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deveria ter dito: a lei de Boyle é mutável; não é, portanto, uma autêntica verdade,
ou seja, não é uma verdade, mas sim um erro. Mas com isso teria cometido um erro muito maior que o
existente na citada lei; a rocha granítica de sua verdade teria desaparecido como se fosse um torrão de
areia na imensidade de seu erro; teria convertido o seu resultado originariamente exato num erro tal que,
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comparada com ele, a lei de Boyle, apesar da poeira de erros a ela aderida, resplandeceria como uma
grande verdade. Mas Regnault, como cientista que de fato era, não se deixou levar por semelhantes
puerilidades, tendo continuado a pesquisar, até descobrir que a lei de Boyle era apenas aproximadamente
certa e que deixava de sê-lo, sobretudo na presença de gases que, quando submetidos à pressão, se
tornavam fluidos, ou, mais concretamente, a lei deixava de ser certa a partir do momento em que a
pressão se aproximava do ponto de fluidez. A lei de Boyle só se mantinha exata dentro de certos limites.
Mas, dentro destes limites, era absoluta, definitivamente verdadeira? Nenhum físico se atreverá a afirmar
semelhante coisa. Responderá unicamente que esta lei é efetiva e exata dentro de certos limites de
pressão e temperatura e para determinados gases; e mesmo dentro destes limites admitirá a possibilidade
de que o seu campo de aplicação se restrinja mais ainda ou que a sua fórmula se modifique como
resultado de posteriores investigações.(4)
 Vemos, pois, aqui, o caráter que assumem, na física, as verdades definitivas e inapeláveis. Por isso,
todos os trabalhos realmente científicos se abstêm, cuidadosamente, de empregar termos tão
dogmaticamente normativos como os de erro e verdade, que encontramos em grande quantidade em
obras como A Filosofia da Realidade na qual pretende o autor nos impor, como sendo o fruto soberano
do pensamento soberano, um mero encadeamento de frases sem sentido.
 Mas, perguntará o leitor ingênuo, onde concretamente o Sr. Dühring disse que o conteúdo de sua
filosofia da realidade é a verdade definitiva e inapelável? Onde? Ele o disse, por exemplo, no ditirambo
que entoa em homenagem ao seu próprio sistema, na página 12 desse livro do qual tomamos algumas
frases do capítulo II desta obra; ou quando diz, no parágrafo que acima citamos, que as verdades morais,
sempre que possam ser conhecidas até os seus últimos fundamentos, reclamam os mesmos títulos de
efetividade que as verdades matemáticas. E acaso não afirma O Sr. Dühring ter chegado até esses
fundamentos últimos, até os esquemas fundamentais do ponto de vista de sua "plataforma autenticamente
crítica" e por intermédio de sua investigação, que atinge "as raízes das coisas", transmitindo com isso as
verdades morais em caráter definitivo e sem apelação? Pois se o Sr. Dühring não pretende esses títulos
nem para si nem para a sua época, se apenas quer dizer que um dia haverá, não se sabe quando, lá pelo
nebuloso futuro, no qual se poderão descobrir verdades definitivas e inapeláveis, se, portanto, apenas
quer dizer o que diz, vaga e confusamente, quando se refere ao "ceticismo desagregador" e "desesperado
confusionismo", porque, então, todo esse barulho? Que deseja, afinal, esse Senhor?
