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não tem meio algum
de passar ao movimento. Que resta, portanto? Três afirmações falsas e insustentáveis.
 Primeiramente, dizem-nos que é dificílimo mostrar a transição do primeiro para o segundo elo, na
famosa cadeia da existência. O Senhor Dühring parece ter os seus leitores na conta de crianças de peito.
A demonstração, uma por uma, das transições e conexões, na cadeia da existência, é precisamente o que
constitui a matéria das ciências da natureza e, se acontece que a demonstração não fica clara como deve,
ninguém. nem mesmo o Sr. Dühring, sonharia em explicar o movimento que se produziu do nada, mas
sempre e exclusivamente pela transmissão, transformação ou transplantação de um movimento
precedente. Ora, trata-se. aqui, de explicar, segundo se convencionou, como se pode fazer sair o
movimento da imobilidade, ou melhor, do nada.
 Em segundo lugar. temos a "ponte da continuidade". Este conceito, na verdade, não permite ao Sr.
Dühring superar a dificuldade, mas ele tem o direito de utilizar a continuidade como intermediária entre a
imobilidade e o movimento. Infelizmente, a continuidade da imobilidade consiste precisamente em não
se mover Como pode essa continuidade produzir um movimento, portanto, é um mistério cada vez
maior! O Sr. Dühring faria bem em dividir a sua transição, do nada do movimento ao movimento
universal, numa infinidade de pequenas partículas, atribuindo-lhes uma duração tão longa quanto
quisesse; nem assim teríamos avançado um décimo de milímetro para nos esclarecer. Do nada não pode
sair nada, sem que intervenha um ato criador, ainda que essa coisa seja tão pequena quanto uma
diferencial matemática.
 A ponte da continuidade não é, portanto, nem sequer o que os escolásticos chamavam de "ponte dos

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burros"; é apenas uma ponte pela qual só o Sr. Dühring sabe passar.
 Em terceiro lugar, enquanto valer a mecânica atual e esta for, segundo o próprio Sr. Dühring, um dos
fatores essenciais da formação intelectual, será inteiramente impossível indicar como se pode passar da
imobilidade ao movimento. Mas a teoria mecânica do calor mostra-nos que o movimento de massas se
transforma, em certas circunstâncias, em movimento molecular (embora, ainda aqui, um movimento
nasça de outro movimento e nunca da imobilidade). Isso, talvez, insinua o Sr. Dühring timidamente,
poderia oferecer uma ponte entre o que é rigorosamente estático (em equilíbrio) e o que é dinâmico (em
movimento). Todos esses fenômenos, porém, se perdem "um pouco na obscuridade" na qual, nos deixa,
de fato, o Sr. Dühring.
 Eis, pois, a que chegamos, após tanta profundeza e exatidão: enterramo-nos, cada vez mais, em
maiores absurdos para, enfim, aportar onde fatalmente aportaríamos: na "obscuridade". Isso, porém, não
desanima ao Sr. Dühring; já na página seguinte ele tem o desplante de afirmar que "pode dar ao conceito
da permanência a si própria, um conteúdo real, partindo diretamente da observação da matéria • das
forças mecânicas". E esse homem chama aos outros de "charlatães".
 Por felicidade, em meio a todo esse caminhar desesperadamente errante e incoerente na
"obscuridade", temos um consolo realmente alentador: "A matemática dos habitantes de outros corpos
celestes não pode repousar em axiomas diversos dos da nossa", segundo nos assevera o Sr. Dühring.

