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crítica" e por intermédio de sua investigação, que atinge "as raízes das coisas", transmitindo com isso as
verdades morais em caráter definitivo e sem apelação? Pois se o Sr. Dühring não pretende esses títulos
nem para si nem para a sua época, se apenas quer dizer que um dia haverá, não se sabe quando, lá pelo
nebuloso futuro, no qual se poderão descobrir verdades definitivas e inapeláveis, se, portanto, apenas
quer dizer o que diz, vaga e confusamente, quando se refere ao "ceticismo desagregador" e "desesperado
confusionismo", porque, então, todo esse barulho? Que deseja, afinal, esse Senhor?
 Se nada ganhamos com os conceitos de verdade e erro, menos ainda alcançamos com os do bem e do
mal. Esta antítese move-se, pura e exclusivamente, dentro da órbita moral, isto é, num terreno que
pertence à história humana, onde já sabemos que pouquíssimas verdades definitivas e inapeláveis podem
fecundar. As idéias do bem e do mal variaram tanto de povo para povo, de geração para geração, que,
não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente. Mas, - replicará alguém com segurança - o que é
bem não é mal, o que é mal não é bem, e se se apaga qualquer distinção entre o bem e o mal, ter-se-á
destruído a moral, e cada qual poderá fazer ou deixar de fazer o que bem entender. Com efeito, tal é, livre
de todo disfarce oracular, a opinião do Sr. Dühring. Mas o problema não é tão fácil de resolver, pois que,
assim sendo, não haveriam disputas sabre o que está bem e o que está mal e todo o mundo saberia se
orientar sobre o que é bom e sobre o que é mau. Mas vejamos o que acontece em nossos dias. Que
espécie de moral nos pregam hoje? Temos, em primeiro lugar, a moral cristã-feudal, que nos legaram os
velhos tempos da fé e que se divide, fundamentalmente, numa moral católica e numa moral protestante,
com toda uma série de variações e subdivisões que vão desde a moral católica dos jesuítas e a moral
ortodoxa dos protestantes, até uma moral de certo modo liberal e tolerante. E, ao lado dessas, temos a
moderna moral burguesa e, ao lado da moral burguesa moderna, a moral proletária do futuro. Portanto,
somente nos países mais cultos da Europa, nos defrontamos com três grupos de teorias morais,

