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rigorosamente o limite entre a planta e o animal. E tudo isso sugere
ao Sr. Dühring a necessidade lógica de fixar uma característica diferencial que, ao mesmo tempo, afirma
ser insustentável. Mas não temos sequer necessidade de percorrer essa duvidosa zona intermediária entre
os reinos vegetal e animal. Poderemos dizer que as plantas sensitivas - que ao menor. contato distendem
ou contraem as suas folhas ou flores -, ou as plantas insetívoras não possuem o menor traço de sensação e
não têm também qualquer possibilidade orgânica de experimentá-la? Nem o próprio Sr. Dühring ousaria
afirmar tal coisa, sem cair na "semipoesia anti-científica".
 Em terceiro lugar, temos mais uma "criação e livre imaginação" do Sr. Dühring ao afirmar que a
sensação está sempre, psicologicamente, ligada à existência de um sistema nervoso qualquer, "por mais
simples que seja". Não só nos animais primitivos, mas principalmente nos animais vegetativos - em sua
grande maioria - não se descobre o menor esboço de sistema nervoso. Não é senão a partir dos vermes
que o encontramos regularmente e o Sr. Dühring é o primeiro a afirmar que, nesses animais, a ausência
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de sensação provém do fato de não terem nervos. A sensação não está ligada necessariamente aos nervos,
mas, antes, a certos corpos albuminóides que, até hoje, não foram ainda determinados com precisão.
 De resto, os conhecimentos biológicos do Sr. Dühring são suficientemente caracterizados por uma
pergunta que ele não teme dirigir a Darwin: "Deve-se admitir que o animal provém, por evolução, da
planta?" Semelhante pergunta só poderia ser feita por um homem que nada entende nem do que é um
animal, nem do que é uma planta.
 Da vida em geral, o Sr. Dühring diz-nos apenas o seguinte: "A mudança de substâncias que se realiza
por meio de uma esquematização, plasticamente modeladora (pode-se saber o que é isso?) continua
sendo um caráter distintivo do processo vital propriamente dito." É tudo o que nos ensina sobre a vida. E
para. isso temos que nos enterrar até os joelhos na "esquematização plasticamente modeladora". Assim,
pois, se queremos saber o que é vida, não teremos outro remédio senão averiguá-lo por nossa própria
conta.
 A troca orgânica de matérias é o fenômeno mais geral e mais característico da vida: isso foi dito,
desde há trinta anos, um número incalculável de vezes, pelos que se ocupam de química fisiológica ou de
filosofia química. O Sr. Dühring simplesmente o traduz na linguagem elegante e clara que lhe é peculiar.
Mas, definir a vida como troca de substâncias orgânicas é defini-la como... vida, pois a troca orgânica de
matérias ou o que o Sr. Dühring chama de troca de matérias com "esquematização plasticamente
modeladora", é sempre uma expressão que tem, ela própria, necessidade de ser explicada pelo conceito
de vida, explicada pela diferença entre o orgânico e o inorgânico, Isto é, entre o que vive e o que não
vive. Essa explicação não nos faz, portanto avançar nem um só milímetro.
 A troca de substâncias tem lugar também fora da vida. Há toda uma série de processos químicos que,
por meio de um fornecimento suficiente de matérias-primas, engendram sempre, de novo, as suas
próprias condições e isso de modo que a operação é sempre sustentada per um corpo determinado. É o
caso da fabricação do ácido sulfúrico pela combustão de enxofre: produz-se um anidrido sulfuroso (SO2)
e, introduzindo-se vapor d'água e ácido nítrico, faz-se com que o anidrido sulfuroso. absorvendo o
hidrogênio e o oxigênio, se transforme em ácido sulfúrico (H2SO4). O ácido nítrico elimina o oxigênio e
reduz-se ao estado de ácido nitroso. Esse ácido nitroso toma logo, do ar, novo oxigênio e passa a um grau
superior de oxidação, mas o fez para fornecer imediatamente esse oxigênio ao anidrido sulfuroso e
refazer novamente o mesmo processo, de maneira que, teoricamente, uma quantidade infinitamente
pequena de ácido nítrico bastaria para transformar em ácido sulfúrico uma quantidade ilimitada de
anidrido sulfuroso, oxigênio e água. Uma troca ou assimilação de substâncias tem lugar, além disso, na
passagem de líquidos através de membranas orgânicas mortas ou mesmo inorgânicas, como se verifica
nas células artificiais de Traube. Vê-se que, ainda aqui, a idéia da troca de substâncias não nos faz
avançar um passo, porquanto a troca particular de substâncias, destinada a explicar a vida, tem, ela
própria, necessidade de ser explicada pela vida. É preciso, portanto, procurar outro caminho para a
solução desse problema.