Capítulo VI - FILOSOFIA DA NATUREZA, COSMOGONIA, FÍSICA, QUÍMICA
 Continuando o exame da obra, chegamos às teorias sobre as origens do mundo atual. Informa-nos que
o estado universal de difusão da matéria era já a concepção inicial dos filósofos jônicos, mas que,
sobretudo depois de Kant, a hipótese de uma nebulosa primitiva volta a desempenhar um papel, tendo a
gravitação e a irradiação do calor servido de meios para a formação progressiva, a partir da nebulosa
primitiva. de cada um dos diversos corpos celestes sólidos. No nosso tempo, a moderna teoria mecânica
do calor permite formular, com muito mais precisão, as inferências relativas aos estados primitivos do
universo. Entretanto, "o estado de difusão gasosa não pode servir de ponto de partida a deduções sérias,
se, previamente, não se puder determinar, com a maior concretização, o sistema mecânico que nele se
encerra. De outro modo, a idéia não só se perderá nas trevas, mas também, longe de se desfazer, a trela
primitiva se tornará mais densa e impenetrável no curso de nossas deduções... Por enquanto, tudo
continua ainda no vago e informe de uma idéia cuja difusão é impossível de se determinar mais
detalhadamente". E assim "não temos desse universo gasoso senão uma concepção absolutamente aérea".
 A teoria sobre a gênese dos mundos atuais, pela rotação das massas nebulosas, foi o maior progresso
que a astronomia fez desde Copérnico. Pela primeira vez abalou-se a idéia de que a natureza não teria
história no tempo. Até então, acreditava-se, os corpos celestes se moviam, constantemente, desde a sua
origem, nas mesmas órbitas invariáveis; e se bem fosse admitido que sobre cada um dos corpos celestes
os seres orgânicos individuais pereciam, entendia-se que essa morte não afetava. em nada, às espécies e
aos gêneros. A natureza estava, de fato, visivelmente empenhada num movimento perpétuo: mas esse
movimento parecia não ser mais que a repetição incessante dos mesmos fenômenos. Nessa concepção,
que correspondia inteiramente ao método filosófico metafísico, Kant abriu a primeira brecha, e isso de
maneira tão científica que a maior parte dos argumentos empregados por ele têm, ainda hoje, um grande
valor. É certo que a teoria de Kant não é, ainda agora, rigorosamente mais que uma hipótese. Mas o
sistema cosmológico do próprio Copérnico não conseguiu ser senão uma hipótese, até hoje; e, depois que
as investigações espetroscópicas, derrubando todos os argumentos contrários. apresentaram a prova
evidente de que existem tais massas gasosas ígneas no firmamento, a oposição científica à teoria de Kant
foi reduzida ao silêncio. O Sr. Dühring não pode, igualmente, construir o seu mundo, sem apelar para um

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estado de nebulosidade precedente, mas ele vinga-se exigindo que lhe demonstrem o sistema mecânico
dessa nebulosa e, como não pôde ser atendido, investe contra essa demonstração com toda a espécie de
epítetos desdenhosos. Infelizmente, a ciência atual não pode definir e concretizar esse sistema, de modo a
satisfazer ao Sr. Dühring. E não é capaz, muito menos, de responder a outras perguntas. A pergunta
seguinte: por que os sapos não têm rabo? não pôde, até hoje, ser respondida senão pela hipótese de que,
possivelmente, o perderam. Se, a propósito, perdendo a calma, disséssemos que tudo Isso é muito vago e
informe, que é uma idéia pouco concreta de "perda", uma concepção sumamente "aérea", é possível que
uma semelhante aplicação da moral às ciências naturais não nos faça avançar nem um passo. Essas
condenações e essas explosões de descontentamento podem ter lugar não importa onde nem quando e é
justamente por isso que não devem ser usadas em parte alguma. Se tudo está errado quem é que impede
ao Sr. Dühring de descobrir, ele próprio, o sistema mecânico da nebulosa primitiva?
 Por felicidade, sabemos agora que a massa nebulosa de Kant está bem longe de se confundir com um
estado totalmente idêntico do meio universal, ou, melhor, com o estado da matéria, idêntico a si próprio.
Eis aí um verdadeiro triunfo para Kant, que tinha razões para se contentar em fazer remontar desde os
corpos celestes, atualmente existentes, até a esfera nebulosa, sem lembrar-se, por nada deste mundo, do
estado da matéria idêntico a si próprio.
 Observemos, de passagem, que, na ciência da natureza, a massa de névoa de Kant, que é designada
atualmente pelo nome de nebulosa primitiva, não deve ser tomada, como é fácil compreender, senão num
sentido relativo. Quando dizemos que ela é nebulosa primitiva, por um lado, queremos dizer que