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cada vez mais delgado até que se separam, passando a viver como duas
células independentes. É pela repetição de tais desdobramentos que a bolha germinal do ovo animal,
depois que se processa a fecundação, engendra, pouco a pouco, todo o novo organismo e, pela mesma
forma, no animal adulto, se realiza a substituição dos tecidos gastos. Chamar uma tal série de operações
de "composição" e tratar a denominação "evolução" como "pura imaginação" é obra certamente de um
homem que (por mais que nos custe admiti-lo nos tempos que correm) nada sabe sobre esses fenômenos.
O que há ali, exclusivamente, e no sentido literal do termo, é evolução, desenvolvimento, mas, nunca,
composição.
 Teremos ainda o que dizer sobre o que o Sr. Dühring entende, em geral, sobre vida. Em particular, o
que ele chama vida é o seguinte: "O mundo inorgânico é também um sistema de movimentos
automáticos; mas só a partir do momento em que a circulação das matérias começa a ramificar-se, em
sentido estrito, e a desenvolver-se por meio de canais especiais, partindo de um ponto interior para um
esquema germinal, transmissível a um ser menor, é que se pode falar de vida propriamente dita no
sentido estrito e rigoroso do termo."
 Essa frase é, no sentido estrito e rigoroso do termo, um sistema de movimentos automáticos. (supondo
que isso significa alguma coisa), um sistema de absurdos, sem falar da lamentável gramática do Sr.
Dühring. se a vida só começa com a ramificação propriamente dita, é mister lavrar sentença de morte
para todo o reino dos protistas de Haeckel e talvez de muitos outros seres, conforme o modo de conceber
o conceito de ramificação. Se a vida somente se inicia quando essa diferenciação é transmissível por
meio de um pequeno esquema germinal, teremos de concluir que, pelo menos toda a escala de
organismos, - desde os inferiores aos unicelulares, inclusive estes - não é vida, mas, pelo contrário, é
morte, Se o característico da vida é a circulação das substâncias por meio de canais especiais, temos que
excluir da lista de seres vivos, além dos seres que acabamos de falar, toda a classe superior dos
celenterados, com exceção das medusas, e, portanto, todos os pólipos e demais seres vegetativos. E se,
finalmente, a circulação das substâncias, por canais especiais que partem de um ponto interior, é o
critério essencial da vida, devemos considerar como mortos todos os animais que não têm coração ou
todos os que têm vários corações. Entre esses se encontram, além dos seres acima citados, todos os

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vermes, estrelas do mar e rotíferos (anublóida e anulosa, segundo a classificação de Huxley), uma parte
dos crustáceos (lagostas etc., e, por fim, até mesmo um vertebrado, o anfioxus, sem contarmos a
totalidade das plantas).
 Como vemos, o Sr. Dühring, no seu exemplo de caracterizar a vida, no sentido estrito e rigoroso do
termo, apresenta quatro critérios inteiramente contraditórios de vida, que se excluem uns aos outros,
sendo que condena à morte não só todo o reino vegetal, mas ainda cerca de metade do reino animal.
Realmente, ninguém poderá dizer que ele nos engana, quando nos promete "resultados inteiramente
novos e concepções essencialmente originais".
 Lê-se, em outro trecho: "Na natureza, igualmente, existe um tipo simples que serve de base a todos os
organismos, desde o inferior até o superior" e esse tipo "se apresenta inteiramente visível, nos seus traços
essenciais, na mais simples reação da planta mais imperfeita."
 Essa asserção é também um absurdo "inteiramente visível". O tipo mais simples que se pode observar,
em toda a natureza orgânica, é a célula; e, certamente, ela está na base dos mais complexos organismos.
Em compensação, entre os organismos mais simples e inferiores, encontram-se muitos que são ainda
inferiores à célula, como sejam, a protoameba, simples partícula de albumina, sem nenhuma
diferenciação, uma série inteira de outras moneras e todas as sinfonias. Todos esses seres têm apenas um
ponto em comum com os organismos superiores: o seu elemento essencial é a albumina e eles exercem,
em conseqüência, funções albumínicas, isto é, as funções de viver e morrer.
