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dos corpos, vibrações essas suscetíveis de adotarem, em certas circunstâncias,
qualquer uma das formas do movimento - a teoria mecânica é que explica o fenômeno, dizendo que o
calor desaparecido realiza um trabalho, se transmite a um trabalho. Quando o gelo se derrete, a coerência
estreita e firme das moléculas entre si, cessa e Se transforma, de um aglomerado coeso, numa dispersão
total; quando a água se evapora, no ponto de ebulição, produz-se um estado em que as moléculas soltas
não exercem mais ação sensível umas sobre as outras, dispersando-se, sob a influência do calor, nas mais
opostas direções. Ora, é evidente que cada uma das moléculas de um corpo em estado gasoso encerram
muito mais energia que no estado líquido e, neste, muito mais que no estado sólido. O calor retido,
portanto, não desapareceu, mas apenas se transformou, adquirindo a forma da força de tensão molecular.
 Desde que desaparece a condição pela qual as moléculas podem conservar a sua liberdade absoluta ou
relativa umas frente às outras, Isto é, desde que a temperatura alcance um mínimo, seja de 100°. seja de
0°, essa força de tensão desaparece e as moléculas se aglutinam com a mesma força com que antes se
destacavam umas das outras; essa força desaparece, mas somente para reaparecer, sob forma de calor, e
na quantidade mesma de calor que antes estava retida. Essa explicação é naturalmente uma hipótese,
como, aliás, toda a teoria mecânica do calor, pois que ninguém, até agora, viu uma molécula e, muito
menos, uma molécula vibrátil. Esta hipótese está cheia de defeitos como, aliás, toda a teoria térmica que
é ainda bastante nova; mas pode, pelo menos, explicar os fenômenos sem entrar em contradição com a lei
Anti-Dürhring
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segundo a qual o movimento não se perde, nem se cria, ao mesmo tempo em que é capaz de explicar,
com clareza, a existência do calor no curso de suas metamorfoses. O calor latente ou retidão não é, de
maneira alguma, um impulso para a teoria mecânica do calor. Pelo contrário, essa teoria dá, pela primeira
vez, uma explicação racional dos fenômenos e torna-se estranho que os físicos continuem a dar ao calor,
transformado, numa outra forma de energia molecular, o qualificativo antiquado e impróprio de "calor
retido".
 Os estados idênticos a si próprios e às situações de repouso da matéria em estado sólido líquido ou
gasoso, representam, pois, trabalho mecânico e esse trabalho mecânico é a medida do calor. Igualmente,
tanto a crosta sólida da terra como a água do oceano representam, em seu estado natural de agregação,
uma quantidade concreta e determinada de calor posto em liberdade, à qual evidentemente corresponde
uma quantidade também determinada e concreta de força mecânica. Quando a esfera gasosa. de que
nasceu a terra, passou ao estado líquido e, mais tarde, em grande parte, ao estado sólido, uma quantidade
determinada de energia molecular se irradiou no espaço sob a forma de calor. A dificuldade de que fala
misteriosamente o Sr. Dühring não existe, como vemos, já que mesmo nas aplicações cósmicas, se. por
um lado, podemos encontrar defeitos e lacunas. devido aos meios imperfeitos de conhecimento de que
dispomos - por outro lado nunca deparamos obstáculos teóricos intransponíveis. A ponte" do estático ao
dinâmico é, aqui também, como sempre, um impulso de fora - resfriamento ou aquecimento ocasionado
por outros corpus que agem sobre o objeto em equilíbrio. Quanto mais avançamos na filosofia da
natureza do Sr. Dühring. mais nos parecem inconcebíveis e inconsistentes todas as tentativas de explicar
o movimento pela imobilidade ou de encontrar a ponte pela qual o que está em repouso e é puramente
estático poderia por si mesmo passar ao dinâmico, ao movimento.
