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Como é possível que se possa rebaixar, devido a uns reveses no campo terrestre das ciências naturais,
aquele que tem na algibeira a chave do universo das sensações?
 Passemos adiante!

Capítulo IX - MORAL E DIREITO. VERDADES ETERNAS.

 Abstemo-nos de dar algumas amostras do guizado de tolices e sentenças oraculares, ou seja, do
simples charlatanismo que o Sr. Dühring. serve a seus leitores em cinqüenta páginas como sendo a
ciência radical dos elementos da consciência. Não citaremos senão esta: "Quem não é capaz de pensar,
senão com a ajuda da linguagem, não tem a menor idéia do que significa pensamento original e
verdadeiro". Segundo essa afirmativa, os animais são os pensadores mais originais e mais verdadeiros,
pois o seu pensamento jamais é perturbado pela intromissão da linguagem. A dizer verdade, vê-se bem
nos pensamentos dühringuianos e na linguagem que os exprime, quanto eles se adaptam mal a uma
linguagem qualquer, e, por outro lado, como a linguagem, pelo menos a alemã, se ajusta com dificuldade
a esses pensamentos.
 Enfim, eis-nos chegados ao quarto capítulo que, no meio desse fluxo de frases ambíguas, apresenta,
ao menos aqui e ali, alguma coisa de aproveitável sobre a Moral e o Direito. Desde o inicio, somos
convidados a fazer uma viagem aos outros mundos: os elementos da moral "devem ser encontrados de
igual maneira entre todos os seres não humanos, nos quais uma inteligência ativa se ocupa de pôr em
ordem consciente as reações vitais instintivas... Entretanto, o interesse que tomamos por essas idéias será
sempre ínfimo... Mas, por outro lado. será sempre uma concepção própria à ampliação benfazeja dos
nossos horizontes, o representarmos a vida individual e social, em outros astros, como baseada,
necessariamente, na contextura fundamental e geral de um esquema que... não pode ser suprimido nem
cancelado por nenhum ser que atue de modo inteligente."
 Por que, excepcionalmente, é no começo e não no fim do capítulo que se afirma o valor das verdades
de Dühring para todos os outros mundos possíveis?
 Há, para isso, uma razão suficiente. Uma vez estabelecido que as idéias de Dühring sobre moral e
justiça valem para todos os mundos, será mais fácil "estendê-las logo beneficamente, como diria ele, a
todos os tempos. Mas, ainda uma vez, não se trata aqui, nem mais nem menos, que de "verdades
definitivas e sem apelação". O mundo moral "tanto quanto o da ciência geral, tem seus princípios
permanentes e seus elementos simples"; os princípios morais estão colocados "por cima da história e das
diferenças que hoje separam a estrutura dos povos... As verdades concretas de que se compõe, no curso
da evolução, por síntese, a mais ampla consciência moral, e o que se pode chamar a "consciência do
homem", podem, uma vez investigadas até as suas últimas raízes, pretender para si a mesma validez e o
mesmo alcance que as concepções e aplicações das matemáticas. As autênticas verdades são sempre
imutáveis, de maneira que é tolice representar a exatidão do conhecimento humano algo destrutível pelo
tempo e pelas transformações reais.
 A segurança de um saber rigoroso e a validez dos conhecimentos mais comuns não nos permitem
pois, duvidar, em momentos de reflexão, do valor absoluto dos princípios da ciência. "Já, por si mesma, a
dúvida permanente é um estado doentio de fraqueza e não faz senão manifestar um desolado
confusionismo que às vezes procura dar-se a aparência de alguma solidez, na consciência sistemática de
sua nulidade. Em matéria de moral, a negação dos princípios universais apega-se às diversidades

