antiduring
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DisciplinaFilosofia e Ética2.555 materiais75.775 seguidores
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transmissão propriamente dita, até o instante ,julgado oportuno, não se
conhecendo, entretanto, o último elo da cadeia; por exemplo, quando se carrega um fuzil aguarda-se o
momento em que, pela detonação do gatilho, deve produzir-se a descarga, e, com ela, a transmissão do
movimento desenvolvido pela combustão da pólvora.
 Pode-se, pois, representar a matéria, durante o estado imóvel idêntico a si mesmo, como carregada de
força; e é esse sentido que o Sr. Dühring parece dar, quando fala da unidade de matéria e força mecânica,
se é que lhe dá algum sentido. Mas essa representação é absurda, porque transfere ao universo, como
Anti-Dürhring
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absoluto, um estado que é relativo por natureza e ao qual, consequentemente, não pode estar submetida,
num mesmo tempo. senão uma parte da matéria. Mesmo que se deixasse de lado essa objeção, restaria
ainda a dificuldade de se saber, em primeiro lugar, como o mundo foi carregado de forças. visto que nem
hoje os fuzis se carregam por si próprios; em segundo lugar, era preciso saber qual foi o dedo que apertou
o gatilho. Por mais que mudemos a direção, por voltas e voltas, pelos ensinamentos do Sr. Dühring,
chegamos sempre ao dedo... da Providência.
 Da astronomia, o nosso filósofo da realidade passa à mecânica e à física, e queixa-se de que a teoria
mecânica do calor não tenha sido impulsionada, uma geração após a sua descoberta, para mais adiante do
ponto em que Robert Mayer a situou. Além disso, diz-nos o Sr. Dühring, toda a questão permanece
obscura, e devemos sempre "recordar novamente que os estados de movimento da matéria trazem
consigo situações estáticas e que estas não são mensuráveis pelo trabalho mecânico... Se. acima,
qualificamos a natureza de grande operária, expressão que tomamos no sentido restrito, falta-nos
acrescentar ainda que os estados idênticos a si próprios e as situações de repouso não representam
trabalho mecânico de espécie alguma. Voltamos, ainda uma vez, a sentir a falta da ponte que levaria do
estático ao dinâmico; e, ainda que isso a que se chama calor latente continue sendo um impulso para a
teoria, devemos reconhecer, ainda aqui, uma lacuna que não poderia ser negada em parte alguma e muito
menos nas suas aplicações à cosmologia."
 Toda essa fraseologia oracular demonstra, uma vez mais, a sua consciência de culpa, convencido do
mau passo que deu com a sua teoria do movimento saindo da imobilidade absoluta, mas não se atrever,
no entanto. a apelar para a sua única salvação, para o Criador do céu e da terra. Se, mesmo na mecânica,
inclusive na mecânica do calor a ponte do estático ao dinâmico, do equilibro ao movimento, não pode ser
descoberta, por que o Sr. Dühring teria a obrigação de encontrar a ponte que leva de seu estado de
imobilidade ao movimento? Com isso acredita por-se a salvo.
 Na mecânica vulgar, a ponte do estático ao dinâmico é... o impulso exterior. Quando uma pedra do
peso de cinqüenta quilos é elevada à altura de dez metros e mantida ao ar livre de maneira a ficar retida
num estado idêntico a si próprio, no estado de repouso, é preciso recorrer a um público de crianças
ingênuas para poder explicar que a situação atual desse corpo não representa trabalho mecânico, ou que a
diferença entre essa situação e sua situação anterior não deriva do trabalho mecânico.
 O primeiro transeunte fará facilmente compreender ao Sr. Dühring que a pedra não subiu por si para
se pendurar na corda e o primeiro manual de mecânica com que depare poderá explicar-lhe que, se deixar
a pedra cair de novo, ela realizará, em sua queda, tanto trabalho mecânico quanto foi necessário para
elevá-la à altura de dez metros. O simples fato de a pedra estar suspensa no alto representa trabalho
mecânico, pois, se ela ficar pendurada por muito tempo, a corda se romperá, uma vez que, como
resultado de uma decomposição química, não será bastante forte para sustentar a pedra.