 Nesse ponto, nos desembaraçamos, felizmente, por algum tempo, do famoso estado primitivo idêntico
a si próprio. O Sr. Dühring passa agora à química, e, neste campo, revela-nos três leis de invariabilidade
da natureza, conquistadas por ele em sua "filosofia da realidade": 1a. - A grandeza ou o volume da
matéria universal é invariável; 2a. - o número dos elementos químicos simples é invariável; e 3a. - a
grandeza ou volume da força mecânica é invariável.
 Assim, o caráter não criado é indestrutível da matéria e de seus elementos simples, na medida em que
ela os tem, bem como o caráter do movimento, - que são fatos antigos universalmente conhecidos, mas
que são expressos de maneira deficiente. - são o único resultado realmente positivo que o Sr. Dühring
nos pode dar de sua filosofia natural do mundo inorgânico. Coisas que conhecíamos há muito tempo e
nada mais. O que sabíamos, porém, é que se tratava de "leis da invariabilidade" e, portanto, de
"propriedades esquemáticas do sistema das coisas". Volta a se dar aqui a mesma história que acima se
deu com Kant: o Sr. Dühring arranja, não importa que velha banalidade arqui-conhecida, cola sobre ela
uma etiqueta de Dühring e chama as coisas de "resultado e concepções essencialmente originais... idéias
criadoras de sistema...ciência radical...
 Isso, porém, ainda não é razão para desespero. Quaisquer que sejam os defeitos da "ciência radical", -
e não há instituição social, por melhor que seja, que não os possua - uma coisa há que o Sr. Dühring pode
afirmar com segurança: "O ouro existente no universo existiu necessariamente sempre na mesma
quantidade e não pode, assim como a própria matéria universal, aumentar ou diminuir." Mas o que
podemos comprar com esse "ouro", o Sr. Dühring infelizmente não nos diz.
Capítulo VII - A FILOSOFIA DA NATUREZA. O MUNDO ORGÂNICO
 "Da mecânica dos choques e pressões até a articulação das sensações e pensamentos, estende-se uma
escala una e homogênea de graduações". Por essa afirmação, o Sr. Dühring evita falar por mais tempo
sobre a origem da vida, se bem que, de um pensador que acompanhou a evolução do mundo desde o
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estado idêntico a si próprio, e que tão família se mostra com os outros astros, tenhamos, talvez, o direito
de esperar que, nesse problema, nos dê a solução exata. De resto, a afirmação acima não é justa senão
pela metade, enquanto não é completada pela linha modal de desproporções de Hegel, da qual já falamos.
Ainda que se faça, progressivamente, a passagem de uma forma de movimento a outra, é sempre um
salto, uma viravolta decisiva. Assim acontece com a passagem da mecânica dos mundos para a das
pequenas massas materiais num mundo concreto e também com a passagem da mecânica das massas
para a das moléculas, que compreende os movimentos estudados na física propriamente dita (calor, luz,
eletricidade, magnetismo); a passagem da física das moléculas para a física dos átomos - a química - que
se processa igualmente por um salto muito nítido, salto esse mais pronunciado ainda na passagem da
ação química ordinária ao quimismo da albumina, a que "chamamos vida". No interior da órbita da vida,
os saltos tornam-se cada vez mais raros e imperceptíveis. Desse modo é Hegel, mais uma vez, quem deve
corrigir o Sr. Dühring.
 A via conceitual pela qual se passa ao mundo orgânico é fornecida ao Sr. Dühring pela idéia de fim. E
outra idéia tomada de Hegel que. na sua Lógica (teoria do conceito) passa, por meio da teleologia ou
teoria dos fins, do mundo físico-químico ao mundo vivo. Para qualquer lado que volvamos os olhos,
encontramos, nas afirmações do Sr. Dühring. "grosserias hegelianas" que ele põe sem nenhum
constrangimento a serviço de sua "ciência radical".
 Iríamos longe se fôssemos procurar saber em que medida a aplicação das idéias de fim e de meio ao
mundo orgânico é legitima e oportuna. Em todo caso, a própria aplicação da idéia hegeliana de "fim
interno". isto é, de um fim que não é introduzido na natureza por um ser exterior agindo intencionalmente
pela sabedoria de