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segundo a qual o movimento não se perde, nem se cria, ao mesmo tempo em que é capaz de explicar,
com clareza, a existência do calor no curso de suas metamorfoses. O calor latente ou retidão não é, de
maneira alguma, um impulso para a teoria mecânica do calor. Pelo contrário, essa teoria dá, pela primeira
vez, uma explicação racional dos fenômenos e torna-se estranho que os físicos continuem a dar ao calor,
transformado, numa outra forma de energia molecular, o qualificativo antiquado e impróprio de "calor
retido".
 Os estados idênticos a si próprios e às situações de repouso da matéria em estado sólido líquido ou
gasoso, representam, pois, trabalho mecânico e esse trabalho mecânico é a medida do calor. Igualmente,
tanto a crosta sólida da terra como a água do oceano representam, em seu estado natural de agregação,
uma quantidade concreta e determinada de calor posto em liberdade, à qual evidentemente corresponde
uma quantidade também determinada e concreta de força mecânica. Quando a esfera gasosa. de que
nasceu a terra, passou ao estado líquido e, mais tarde, em grande parte, ao estado sólido, uma quantidade
determinada de energia molecular se irradiou no espaço sob a forma de calor. A dificuldade de que fala
misteriosamente o Sr. Dühring não existe, como vemos, já que mesmo nas aplicações cósmicas, se. por
um lado, podemos encontrar defeitos e lacunas. devido aos meios imperfeitos de conhecimento de que
dispomos - por outro lado nunca deparamos obstáculos teóricos intransponíveis. A ponte" do estático ao
dinâmico é, aqui também, como sempre, um impulso de fora - resfriamento ou aquecimento ocasionado
por outros corpus que agem sobre o objeto em equilíbrio. Quanto mais avançamos na filosofia da
natureza do Sr. Dühring. mais nos parecem inconcebíveis e inconsistentes todas as tentativas de explicar
o movimento pela imobilidade ou de encontrar a ponte pela qual o que está em repouso e é puramente
estático poderia por si mesmo passar ao dinâmico, ao movimento.
 Nesse ponto, nos desembaraçamos, felizmente, por algum tempo, do famoso estado primitivo idêntico
a si próprio. O Sr. Dühring passa agora à química, e, neste campo, revela-nos três leis de invariabilidade
da natureza, conquistadas por ele em sua "filosofia da realidade": 1a. - A grandeza ou o volume da
matéria universal é invariável; 2a. - o número dos elementos químicos simples é invariável; e 3a. - a
grandeza ou volume da força mecânica é invariável.
 Assim, o caráter não criado é indestrutível da matéria e de seus elementos simples, na medida em que
ela os tem, bem como o caráter do movimento, - que são fatos antigos universalmente conhecidos, mas
que são expressos de maneira deficiente. - são o único resultado realmente positivo que o Sr. Dühring
nos pode dar de sua filosofia natural do mundo inorgânico. Coisas que conhecíamos há muito tempo e
nada mais. O que sabíamos, porém, é que se tratava de "leis da invariabilidade" e, portanto, de
"propriedades esquemáticas do sistema das coisas". Volta a se dar aqui a mesma história que acima se
deu com Kant: o Sr. Dühring arranja, não importa que velha banalidade arqui-conhecida, cola sobre ela
uma etiqueta de Dühring e chama as coisas de "resultado e concepções essencialmente originais... idéias
criadoras de sistema...ciência radical...
 Isso, porém, ainda não é razão para desespero. Quaisquer que sejam os defeitos da "ciência radical", -
e não há instituição social, por melhor que seja, que não os possua - uma coisa há que o Sr. Dühring pode
afirmar com segurança: "O ouro existente no universo existiu necessariamente sempre na mesma
quantidade e não pode, assim como a própria matéria universal, aumentar ou diminuir." Mas o que
podemos comprar com esse "ouro", o Sr. Dühring infelizmente não nos diz.

