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que até aqui estava destinada aos
habitantes dos outros mundos, dos quais, afortunadamente, já nos livramos. Existe algum problema de
economia, de política, etc... para resolver? Imediatamente se põem em campo os nossos dois homens e
resolvem a coisa "axiomaticamente", de um só golpe. É uma descoberta magnífica, original, e "capaz de
criar sistema', a desse nosso filósofo da realidade! É pena que o respeito à verdade nos obrigue a dizer
que a descoberta não é precisamente sua! Esses dois homens de encomenda são patrimônios de todo o
século XVIII. Já os conhecemos em 1754 no "Discurso sobre as desigualdades dos homens", de J. J.
Rousseau, onde - seja dito entre parênteses - se demonstra, também axiomaticamente, o contrário do que
o Sr. Dühring afirma. Tornamos a nos encontrar com eles, desempenhando um papel de relevo, na
economia política, desde Adam Smith até Ricardo, embora já não sejam, nesse assunto, completamente
iguais, pois que exercem ofícios diferentes - geralmente os de caçador e pescador - e trocam entre si os
seus produtos. Mas o século XVIII se utiliza, de um modo quase exclusivo, desses personagens, a titulo
de ilustração e exemplo; a originalidade do Sr. Dühring consiste em tornar esse método puramente
ilustrativo como método fundamental aplicável a toda a ciência da sociedade e como critério para o
estudo de todas as manifestações históricas. Realmente, a "concepção estritamente científica sobre coisas
e homens" não poderia ser mais fácil.
 Mas, para extrair logo depois axioma fundamental, segundo o qual esses dois homens e suas
respectivas vontades são totalmente idênticos entre si, sem que nenhum dos dois tenha nada a exigir do
outro, não é suficiente que sejam dois homens quaisquer. Deverão ser dois ares humanos tão fora de toda
a realidade, tão despidos de todas as condições nacionais, econômicas, políticas, religiosas, existentes em
nosso mundo, que, de todas as características e peculiaridades de pessoa e de sexo, neles só deve restar o
mero conceito de homem, de ser humano. Somente assim, poderão ser "completamente idênticos". Como
se vê, não estamos precisamente diante de dois homens, mas de dois perfeitos fantasmas, evocados por
este mesmo Sr. Dühring. que vive a descobrir e a denunciar, por toda a parte, as reações "espiritistas".
Anti-Dürhring
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Esses dois espectros são naturalmente condenados a fazer tudo o que homem que os evocou deles exija; e
por isso são absolutamente indiferentes às outras coisas do mundo para as suas manipulações artificiais.
 Penetremos, um pouco, na axiomática do Sr. Dühring. Dizíamos que aquelas duas vontades nada
podiam exigir de positivo, uma da outra. Se uma delas falta a esse dever e apresenta uma exigência,
chegando mesmo a impô-la pela força, cria-se, então, um estado injusto e, deste esquema fundamental,
faz o Sr. Dühring derivar a injustiça, a dominação, a escravidão, numa palavra, toda a condenável
história desde a antigüidade até os nossos dias. Entretanto, já Rousseau, no estudo que citamos atrás,
valendo-se exatamente de nossos dois homens, provou, de modo axiomático, justamente o contrário, ou
seja, que entre os dois homens, "A" não pode escravizar "B" pela violência, a não ser colocando-o numa
tal situação que "B" não possa prescindir de "A". Esta concepção peca, no entender do Sr. Dühring, por
ser excessivamente materialista. Focalizemos, pois, essa mesma coisa, de outro modo. Suponhamos que
dois náufragos, sozinhos numa ilha, contratam uma sociedade. Suas vontades, são formalmente idênticas,
e ambos assim o consideram, Mas entre os dois sócios existem grandes diferenças materiais. "A" é um
homem resoluto e enérgico; "B" ,é indeciso, indolente, preguiçoso; "A" é inteligente, "B" é retardado. É
natural que, cedo ou tarde, "A" acabe de impor a sua vontade a "B", primeiramente pela persuasão e, a
seguir, pouco a pouco, por força do hábito, mas sempre de um modo livre e espontâneo. Significa a
mesma coisa que sejam respeitadas ou desprezadas as formas voluntárias: voluntária ou não, a servidão é
servidão. A aceitação voluntária da servidão é encontrada em toda a Idade Média e, na Alemanha, chega
mesmo até a Guerra dos 30 Anos. Quando, na Prússia, depois das derrotas de 1806 e 1807, foi abolida a
servidão e com ela a obrigação imposta ao nobre feudal de zelar pelos seus súditos, em casos de miséria,
enfermidade ou velhice, dirigiram-se os camponeses ao rei para suplicar que os deixasse continuar como
servos, pois, de outro modo, quem iria cuidar deles e ampará-los na miséria? O esquema dos dois homens
encerra, pois, os germes de desigualdade e servidão, tanto quanto os de igualdade e cooperação. E como,
além disso, devemos, a não ser que os condenemos a perecer, concebê-los como cabeças de família,
verificamos que esse esquema contém, além do mais, a explicação da escravização hereditária.