 Ora, todos os fenômenos mecânicos podem, para falarmos com o Sr. Dühring, reduzir-se a "formas
fundamentais" simples como essa; e ainda está para nascer o engenheiro que não seja capaz de achar a
ponte do estático ao dinâmico, enquanto dispuser de um impulso suficiente.
 É, seguramente, uma noz um pouco dura e uma pílula amarga para os nossos metafísicos o fato de que
o movimento deva encontrar a sua própria medida no seu contrário, o repouso. É uma contradição
flagrante e toda a contradição (Widerspruch) é para o Sr. Dühring um contra-senso (Widersinn).
Contudo, é certo que a pedra suspensa representa uma quantidade de movimento mecânico determinada,
mensurável com precisão pelo seu peso e pelo seu afastamento do solo, quantidade essa que pode ser
consumida à vontade, de diversas maneiras, como, por exemplo, deixando-se cair a pedra, fazendo-a
deslizar sobre um plano inclinado, fazendo-a impulsionar um moinho de vento, etc., e o mesmo se dá
com o fuzil carregado a que nos referimos anteriormente. Para o pensamento dialético, o fato de o
movimento ser expresso em seu contrário, o repouso, não apresenta dificuldade alguma.
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 Essa antítese é conforme tivemos oportunidade de ver, puramente relativa; não existe repouso
absoluto nem equilíbrio, incondicional. Cada movimento concreto, tende ao equilíbrio, e o movimento
total suprime esse equilíbrio. Assim, o repouso e o equilíbrio são, onde quer que se encontrem, o
resultado de um movimento limitado e concreto, sendo natural que esse movimento seja mensurável por
seu resultado ou seja nele expresso, podendo ser restabelecido a partir dele, sob uma forma ou outra. Mas
uma exposição tão simples do caso não poderia contentar ao Sr. Dühring. Como bom metafísico,
descobre ele entre o movimento e o equilíbrio um abismo, que na realidade não existe e, depois,
admira-se de não poder encontrar uma ponte sobre o abismo que ele cavou. Poderia muito bem cavalgar
a seu rocinante metafísico e ir à casa da "coisa em si" de Kant; porque é ela e não outra coisa que, em
última análise, está à sua espera por detrás dessa ponte misteriosa.
 Mas vejamos o que acontece com a teoria mecânica do calor e do calor inativo ou latente que "vinha
sendo um impulso" para essa teoria.
 Se tomarmos um quilo de gelo à temperatura do ponto da congelação e à pressão normal da
atmosfera, e o transformarmos, por meio do calor, num quilo de água, tendo-se a mesma temperatura
ambiente, desaparecerá, dessa forma, uma quantidade de calor suficiente para elevar o mesmo
quilograma de água de 0 a 79 4/10 graus centígrados, ou, se preferirmos, para aquecer de um grau a
quantidade 79 4/10 quilos de água. Se aquecermos esse quilograma de água até o ponto de ebulição, ou
seja, até 100° e se o convertermos em vapor d'água, desaparecerá, até que a última gota de água se
transforme em vapor, uma quantidade de calor aproximadamente sete vezes maior, suficiente para elevar
de um grau a temperatura de 537 2/10 quilos de água. Essa temperatura que desaparece, diz-se que fica
reprimida ou inativa. Se, pelo resfriamento, o vapor se tornar novamente água e a água se converter em
gelo, essa mesma quantidade de calor, que estava até então retida, é posta em liberdade, o que quer dizer
que ela pode ser medida ou percebida como calor. Essa libertação do calor, quando o vapor se condensa e
a água se congela, é que faz com que o vapor, quando a temperatura alcança 100°, só se converta
lentamente em água e que, a partir do ponto de congelação, se opere a congelação pouco a pouco. A
questão, desde que os fatos foram colocados, é a seguinte: Em que se transforma o calor, enquanto está
retido?
 A teoria mecânica do calor - segundo a qual o calor consiste em vibrações mais ou menos
consideráveis de acordo com a temperatura e o estado de agregação das pequenas partículas fisicamente
ativas (moléculas)