 A vida é o modo de existência dos corpos albuminóides e esse meio de existência consiste,
essencialmente, no processo de auto-renovação constante dos elementos químicos integrantes desses
corpos.
 Entende-se pela expressão corpos albuminóides, aqueles de que trata a química moderna, que
compreende, sob esse nome, todos os corpos complexos, cuja composição é análoga à da albumina
normal e que também têm, às vezes, o nome de substâncias protéicas ou proteínas. Essa definição de vida
não agrada aos homens, pois a albumina normal é, de todas as substâncias afins, a mais inanimada, a
mais passiva, sendo, como a gema do ovo, uma simples substância nutritiva para o germe em gestação.
Mas enquanto não nos adiantarmos mais na composição química dos corpos albuminóides, essa
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denominação será ainda a melhor por ser a mais geral de todas.
 Por toda a parte onde encontramos uma manifestação de vida, vêmo-la a um corpo albuminóide, e
vice-versa, desde que não esteja ainda em curso de decomposição, o corpo albuminóide estará sempre
acompanhado de manifestações de vida. Sem dúvida, a presença de outras combinações químicas é
necessária, num corpo vivo, para provocar uma diferenciação particular nessas manifestações vitais.
Essas combinações, contudo, não são indispensáveis à vida pura e simples, senão por intervirem como
alimentos e por se converterem em albumina. Os seres vivos mais simples que conhecemos são
precisamente massas de albumina que manifestam já todas as funções vitais essenciais.
 Mas em que consistem essas funções vitais que se encontram igualmente por toda parte, em todos os
seres vivos? Consistem precisamente em que o corpo albuminóide absorve, do seu meio, substâncias
apropriadas, incorpora-se, assimila-as, enquanto outras partes do corpo, que se gastam, são eliminadas.
Outros corpos, os corpos não vivos, transformam-se, decompõem-se e combinam-se também no decorrer
dos processos naturais, mas, ao fazê-lo, cessam de ser o que eram. O rochedo que se desfaz em poeira
não é mais rochedo. O metal que se oxida transforma-se em ferrugem. Mas o que, nas matérias mortas, é
causa de desaparecimento, é, na albumina, condição essencial de existência. A partir do momento em que
cessa essa metamorfose ininterrupta dos elementos integrantes do corpo albuminóide, essa troca
permanente de assimilação e desassimilação, o próprio corpo albuminóide se extingue, se decompõe ou,
por outra - morre. A vida, modo de existência do corpo albuminóide, consiste, pois, antes de mais nada,
em que ele é a todo momento ele próprio e simultaneamente um outro e isso, não como conseqüência de
uma ação de fora à qual estivesse submetido, como pode ser o caso para as matérias não vivas. A vida,
que é uma troca de substâncias por assimilação e desassimilação, é, pelo contrário, um processo que se
realiza sem intervenção de nenhum agente exterior, um processo inerente, inato, no corpo sobre que atua
a albumina, sem o qual este não pode existir. Segue-se que, só os químicos conseguissem produzir
artificialmente a albumina, essa albumina manifestaria necessariamente funções vitais, por mais
rudimentares que fossem. Pode-se, é verdade, indagar, supondo-se que se criasse albumina, se a química
descobriria