 Se nada ganhamos com os conceitos de verdade e erro, menos ainda alcançamos com os do bem e do
mal. Esta antítese move-se, pura e exclusivamente, dentro da órbita moral, isto é, num terreno que
pertence à história humana, onde já sabemos que pouquíssimas verdades definitivas e inapeláveis podem
fecundar. As idéias do bem e do mal variaram tanto de povo para povo, de geração para geração, que,
não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente. Mas, - replicará alguém com segurança - o que é
bem não é mal, o que é mal não é bem, e se se apaga qualquer distinção entre o bem e o mal, ter-se-á
destruído a moral, e cada qual poderá fazer ou deixar de fazer o que bem entender. Com efeito, tal é, livre
de todo disfarce oracular, a opinião do Sr. Dühring. Mas o problema não é tão fácil de resolver, pois que,
assim sendo, não haveriam disputas sabre o que está bem e o que está mal e todo o mundo saberia se
orientar sobre o que é bom e sobre o que é mau. Mas vejamos o que acontece em nossos dias. Que
espécie de moral nos pregam hoje? Temos, em primeiro lugar, a moral cristã-feudal, que nos legaram os
velhos tempos da fé e que se divide, fundamentalmente, numa moral católica e numa moral protestante,
com toda uma série de variações e subdivisões que vão desde a moral católica dos jesuítas e a moral
ortodoxa dos protestantes, até uma moral de certo modo liberal e tolerante. E, ao lado dessas, temos a
moderna moral burguesa e, ao lado da moral burguesa moderna, a moral proletária do futuro. Portanto,
somente nos países mais cultos da Europa, nos defrontamos com três grupos de teorias morais,
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correspondentes ao passado, ao presente e ao futuro, pretendendo esses três grupos dominar, concorrente
e simultaneamente. Qual delas é a verdadeira? Em sentido absoluto e definitivo, nenhuma; mas,
evidentemente, a que contém mais garantias de permanência é a moral que, no presente, representa a
destruição do presente, o futuro, ou seja, a moral proletária.
 Assim, verificando que as três classes que constituem a sociedade moderna, que são a aristocracia
feudal, a burguesia e o proletariado, possuem cada uma a sua moral particular, teremos, necessariamente,
de concluir, que os homens, consciente ou inconscientemente, fazem derivar suas idéias morais, em
última análise, das condições práticas em que se baseia a sua situação de classe, ou seja, das condições
econômicas em que produzem e trocam os seus produtos.
 Existe, porventura, algum elemento comum às três teorias morais mencionadas, um só elemento que
seja que possamos acatar como verdade perene e definitiva? Essas três teorias morais representam outras
tantas etapas distintas de um mesmo processo histórico, e por isso têm um fundo histórico comum, o que
faz com que forçosamente elas contenham toda uma série de elementos comuns. E não é só. Em fases
idênticas ou aproximadamente equivalentes de desenvolvimento econômico, as teorias morais devem
necessariamente coincidir, numa extensão maior ou menor. Ao surgir a propriedade privada sobre as
coisas móveis, impôs-se, necessariamente, em todas as sociedades nas quais existe essa instituição, um
preceito de moral, comum a todas elas: "Não roubarás". Transformou-se este preceito, por esse simples
fato, numa norma eterna de moral? Não. Numa sociedade em que tivessem desaparecido os móveis do
roubo, na qual, portanto, de um modo geral, somente poderia roubar uma pessoa anormal, o pregador de
moral que subisse ao púlpito para proclamar solenemente a verdade eterna do "não roubarás", seria
vitima de zombaria generalizada.
 Não estamos dispostos, pois, a deixar que nos imponham como lei eterna, definitiva e imutável, um
qualquer dogma de moral, sob o pretexto de que também o mundo moral tem os seus princípios
permanentes, que se colocam acima da história e das diferenças existentes entre os povos. Pelo contrário,
afirmamos que, até hoje, todas as teorias morais foram, em última instância, produtos da situação
econômica das sociedades em que foram formuladas. E, como até o dia de hoje a sociedade se
desenvolveu sempre por antagonismos de classe, a moral foi também. sempre e forçosamente, uma moral
de classe; nalguns casos, construída para justificar a hegemonia e os interesses da classe dominante,
noutros, quando a classe oprimida se torna bastante poderosa para rebelar-se contra a classe opressora, a
moral é construída para defender e legitimar a rebelião e os interesses do futuro em geral, e da classe
oprimida, em particular. Que esta evolução se processa sempre, em largos traços, da mesma