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correspondentes ao passado, ao presente e ao futuro, pretendendo esses três grupos dominar, concorrente
e simultaneamente. Qual delas é a verdadeira? Em sentido absoluto e definitivo, nenhuma; mas,
evidentemente, a que contém mais garantias de permanência é a moral que, no presente, representa a
destruição do presente, o futuro, ou seja, a moral proletária.
 Assim, verificando que as três classes que constituem a sociedade moderna, que são a aristocracia
feudal, a burguesia e o proletariado, possuem cada uma a sua moral particular, teremos, necessariamente,
de concluir, que os homens, consciente ou inconscientemente, fazem derivar suas idéias morais, em
última análise, das condições práticas em que se baseia a sua situação de classe, ou seja, das condições
econômicas em que produzem e trocam os seus produtos.
 Existe, porventura, algum elemento comum às três teorias morais mencionadas, um só elemento que
seja que possamos acatar como verdade perene e definitiva? Essas três teorias morais representam outras
tantas etapas distintas de um mesmo processo histórico, e por isso têm um fundo histórico comum, o que
faz com que forçosamente elas contenham toda uma série de elementos comuns. E não é só. Em fases
idênticas ou aproximadamente equivalentes de desenvolvimento econômico, as teorias morais devem
necessariamente coincidir, numa extensão maior ou menor. Ao surgir a propriedade privada sobre as
coisas móveis, impôs-se, necessariamente, em todas as sociedades nas quais existe essa instituição, um
preceito de moral, comum a todas elas: "Não roubarás". Transformou-se este preceito, por esse simples
fato, numa norma eterna de moral? Não. Numa sociedade em que tivessem desaparecido os móveis do
roubo, na qual, portanto, de um modo geral, somente poderia roubar uma pessoa anormal, o pregador de
moral que subisse ao púlpito para proclamar solenemente a verdade eterna do "não roubarás", seria
vitima de zombaria generalizada.
 Não estamos dispostos, pois, a deixar que nos imponham como lei eterna, definitiva e imutável, um
qualquer dogma de moral, sob o pretexto de que também o mundo moral tem os seus princípios
permanentes, que se colocam acima da história e das diferenças existentes entre os povos. Pelo contrário,
afirmamos que, até hoje, todas as teorias morais foram, em última instância, produtos da situação
econômica das sociedades em que foram formuladas. E, como até o dia de hoje a sociedade se
desenvolveu sempre por antagonismos de classe, a moral foi também. sempre e forçosamente, uma moral
de classe; nalguns casos, construída para justificar a hegemonia e os interesses da classe dominante,
noutros, quando a classe oprimida se torna bastante poderosa para rebelar-se contra a classe opressora, a
moral é construída para defender e legitimar a rebelião e os interesses do futuro em geral, e da classe
oprimida, em particular. Que esta evolução se processa sempre, em largos traços, da mesma forma no
campo da moral como no dos demais ramos do conhecimento humano e sempre num sentido de
progresso, é o que nos parece indubitável. Mas, apesar de todos os progressos, não se encontrou ainda
nenhum modo de fugir da moral de classe. Para se chegar à conquista de uma moral realmente humana,
subtraída a todos os antagonismos de classes ou mesmo à sua recordação, teremos, antes, que alcançar
um tipo de sociedade na qual não somente se tenha abolido o antagonismo das classes mas também tenha
sido esse antagonismo, além de abolido. esquecido e afastado das práticas da vida. Considere-se, pois,
quanto é grande a presunção do Sr. Dühring, que, vivendo no seio da velha sociedade de classes, nas
vésperas de uma revolução social, tem a pretensão de impor à sociedade sem classes do futuro, uma
moral eterna, subtraída às leis do tempo e às mudanças da realidade. Assim mesmo, supondo que
conheça - o que até agora ainda não sabemos - ainda que seja apenas em seus traços fundamentais, a
estrutura dessa sociedade do futuro. E, para terminar, lembramos uma sua descoberta "fundamentalmente
original", mas nem por isso menos "radical": estudando as origens do mal, deparamos com "o fato de que
o tipo de gato, que é encontrado nessa espécie animal com a falsidade que o caracteriza, pode ser
comparado com a contextura de certos caracteres humanos, colocados, assim. no mesmo plano que esses
bichos... O mal não é, pois, nada misterioso. a menos que se queira farejar alguma coisa de místico na

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existência do gato ou na dos felinos em geral." Concluímos, portanto, que o mal, segundo o Sr. Dühring,
é... um gato. O diabo mudou os chifres e as patas por unhas e olhos verdes. Goethe cometeu um erro
imperdoável quando, em seu "Fausto", apresentou Mefistófoles na forma de um cão negro, em vez de
dar-lhe a figura de um gato. O gato, personificação do mal! Temos, aqui, uma moral aplicável não só a
todos os mundos habitáveis, mas também a todos os gatos.

Capítulo X - MORAL E DIREITO. A IGUALDADE

 Já tivemos ocasião de conhecer várias aplicações do método do Sr. Dühring. Consiste ele em analisar
um determinado grupo de objetos do conhecimento, em seus pretendidos elementos simples, aplicando a
estes elementos uns tantos axiomas não menos simples, considerados evidentes pelo autor, para, em
seguida, operar com os resultados assim obtidos. Do mesmo modo, os problemas encontrados no campo
da vida social, "devem ser resolvidos, axiomaticamente, pela comparação com os diversos esquemas
simples e fundamentais, exatamente como se se tratasse de simples... esquemas fundamentais das
matemáticas". Assim, a aplicação do método matemático à história, à moral e ao direito, deverá