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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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nos
garantir, também aqui, a certeza matemática na verdade dos resultados obtidos, imprimindo-se-lhes o
selo de verdades autenticamente imutáveis.
 Na realidade, não é mais do que um novo rodeio do velho e favorito método ideológico, também
chamado apriorístico, que consiste em estabelecer e provar as propriedades de um objeto, não partindo
do próprio objeto, mas derivando-as do conceito que dele formamos. A primeira coisa a fazer, é
converter o objeto num conceito desse objeto; em segundo lugar, não é preciso mais que inverter a ordem
das coisas e medir o objeto pela sua imagem, o conceito. Não é, pois, o conceito que se deve ajustar ao
objeto, mas este é que se deve ajustar àquele. Nas elucubrações do Sr. Dühring, são os elementos
simples, últimas abstrações a que se pode chegar, que desempenham o papel de conceitos, mas isso em
nada modifica os termos do problema, pois esses elementos simples podem ter, na melhor das hipóteses,
um caráter puramente conceitual. Como vemos, a "filosofia da realidade" também aqui não é mais que
uma pura ideologia, ou seja, uma realidade que é deduzida, não de si mesma, mas da idéia.
 Pois bem, se o ideólogo quer construir a moral e o direito, não baseado na realidade das condições
sociais em que vivem os homens que o rodeiam, mas partindo do conceito "da sociedade", ou seja,
daquilo que ele chama elementos simples, com que materiais conta ele para uma tal tarefa de construção?
Com duas classes de materiais, evidentemente: a primeira, os escassos vestígios de qualquer conteúdo
real que possam existir ainda naquelas abstrações que servem de base à construção, e uma segunda
classe, que é o conteúdo que carrega o nosso ideólogo, e que ele retira de sua própria consciência. Em
sua maior parte, intuições sobre moral e direito, que são uma expressão, mais ou menos adequada -
positiva ou negativa, favorável ou não - das condições sociais e políticas em que ele vive. Talvez, além
dessas intuições, possam encontrar-se idéias tomadas da literatura sobre estes problemas e, por
casualidade, em último lugar, uma série de figurações pessoais. O que quer que faça o nosso ideólogo,
colocando-se onde quer que seja, o resultado será que a realidade histórica, que ele expulsa pela porta,
volta a entrar pela janela, e, quando acredita estar construindo uma teoria da moral e do direito, para
todos os tempos, e para todos os mundos, o que na realidade está fazendo é esboçar uma imagem
caricatural, - arrancada de sua base real, invertida como se num espelho côncavo - das correntes
conservadoras ou revolucionárias de seu tempo.
 O Sr. Dühring analisa a sociedade em seus elementos simples e descobre que a mesma, reduzida em
sua expressão mais simples, é formada, no mínimo, por dois homens. Estes dois homens formarão, em
seguida, o material para as suas manipulações axiomáticas. Colocado neste ramo, chega-lhe às mãos, por
si mesmo, o axioma básico da moral: "duas vontades humanas são, como tais, absolutamente idênticas

