,
mais ainda, esteve nesse estado toda a eternidade, não poderia, de modo algum, sair de si próprio para
passar ao estado de movimento e de mudança. É preciso, portanto, que, de fora - do mundo exterior -
tenha vindo um primeiro impulso que o pusesse em movimento.
 E o "primeiro impulso", como se sabe, é apenas uma expressão para denominar Deus.
 Esse Deus e esse Além, que o Sr. Dühring pretendia haver eliminado tão galhardamente de sua
"esquemática do universo", ele próprio os reintroduz, reforçados e aprofundados, em sua filosofia da
natureza.
 Prossigamos. O Sr. Dühring diz: "Quando um elemento imóvel do ser adquire grandeza, esta grandeza
permanece invariável em sua determinabilidade. Isso é verdade... para a matéria e para a força
mecânica." A primeira proposição fornece-nos - de passagem seja dito - um exemplo precioso da
grandiloqüência axiomático-tautológica do Sr. Dühring; quando uma grandeza não muda, continua
idêntica.
 Assim, a quantidade de força mecânica existente no mundo, permanece eternamente a mesma. Nada
diremos sobre isso senão que, na medida em que é exato, já o sabia e proclamava, há cerca de três
séculos, a filosofia de Descartes e, nas ciências da natureza, é conhecida há mais de vinte anos, na teoria
da conservação da força. Não insistimos sobre o fato de que o Sr. Dühring, restringindo-se à força
mecânica, não melhora esta tese de maneira alguma. Mas onde estava, pois, a força mecânica, naqueles
tempos do estado imutável? Essa pergunta o Sr. Dühring recusa-se obstinadamente a responder.
 Onde, portanto, Sr. Dühring, vivia essa força mecânica, eternamente igual a si própria, e o que a
impulsionava? Resposta do Sr. Dühring: "O estado primitivo do universo, ou, mais precisamente, de um
ser da matéria invariável, não compreendendo nenhuma acumulação de mudanças no tempo, é uma
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questão que não pode ser posta de lado senão por um espírito que vê, na automutilação de sua força
procriadora, o cúmulo da sabedoria. Assim, ou aceitais de olhos fechados o meu estado primitivo
invariável ou eu, o viril e potente Eugen Dühring, proclamo-vos eunucos intelectuais. Eis uma coisa que
pode, sem dúvida, amedrontar a mais de uma pessoa. Nós, porém, que já vimos alguns exemplos da força
viril do Sr. Dühring, podemos tomar a liberdade de passar por alto, sem réplica, ao elegante insulto e
repisar a pergunta Mas Senhor Dühring, por favor, que ocorre, nesse caso, com a força mecânica?
 O Sr. Dühring imediatamente se embaraça. O fato, balbucia ele, é que "a identidade absoluta desse
estado-limite primitivo não fornece, por si própria, um principio de transição. Lembremo-nos, entretanto,
que, no fundo, sucede a mesma coisa em cada novo elo, que, por menor que seja, venha a incorporar-se a
essa cadeia da existência que tão bem conhecemos. Se se quer, portanto, criar dificuldades no presente
caso, que é fundamental, tenha-se o cuidado de não as deixar escapar em circunstâncias menos
importantes. De mais a mais, é possível interpolar