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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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época, têm estado divididos, quase
sempre, em dominantes e dominados, ou então o fato de ter Napoleão morrido no dia 5 de maio de 1821,
e assim por diante.
 Entretanto, é notável que seja este precisamente o campo em que, com maior freqüência, deparamos
com pretensas verdades eternas, verdades definitivas e inapeláveis, etc. Considerar verdades eternas que
dois e dois são quatro, que os pássaros têm bico, e outras coisas deste gênero, não mais pode ocorrer a
quem abrigue a secreta intenção de estabelecer o princípio das verdades eternas de modo geral, para
deste princípio extrair deduções sobre a existência, também no campo da história humana, de verdades
eternas, como sejam, uma moral eterna, uma justiça eterna, etc.. com os mesmos títulos de legitimidade e
o mesmo alcance que as verdades matemáticas e as aplicações dessas verdades. E podemos ter segurança
de que, se for assim, esse mesmo filantropo aproveitará a primeira oportunidade para assegurar-nos que

Anti-Dürhring

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os fabricantes de verdades eternas que vieram antes dele não deixaram de ser, alguns mais, outros menos,
umas bestas e uns charlatães, que todos andavam equivocados, que eram todos vítimas de erro, mas que
os erros, que cometeram, a sua falibilidade é perfeitamente lógica, servindo para demonstrar a verdade e
a exatidão que cercam o atual descobridor de verdades eternas, esse profeta recém-saido do forno, que
traz, na mochila, pronta para ser posta em circulação, a verdade definitiva e inapelável, a moral eterna, a
eterna justiça. Centenas e milhares de vezes tais coisas já se passaram, de tal modo que se tem que ficar
assombrado, de que haja ainda homens que sejam bastante ingênuos para acreditar, já não digo nas
plataformas dos outros, mas nas suas próprias. E, no entanto, temos que nos render à evidência, pois
temos diante de nós um desses profetas que, como é de praxe, se enfurece e tem verdadeiros acessos de
ira moral quando alguém se atreve a negar que seja ele capaz de apresentar-nos a verdade definitiva e
inapelável. Sabemos já que a negação, ou, mais ainda, a simples dúvida a respeito das verdades eternas é
um "estado de debilidade doentia", um "desesperado confusionismo", uma "nulidade", um "nada",
"ceticismo desagregador", "ainda pior que o simples niilismo", um "caos de confusão", e não sei quantas
outras delicadezas do mesmo gênero. Já se sabe que os profetas não precisam molestar-se em realizar
investigações críticas e científicas, pois lhes basta fulminar-nos com seus raios morais.
 Poderíamos ter mencionado mais acima as ciências que investigam as leis do pensamento humano, ou
seja, a lógica e a dialética. Mas também nesse terreno não é tão melhor colocada as verdades eternas. O
Sr. Dühring deixa de lado a verdadeira dialética como um puro contra-senso e, como sabemos, todos os
livros que se escreveram ou que continuam sendo preparados sobre lógica demonstram completamente
que também neste campo não abundam, como muitos acreditam, as verdades eternas e inapeláveis.
 Além de tudo, não nos precisamos assustar pelo fato de que o grau de conhecimento que alcançamos
na atualidade tenha tão pouca coisa de definitivo quanto o das épocas que nos precederam. O nosso
conhecimento engloba já um material imenso de dados e exige uma grande especialização de estudos por
parte de quem pretende se familiarizar com um ramo ou uma disciplina qualquer de ciência. Mas quem
se limita a medir com a estreiteza da verdade definitiva e sem apelação, da autêntica verdade imutável,
conhecimentos que, ou estão destinados, como conhecimentos relativos por natureza, a serem estudados
por muitas gerações e que, portanto, têm que ser completados pouco a pouco e gradualmente, ou aqueles
outros que, como acontece com a cosmogonia, a geologia, ou a história humana, são também, e
necessariamente têm que continuar a ser, por natureza, incompletos e parciais, pela insuficiência mesma
do material histórico, quem, repetimos, se limita de tal forma, não faz mais que reafirmar com isso a sua
própria ignorância e sua desorientação, embora não se proponha ele próprio, como no caso presente, a
fazê-las ressaltar, arrogando-se, como defesa, títulos de infalibilidade pessoal. A verdade e o erro, como
todos os conceitos que se movem dentro de antíteses polares, só têm aplicação absoluta dentro de uma
zona muito limitada, como nós acabamos de ver e como o próprio Sr. Dühring saberia ver se tivesse uma
noção dos primeiros rudimentos de dialética, que são justamente os que tratam da limitação de todas as
antíteses polares. Tão logo, a antítese de verdade e erro se afasta daquela zona circunscrita em que se
deve mover, ela se converte de absoluta em relativa e perde, assim, todo e qualquer valor, como meio
estritamente científico de expressão; e se tentamos aplicá-la como valor absoluto, fora daquela órbita
circunscrita, fracassamos definitivamente, pois os dois pólos da antítese se tocam no inverso do que são,
a verdade em erro e o erro em verdade. Tomemos, como exemplo, a conhecida lei de Boyle, segundo a
qual, permanecendo invariável a temperatura, varia o volume dos gases na razão inversa da pressão a que
estão submetidos, Regnault descobriu que esta lei não era aplicável a certos casos. Se tivesse sido um
"filósofo da realidade", deveria ter dito: a lei de Boyle é mutável; não é, portanto, uma autêntica verdade,
ou seja, não é uma verdade, mas sim um erro. Mas com isso teria cometido um erro muito maior que o
existente na citada lei; a rocha granítica de sua verdade teria desaparecido como se fosse um torrão de
areia na imensidade de seu erro; teria convertido o seu resultado originariamente exato num erro tal que,