Anti-Dürhring

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uma à outra, e uma delas não pode, inicialmente, exigir nada de positivo da outra". Fica, desse modo,
"caracterizada a forma fundamental da justiça moral" e, também, da justiça jurídica, pois, "para
desenvolver os conceitos fundamentais do direito, basta-nos desenvolver a relação simples e elementar
entre dois homens".
 Afirmar que dois homens ou duas vontades humanas, consideradas como tais, são absolutamente
idênticas entre si, não somente não é um axioma, como também pode ser considerado, pelo menos, um
grande exagero. Dois seres humanos podem, mesmo considerados como tais, diferir entre si, antes de
mais nada, pelo sexo, e este fato, tão simples. leva-nos, imediatamente, à conclusão de que os elementos
simples da sociedade - para nos entretermos um momento com estas infantilidades - não são
precisamente dois homens, dois varões, mas um homem e uma mulher que fundam uma família, forma
primeira e mais simples da sociedade, colocada ao serviço da produção. Mas isso não convém ao Sr.
Dühring. de modo algum. Por quê? Porque necessita, a todo transe, que sejam os dois fundadores de sua
sociedade completamente iguais, se possível, e também porque não seria capaz mesmo o Sr. Dühring, de
construir, baseado na família primitiva, a equiparação jurídica e moral do homem e da mulher. Das duas
uma: ou a molécula da sociedade dühringuiana, de cuja multiplicação deve sair toda a sociedade, está
condenada, desde o nascimento, a perecer, pois que dois homens não procriarão nunca, ou são eles
representados como dois chefes de família. Mas, neste caso, voltamos de repente ao singelíssimo
esquema fundamental, que nos demonstra não a igualdade humana, mas, em essência, a igualdade dos
cabeças de família e, como nada se pergunta com respeito às mulheres, demonstra também o fato da
subordinação da mulher.
 Sinto muito ter de comunicar ao leitor uma notícia desagradável: não tardará muito que tenhamos de
vista estes dois famosos homens do Sr. Dühring. Estes dois personagens vieram representar,
aproximadamente, no campo das relações sociais, o mesmo papel que até aqui estava destinada aos
habitantes dos outros mundos, dos quais, afortunadamente, já nos livramos. Existe algum problema de
economia, de política, etc... para resolver? Imediatamente se põem em campo os nossos dois homens e
resolvem a coisa "axiomaticamente", de um só golpe. É uma descoberta magnífica, original, e "capaz de
criar sistema', a desse nosso filósofo da realidade! É pena que o respeito à verdade nos obrigue a dizer
que a descoberta não é precisamente sua! Esses dois homens de encomenda são patrimônios de todo o
século XVIII. Já os conhecemos em 1754 no "Discurso sobre as desigualdades dos homens", de J. J.
Rousseau, onde - seja dito entre parênteses - se demonstra, também axiomaticamente, o contrário do que
o Sr. Dühring afirma. Tornamos a nos encontrar com eles, desempenhando um papel de relevo, na
economia política, desde Adam Smith até Ricardo, embora já não sejam, nesse assunto, completamente
iguais, pois que exercem ofícios diferentes - geralmente os de caçador e pescador - e trocam entre si os
seus produtos. Mas o século XVIII se utiliza, de um modo quase exclusivo, desses personagens, a titulo
de ilustração e exemplo; a originalidade do Sr. Dühring consiste em tornar esse método puramente
ilustrativo como método fundamental aplicável a toda a ciência da sociedade e como critério para o
estudo de todas as manifestações históricas. Realmente, a "concepção estritamente científica sobre coisas
e homens" não poderia ser mais fácil.
 Mas, para extrair logo depois axioma fundamental, segundo o qual esses dois homens e suas
respectivas vontades são totalmente idênticos entre si, sem que nenhum dos dois tenha nada a exigir do
outro, não é suficiente que sejam dois homens quaisquer. Deverão ser dois ares humanos tão fora de toda
a realidade, tão despidos de todas as condições nacionais, econômicas, políticas, religiosas, existentes em
nosso mundo, que, de todas as características e peculiaridades de pessoa e de sexo, neles só deve restar o
mero conceito de homem, de ser humano. Somente assim, poderão ser "completamente idênticos". Como
se vê, não estamos precisamente diante de dois homens, mas de dois perfeitos fantasmas, evocados por
este mesmo Sr. Dühring. que vive a descobrir e a denunciar, por toda a parte, as reações "espiritistas".

Anti-Dürhring

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Esses dois espectros são naturalmente condenados a fazer tudo o que homem que os evocou deles exija; e
por isso são absolutamente indiferentes às outras coisas do mundo para as suas manipulações artificiais.
 Penetremos, um pouco, na axiomática do Sr. Dühring. Dizíamos que aquelas duas vontades nada
podiam exigir de positivo, uma da outra. Se uma delas falta a esse dever e apresenta uma exigência,
chegando mesmo a impô-la pela força, cria-se, então, um estado injusto e, deste