Anti-Dürhring

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geográficas e históricas dos costumes e dos princípios morais; e, confessando-se a necessidade inevitável
do mau e do perverso em moral, acredita-se livre da obrigação de reconhecer a comprovada vigência e a
ação eficaz de padrões morais coincidentes. Esse ceticismo dissolvente, que se exerce não contra tal ou
qual falso ensinamento objetivo, mas contra a própria capacidade que tem o homem de obedecer a uma
moralidade consciente, atinge mesmo alguma coisa pior que o puro niilismo... Ele tem a ilusão de,
facilmente, poder governar o seu tumultuoso caos de noções morais desagregadas e de poder abrir as
portas ao Capricho destituído de princípios. Mas seu erro é imenso, pois é suficiente que se recordem as
aventuras inevitáveis da razão na verdade e no erro. para que se reconheça, revelada por essa analogia,
que a falibilidade das leis naturais não exclui necessariamente a possibilidade de saber encontrar o
caminho exato."
 Até aqui, alinhamos tranqüilamente todas essas pomposas declarações do Sr. Dühring sobre as
verdades definitivas e sem apelação, a soberania do pensamento, a segurança absoluta do conhecimento,
etc... porque, em suma, a questão só podia ser decidida no ponto a que agora chegamos. Até aqui, nos
contentávamos em verificar em que medida as proposições concretas da filosofia da realidade tinham
"validez soberana", e "títulos incondicionais de verdade". Ao chegarmos aqui, encontramo-nos ante a
questão de saber até que ponto os produtos do conhecimento humano podem aspirar a uma validez
absoluta e aos títulos incondicionais de verdade. E quando digo conhecimento humano, não é que tenha
qualquer intenção de ofender aos habitantes dos outros astros, que não tenho a honra de conhecer; mas é
que os animais também têm um conhecimento, embora não seja nunca soberano, o cão, por exemplo, terá
o seu dono por um Deus, o que não impede que esse Senhor seja o maior canalha do mundo.
 O pensamento humano é soberano? Antes de responder sim ou não, é preciso primeiramente saber o
que é, na realidade, o pensamento humano. É o pensamento de um só homem? Não. Ele não existe senão
como pensamento concreto de muitos milhares de milhões de homens passados, presentes e futuros.
Assim, pois, quando eu digo que esse pensamento de todos os homens, inclusive os vindouros,
sintetizado no meu espírito, é soberano, capaz de conhecer, de modo absoluto, o mundo real, desde que a
humanidade subsista o tempo necessário para isso e que não se produza, nem nos órgãos nem nos objetos
do conhecimento, modificação capaz de limitar esse conhecimento, estarei dizendo uma coisa banal e,
além disso, estéril. Porque o resultado mais precioso dessa idéia seria tornarmo-nos extremamente
desconfiados quanto aos nossos conhecimentos atuais, posto que estamos, segundo toda a probabilidade,
ainda quase no início da história da humanidade, tendo as gerações que nos corrigirão de ser seguramente
muito mais numerosas que aquelas cujos conhecimentos - não poucas vezes um olímpico desprezo -
somos capazes de corrigir.
 O próprio Sr. Dühring considera necessário que a consciência e, por conseguinte. o pensamento e o
conhecimento, só se manifestam numa série de seres isolados. Só num sentido o pensamento de cada um
desses seres isolados não pode ser considerado como soberano no sentido de que não conhecemos um
poder capaz de impor-lhes, pela força, quando se acham em estado de saúde e de serenidade, um
qualquer pensamento... Mas, no que se refere ao valor soberano dos conhecimentos de cada mente
individual isolada, sabemos que não pode haver tal valor soberano e todas as nossas experiências
passadas nos demonstram que. nesses conhecimentos, sem exceção, está contida uma parte maior de
dados retificáveis do que de dados não retificáveis.
 Em outros termos: a soberania do pensamento realiza-se através de uma série de seres humanos
pensantes muito pouco soberanos; os conhecimentos que podem alegar títulos incondicionais de verdade
se impõem depois de uma série de erros relativos; nenhuma soberania pode converter-se em plena
realidade a não ser através da duração infinita da própria realidade.
 Encontramos, aqui, a mesma contradição, que já indicamos no trecho acima, entre o caráter, que
necessariamente temos que nos apresentar como absoluto do pensamento humano e a realidade desse

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