antiduring
155 pág.

antiduring

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.812 seguidores
Pré-visualização50 páginas
esquema fundamental,
faz o Sr. Dühring derivar a injustiça, a dominação, a escravidão, numa palavra, toda a condenável
história desde a antigüidade até os nossos dias. Entretanto, já Rousseau, no estudo que citamos atrás,
valendo-se exatamente de nossos dois homens, provou, de modo axiomático, justamente o contrário, ou
seja, que entre os dois homens, "A" não pode escravizar "B" pela violência, a não ser colocando-o numa
tal situação que "B" não possa prescindir de "A". Esta concepção peca, no entender do Sr. Dühring, por
ser excessivamente materialista. Focalizemos, pois, essa mesma coisa, de outro modo. Suponhamos que
dois náufragos, sozinhos numa ilha, contratam uma sociedade. Suas vontades, são formalmente idênticas,
e ambos assim o consideram, Mas entre os dois sócios existem grandes diferenças materiais. "A" é um
homem resoluto e enérgico; "B" ,é indeciso, indolente, preguiçoso; "A" é inteligente, "B" é retardado. É
natural que, cedo ou tarde, "A" acabe de impor a sua vontade a "B", primeiramente pela persuasão e, a
seguir, pouco a pouco, por força do hábito, mas sempre de um modo livre e espontâneo. Significa a
mesma coisa que sejam respeitadas ou desprezadas as formas voluntárias: voluntária ou não, a servidão é
servidão. A aceitação voluntária da servidão é encontrada em toda a Idade Média e, na Alemanha, chega
mesmo até a Guerra dos 30 Anos. Quando, na Prússia, depois das derrotas de 1806 e 1807, foi abolida a
servidão e com ela a obrigação imposta ao nobre feudal de zelar pelos seus súditos, em casos de miséria,
enfermidade ou velhice, dirigiram-se os camponeses ao rei para suplicar que os deixasse continuar como
servos, pois, de outro modo, quem iria cuidar deles e ampará-los na miséria? O esquema dos dois homens
encerra, pois, os germes de desigualdade e servidão, tanto quanto os de igualdade e cooperação. E como,
além disso, devemos, a não ser que os condenemos a perecer, concebê-los como cabeças de família,
verificamos que esse esquema contém, além do mais, a explicação da escravização hereditária.
 Mas deixemos por um momento este assunto e suponhamos que nos tenha convencido a axiomática
do Sr. Dühring e que estejamos verdadeiramente entusiasmados com a absoluta equiparação das duas
vontades, com a "soberania humana geral", com a "soberania do indivíduo", verdadeiras expressões'
maravilhosas ao lado das quais o "Único", de Max Stirner, com todas as suas propriedades, fica
obscurecido, embora também a ele seja devida uma parte modesta da criação. Admitamos pois que
somos todos absolutamente iguais e independentes. Todos? Não, todos não. Existem, também, umas
"dependências legitimas", mas estas não se originam de "razões baseadas no exercício das duas vontades,
como tais, mas num terceiro fator, como acontece, por exemplo, com as crianças; nestas, este terceiro
fator provém da insuficiência de sua própria determinação".
 Magnífico! Desse modo, não se deve buscar as razões a que se deve a dependência no exercício de
ambas as vontades como tais. Como se há de buscar aí a razão quando justamente a dependência consiste
em entorpecer o exercício de uma das vontades? Essa razão, deve ser encontrada, como nos diz o Sr.
Dühring, "num terceiro fator". Esse terceiro fator é a insuficiente capacidade de determinação concreta
da vontade quando sujeita à coerção. O nosso filósofo da realidade tanto dela se distanciou que, como
vemos, comparado com expressões abstratas e vazias como a da vontade, o conteúdo real de
determinação, própria dessa vontade, se lhe assemelha a um "terceiro fator". Mas, seja o que for, o caso é
que a equiparação das duas vontades tem exceções, pois uma vontade não se ajusta à outra, a própria
determinação de uma delas é reconhecida como insuficiente. Limitamo-nos a consignar: reteirada
número um!
 Prossigamos. "Ali, onde homem e animal formam uma só pessoa, pode-se perguntar, em nome de
uma segunda pessoa completamente humana, se a sua conduta pode, neste caso, ser a mesma que teria