Capítulo VII - A FILOSOFIA DA NATUREZA. O MUNDO ORGÂNICO
 "Da mecânica dos choques e pressões até a articulação das sensações e pensamentos, estende-se uma
escala una e homogênea de graduações". Por essa afirmação, o Sr. Dühring evita falar por mais tempo
sobre a origem da vida, se bem que, de um pensador que acompanhou a evolução do mundo desde o

Anti-Dürhring

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estado idêntico a si próprio, e que tão família se mostra com os outros astros, tenhamos, talvez, o direito
de esperar que, nesse problema, nos dê a solução exata. De resto, a afirmação acima não é justa senão
pela metade, enquanto não é completada pela linha modal de desproporções de Hegel, da qual já falamos.
Ainda que se faça, progressivamente, a passagem de uma forma de movimento a outra, é sempre um
salto, uma viravolta decisiva. Assim acontece com a passagem da mecânica dos mundos para a das
pequenas massas materiais num mundo concreto e também com a passagem da mecânica das massas
para a das moléculas, que compreende os movimentos estudados na física propriamente dita (calor, luz,
eletricidade, magnetismo); a passagem da física das moléculas para a física dos átomos - a química - que
se processa igualmente por um salto muito nítido, salto esse mais pronunciado ainda na passagem da
ação química ordinária ao quimismo da albumina, a que "chamamos vida". No interior da órbita da vida,
os saltos tornam-se cada vez mais raros e imperceptíveis. Desse modo é Hegel, mais uma vez, quem deve
corrigir o Sr. Dühring.
 A via conceitual pela qual se passa ao mundo orgânico é fornecida ao Sr. Dühring pela idéia de fim. E
outra idéia tomada de Hegel que. na sua Lógica (teoria do conceito) passa, por meio da teleologia ou
teoria dos fins, do mundo físico-químico ao mundo vivo. Para qualquer lado que volvamos os olhos,
encontramos, nas afirmações do Sr. Dühring. "grosserias hegelianas" que ele põe sem nenhum
constrangimento a serviço de sua "ciência radical".
 Iríamos longe se fôssemos procurar saber em que medida a aplicação das idéias de fim e de meio ao
mundo orgânico é legitima e oportuna. Em todo caso, a própria aplicação da idéia hegeliana de "fim
interno". isto é, de um fim que não é introduzido na natureza por um ser exterior agindo intencionalmente
pela sabedoria de nenhuma "providência", mas que reside na necessidade dos próprios objetos, conduz,
constantemente, as pessoas que não têm uma cultura filosófica completa, sem se dar conta disso, à
suposição irrefletida de uma norma consciente e intencional nos atos da natureza. O próprio Sr. Dühring,
que, à menor tendência "espiritista" em outrem, explode numa indignação moral sem limites, afirma-nos
com certeza que "as sensações instintivas foram criadas, em primeiro lugar, graças à satisfação que está
ligada a seu funcionamento." Ele nos conta que a pobre natureza "deve sem cessar restabelecer e garantir
a ordem no mundo dos objetos e que, além disso, há uma série de outras funções a resolver "que da parte
da natureza exigem mais sutilezas do que geralmente se pensa".
 Mas não só a natureza sabe por que ela cria isto ou aquilo, não só ela deve fazer serviços de criada,
não só ela tem o dom da sutileza, o que já seria, portanto, um aperfeiçoamento considerável, no sentido
de um pensamento consciente e subjetivo, como tem ainda uma vontade, que são as tarefas
suplementares, graças às quais os instintos além de satisfazer às necessidades reais da natureza (nutrição,
reprodução, etc.), "não devem ser considerados como diretamente mas só como indiretamente
desejados". Chegamos, assim, a uma natureza cujo pensamento e cuja ação são conscientes e eis-nos,
portanto, sobre a "ponte" que liga, não certamente o estático ao dinâmico, mas o panteísmo ao deísmo.
Ou será que o Sr. Dühring se permite, de quando em quando, entregar-se um pouco, ele mesmo, à
"meia-poesia filosófica da natureza"?
 Não, não é possível! Tudo o que o nosso filósofo da realidade nos diz sobre a natureza orgânica
reduz-se precisamente à luta contra essa "meia-poesia filosófica da natureza", contra esse "charlatanismo
com suas frivolidades superficiais" e de "suas mistificações científicas, digamos assim", contra os
"rasgos