Anti-Dürhring

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comparada com ele, a lei de Boyle, apesar da poeira de erros a ela aderida, resplandeceria como uma
grande verdade. Mas Regnault, como cientista que de fato era, não se deixou levar por semelhantes
puerilidades, tendo continuado a pesquisar, até descobrir que a lei de Boyle era apenas aproximadamente
certa e que deixava de sê-lo, sobretudo na presença de gases que, quando submetidos à pressão, se
tornavam fluidos, ou, mais concretamente, a lei deixava de ser certa a partir do momento em que a
pressão se aproximava do ponto de fluidez. A lei de Boyle só se mantinha exata dentro de certos limites.
Mas, dentro destes limites, era absoluta, definitivamente verdadeira? Nenhum físico se atreverá a afirmar
semelhante coisa. Responderá unicamente que esta lei é efetiva e exata dentro de certos limites de
pressão e temperatura e para determinados gases; e mesmo dentro destes limites admitirá a possibilidade
de que o seu campo de aplicação se restrinja mais ainda ou que a sua fórmula se modifique como
resultado de posteriores investigações.(4)
 Vemos, pois, aqui, o caráter que assumem, na física, as verdades definitivas e inapeláveis. Por isso,
todos os trabalhos realmente científicos se abstêm, cuidadosamente, de empregar termos tão
dogmaticamente normativos como os de erro e verdade, que encontramos em grande quantidade em
obras como A Filosofia da Realidade na qual pretende o autor nos impor, como sendo o fruto soberano
do pensamento soberano, um mero encadeamento de frases sem sentido.
 Mas, perguntará o leitor ingênuo, onde concretamente o Sr. Dühring disse que o conteúdo de sua
filosofia da realidade é a verdade definitiva e inapelável? Onde? Ele o disse, por exemplo, no ditirambo
que entoa em homenagem ao seu próprio sistema, na página 12 desse livro do qual tomamos algumas
frases do capítulo II desta obra; ou quando diz, no parágrafo que acima citamos, que as verdades morais,
sempre que possam ser conhecidas até os seus últimos fundamentos, reclamam os mesmos títulos de
efetividade que as verdades matemáticas. E acaso não afirma O Sr. Dühring ter chegado até esses
fundamentos últimos, até os esquemas fundamentais do ponto de vista de sua "plataforma autenticamente