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (56 of 155) [05/04/2001 17:55:02]

sido frente a pessoas exclusivamente humanas, digamos assim... Começamos por supor duas pessoas
moralmente desiguais, uma das quais tem, de certo modo, um pouco do caráter das bestas, e, dessa
forma, criamos um esquema fundamental ap1icável a todas as relações que podem, de acordo com essa
diferença, ser encontrados... entre os grupos humanos e dentro deles." E o leitor, se quiser, que procure
entender o atormentado libelo que o Sr. Dühring apresenta ao enveredar por esta última saída, na qual dá
voltas e mais voltas, deslizando por sendas tortuosas, como um jesuíta, para acabar sentenciando,
judiciosamente, até que ponto pode o homem humano proceder contra o homem bestial; até que ponto
lhe é licito empregar contra este último a manobra, a astúcia guerreira e mesmo os recursos da violência,
do terror, da mistificação, sem faltar em nada aos postulados da moral imutável.
 Assim, a igualdade também termina ali onde duas pessoas são "moralmente desiguais". Então, para
que esse esforço todo no sentido de reunir dois seres humanos absolutamente idênticos, se sabemos que
não existem duas pessoas que sejam moralmente iguais? Pois é o Sr. Dühring quem nos diz que a
desigualdade consiste em que uma delas é pessoa humana, enquanto que a outra tem dentro de si uma
qualquer coisa de besta. Entretanto, a própria procedência animal do homem já nos indica que ele não
pode nunca se desprender totalmente da condição de besta, e que, além disso, o problema da distinção
entre a bestialidade e a humanidade é puramente quantitativo, referindo-se apenas a uma diferença de
grau. A classificação dos homens em dois bandos nitidamente distintos e separados, o dos humanos e os
dos bestiais, os bons e os maus, os cordeiros e os lobos, somente pode ser admitida pela filosofia da
realidade e pelo cristianismo, com a diferença de que este é mais conseqüente, pois cria um juiz
universal, que tem a seu cargo a tarefa da classificação de cada indivíduo num dos dois grupos. Mas, na
filosofia da realidade, quem há de ser o juiz universal? Sucederá com ela o que costuma acontecer, na
prática, entre os cristãos, em que os piedosos cordeirinhos se encarregam da função, com grande êxito,
como sabemos, de juiz universal de seus próximos, os lobos deste mundo. A seita dos filósofos da
realidade, caso fosse fundada algum dia, não poderia ser pior, com relação a esse assunto. Mas isto pouco
nos importa; o que nos interessa é tomar nota da concessão que acaba de nos fazer o Senhor Dühring de
que a desigualdade moral entre os homens acaba por anular a igualdade. Retirada número dois.
 Continuemos a leitura. "Se uma pessoa age, respeitando a ciência e a verdade, enquanto que outra se
deixa levar por preconceitos... necessariamente, haverá entre elas algumas perturbações... Quando
atingirem um certo grau a brutalidade ou as tendências malignas do caráter, produzir-se-á forçosamente
um choque... Não são apenas as crianças e os loucos que conhecem outras armas além da força. A
sucessão dos grupos naturais e das classes culturais pode tornar uma necessidade inadiável a submissão
de cada vontade desviada e hostil, até submetê-la aos vínculos coletivos. Ao fazer tal coisa, respeita-se
como igualmente legitima a vontade alheia; o que se dá é que o seu exercício, coletivo quando hostil e
prejudicial, provoca uma compensação e, se lhe faltam forças, não faz mais que suportar os efeitos
reflexos, provocados pela sua própria injustiça".
 Como vemos, não é só a desigualdade moral, mas também a desigualdade espiritual que pode deitar
por terra a "completa identidade" das duas vontades, instaurando o reino de uma moral que justifica todas
as infâmias praticadas pelos Estados civilizados em sua cruzada de rapina contra os povos mais fracos,
até mesmo as repugnantes façanhas dos russos no Turquestão. Quando, no verão de 1873, o general
Kauffmann caiu, como um vendaval. sobre a tribo tártara dos jomudas, incendiou suas tendas,
massacrou.