 O Sr. Dühring ainda nos conta o seguinte: "Fisiologicamente, a sensação está ligada à existência de
um aparelho nervoso qualquer, por mais simples que seja. Portanto, o característico de todos os seres
animais é o de serem capazes de ter sensações, isto é, terem percepções subjetivamente conscientes dos
estados pelos quais atravessam. A verdadeira linha divisória entre a planta e o animal está ali onde se
realiza o salto para a sensação. E esse limite é tão claro e resiste tanto a deixar-se apagar pelas
conhecidas formas intermediárias que, justamente essas formações exteriormente indistintas ou
indetermináveis são as que se convertem numa necessidade lógica". E acrescenta: "As plantas, pelo
contrário, são absoluta e definitivamente desprovidas de todo traço de sensação e até mesmo da
possibilidade de experimentá-la".
 Primeira, advertiremos que já Hegel dizia (Filosofia da Natureza, pág. 351, nota diferencial) que "a
sensação é a differentia specifica, a característica absoluta do animal". Eis, portanto, mais um "deslize"
de Hegel, que, por meio da simples anexação por parte do Sr. Dühring, foi elevada à nobre categoria de
uma verdade definitiva e sem apelação.
 Em segundo lugar, ouvimos falar, pela primeira vez, de formações intermediárias exteriormente
indistintas ou indeterminadas (delicioso patuá) entre o reino animal e o vegetal. Esses seres
intermediários existem; há organismos que não se pode categoricamente dizer se são plantas ou animais
e, portanto, não podemos estabelecer rigorosamente o limite entre a planta e o animal. E tudo isso sugere
ao Sr. Dühring a necessidade lógica de fixar uma característica diferencial que, ao mesmo tempo, afirma
ser insustentável. Mas não temos sequer necessidade de percorrer essa duvidosa zona intermediária entre
os reinos vegetal e animal. Poderemos dizer que as plantas sensitivas - que ao menor. contato distendem
ou contraem as suas folhas ou flores -, ou as plantas insetívoras não possuem o menor traço de sensação e
não têm também qualquer possibilidade orgânica de experimentá-la? Nem o próprio Sr. Dühring ousaria
afirmar tal coisa, sem cair na "semipoesia anti-científica".
 Em terceiro lugar, temos mais uma "criação e livre imaginação" do Sr. Dühring ao afirmar que a
sensação está sempre, psicologicamente, ligada à existência de um sistema nervoso qualquer, "por mais
simples que seja". Não só nos animais primitivos, mas principalmente nos animais vegetativos - em sua
grande maioria - não se descobre o menor esboço de sistema nervoso. Não é senão a partir dos vermes
que o encontramos regularmente e o Sr. Dühring é o primeiro a afirmar que, nesses animais, a ausência

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de sensação provém do fato de não terem nervos. A sensação não está ligada necessariamente aos nervos,
mas, antes, a certos corpos albuminóides que, até hoje, não foram ainda determinados com precisão.
 De resto, os conhecimentos biológicos do Sr. Dühring são suficientemente caracterizados por uma
pergunta que ele não teme dirigir a Darwin: "Deve-se admitir que o animal provém, por evolução, da
planta?" Semelhante pergunta só poderia ser feita por um homem que nada entende nem do que é um
animal, nem do que é uma planta.
 Da vida em geral, o Sr. Dühring diz-nos apenas o seguinte: "A mudança de substâncias que se realiza
por meio de uma esquematização, plasticamente modeladora (pode-se saber o que é isso?) continua
sendo um caráter distintivo do processo vital propriamente dito." É tudo o que nos ensina sobre a vida. E
para. isso temos que nos enterrar até os joelhos na "esquematização plasticamente modeladora". Assim,
pois, se queremos saber o que é vida, não teremos outro remédio senão averiguá-lo por nossa