 Mas deixemos por um momento este assunto e suponhamos que nos tenha convencido a axiomática
do Sr. Dühring e que estejamos verdadeiramente entusiasmados com a absoluta equiparação das duas
vontades, com a "soberania humana geral", com a "soberania do indivíduo", verdadeiras expressões'
maravilhosas ao lado das quais o "Único", de Max Stirner, com todas as suas propriedades, fica
obscurecido, embora também a ele seja devida uma parte modesta da criação. Admitamos pois que
somos todos absolutamente iguais e independentes. Todos? Não, todos não. Existem, também, umas
"dependências legitimas", mas estas não se originam de "razões baseadas no exercício das duas vontades,
como tais, mas num terceiro fator, como acontece, por exemplo, com as crianças; nestas, este terceiro
fator provém da insuficiência de sua própria determinação".
 Magnífico! Desse modo, não se deve buscar as razões a que se deve a dependência no exercício de
ambas as vontades como tais. Como se há de buscar aí a razão quando justamente a dependência consiste
em entorpecer o exercício de uma das vontades? Essa razão, deve ser encontrada, como nos diz o Sr.
Dühring, "num terceiro fator". Esse terceiro fator é a insuficiente capacidade de determinação concreta
da vontade quando sujeita à coerção. O nosso filósofo da realidade tanto dela se distanciou que, como
vemos, comparado com expressões abstratas e vazias como a da vontade, o conteúdo real de
determinação, própria dessa vontade, se lhe assemelha a um "terceiro fator". Mas, seja o que for, o caso é
que a equiparação das duas vontades tem exceções, pois uma vontade não se ajusta à outra, a própria
determinação de uma delas é reconhecida como insuficiente. Limitamo-nos a consignar: reteirada
número um!
 Prossigamos. "Ali, onde homem e animal formam uma só pessoa, pode-se perguntar, em nome de
uma segunda pessoa completamente humana, se a sua conduta pode, neste caso, ser a mesma que teria
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sido frente a pessoas exclusivamente humanas, digamos assim... Começamos por supor duas pessoas
moralmente desiguais, uma das quais tem, de certo modo, um pouco do caráter das bestas, e, dessa
forma, criamos um esquema fundamental ap1icável a todas as relações que podem, de acordo com essa
diferença, ser encontrados... entre os grupos humanos e dentro deles." E o leitor, se quiser, que procure
entender o atormentado libelo que o Sr. Dühring apresenta ao enveredar por esta última saída, na qual dá
voltas e mais voltas, deslizando por sendas tortuosas, como um jesuíta, para acabar sentenciando,
judiciosamente, até que ponto pode o homem humano proceder contra o homem bestial; até que ponto
lhe é licito empregar contra este último a manobra, a astúcia guerreira e mesmo os recursos da violência,
do terror, da mistificação, sem faltar em nada aos postulados da moral imutável.
 Assim, a igualdade também termina ali onde duas pessoas são "moralmente desiguais". Então,