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"à boa maneira caucasiana", como rezava a ordem, as mulheres e as crianças, invocava ele
também a necessidade inevitável de submeter a vontade "desviada e hostil" daqueles selvagens, para
reduzi-los aos "vínculos coletivos", afirmando que os meios postos em prática por ele eram os mais
eficazes para conseguir tal coisa; e já se sabe, além do mais, que os fins justificam os meios, O que
verificamos é que o general conquistador era um pouco menos cruel, pois não lhe ocorria, além de tudo,
rir-se dos jomudas, enganando-os com a fábula de que, ao exterminá-los, como "compensação", não fazia

Anti-Dürhring

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mais que render homenagem à sua própria vontade, acatando-a como "igualmente legitima". Neste
conflito, os eleitos são ainda, em última instância, os filósofos da realidade, que dizem agir de
conformidade com a verdade e a ciência, e que portanto são chamados a definir o que quer dizer a
superstição, o preconceito, a brutalidade, o que são as tendências malignas do caráter e quando é que
devem ser indicadas a dominação e a força como meios de compensação. A igualdade fica reduzida,
pois, ainda uma vez, à nivelação pela força e a segunda vontade deve ser equiparada à primeira por meio
de um ato de submissão, Retirada número três, que, mais que retirada, é já uma fuga vergonhosa.
 Acrescentaremos, entre parênteses, que a frase segundo a qual a vontade alheia é sancionada como
"igualmente legítima", justamente por meio da nivelação pela força, não é mais que uma deturpação da
teoria de Hegel, de acordo com o qual o criminoso tem direito à pena: "No fato de ver implícito na pena
um direito próprio do criminoso é que se reconhece e se honra a este como um ser racional". (Filosofia
do Direito, § 100, nota).
 Acreditamos que isso é suficiente, Não é preciso seguir passo a passo o Sr. Dühring para a destruição
gradual de seu principio de igualdade, tão axiomaticamente proclamado, de sua soberania humana geral,
etc. etc.; é inútil continuarmos a observar que, embora se necessitem apenas de dois homens para
construir a sociedade, é preciso, para edificar o Estado, mais um terceiro, sem o qual - para resumir de
um modo conciso - não se poderia resolver nenhum problema pelo sistema da maioria e, sem esta, isto é,
sem o domínio da maioria sobre a minoria, não é possível conceber-se o Estado. Não precisamos ver
como, pouco a pouco, vai o Sr. Dühring navegando para as águas tranqüilas da construção de seu Estado
socialitário do futuro, no qual teremos oportunidade, numa manhã de bom tempo, de fazer-lhe uma
visita. Basta-nos o que foi dito atrás para compreender que a completa igualdade entre as duas vontades
fica liquidada desde o momento e no ponto exato em que qualquer uma delas chegue a desejar alguma
coisa. Compreendemos, desse modo, que, desde o momento em que deixam de ser vontades humanas
como tais e passam a ser vontades reais, individuais, acabou-se a igualdade das vontades de dois homens
reais e concretos. Compreendemos que a infância, a loucura, o que ele chama de bestialidade, a suposta
superstição, os preconceitos denunciados, a presumida incapacidade de um lado e o prurido de
humanidade de outro, o domínio da verdade e das ciências, ou seja, que a mínima diferença do ponto de
vista qualitativo entre as duas vontades, ou no tocante à inteligência que as orienta, justificam ume
desigualdade que pode chegar até a submissão. Para que continuar, quando já o próprio Sr. Dühring
pulveriza tão radicalmente, em seus próprios fundamentos, o seu edifício da igualdade?
 Mas o fato de termos liquidado a absurda e tola construção que o Sr. Dühring cria sobre a idéia da
igualdade, não quer dizer que tenhamos liquidado a própria idéia, que ocupa um lugar tão importante na
teoria, principalmente a partir de Rousseau, e que exerceu tanta influência na política prática da Grande
Revolução, e nos períodos que a seguiram e que, pela sua ação agitadora, influencia ainda hoje o
movimento socialista de quase todos os países. Analisando o seu conteúdo científico, tentaremos pôr em
evidência o valor que tem esta idéia para o movimento proletário.
 A crença de que todos os homens, pelo simples fato de sê-lo, têm alguma coisa de comum que os
torna iguais, na proporção em que exista esse ponto comum, é naturalmente antiquíssima. Mas o
postulado moderno da igualdade difere radicalmente desta idéia e, pelo contrário, faz ressaltar da própria
natureza, comum a todos os homens, dessa igualdade dos homens como tais, o princípio da equiparação
política e social de todos os seres humanos, ou, pelo menos, de todos os cidadãos de um Estado, ou de
todos os indivíduos de uma mesma sociedade. Foi preciso que muitos milhares de anos passassem e, de
fato, passaram, antes que aquela idéia primitiva da igualdade relativa inspirasse, como um corolário, a
idéia da igualdade dentro da sociedade e do Estado e muito mais tempo seria preciso até que esta
dedução se impusesse como algo evidente e natural. Nas velhas comunidades naturais, somente se podia
falar de igualdade, de fato, entre os membros da mesma coletividade; as mulheres, os escravos, os

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estrangeiros, ficavam excluídos, naturalmente, desta comunidade, e essa exclusão era considerada como
perfeitamente natural. Na Grécia e em Roma, as desigualdades entre os homens tinham muito mais força
que qualquer forma de igualdade. E se ocorresse a alguém dizer, então, que os gregos e os bárbaros, os
livres e os escravos, os cidadãos do Estado e os estrangeiros acolhidos sob a sua proteção, os cidadãos
romanos e os súditos de Roma (para empregar um termo geral) eram merecedores de um mesmo
tratamento político, deveria essa pessoa passar por louca aos olhos dos antigos; no Império Romano,
estas desigualdades foram desaparecendo pouco a pouco, com exceção apenas da que separava os
escravos dos homens livres, surgindo então entre estes últimos aquele sistema de igualdade baseado no
qual se desenvolveu o Direito Romano, a mais perfeita expressão que se conhece de um Direito
cimentado sobre a instituição da propriedade privada. Mas, embora subsistisse a distinção entre os
homens livres e os escravos, não havia razão para se falar dos corolários jurídicos derivados da igualdade
de todos os homens; até há pouco tempo, podia-se ainda observar este fenômeno nos Estados
escravagistas da América do Norte.
 O cristianismo reconhecia apenas uma igualdade entre os homens: a do pecado original, igualdade
essa que se enquadrava perfeitamente no seu caráter de religião dos escravos e dos oprimidos. Ao lado
desta, admitia no máximo a igualdade dos eleitos, mas não insistia a respeito desta, a não ser muito nos
primórdios da religião. Os vestígios da comunidade dos bens, com que defrontamos igualmente, nos
primeiros tempos da nova religião, tinham a sua origem mais na solidariedade entre os perseguidos do
que numa verdadeira idéia de igualdade. Ademais, a distinção entre os sacerdotes e os leigos veio logo
pôr um fim a este rudimento de igualdade cristã. A invasão do ocidente da Europa pelos germanos varreu
por vários séculos toda idéia de igualdade, levantando, pouco a pouco, uma hierarquia social e política
tão complicada como até então não se conhecera; entretanto, ao mesmo tempo, a invasão germânica
arrastava consigo, para o mesmo movimento histórico. todos os países do ocidente e do centro da
Europa, criando, pela primeira vez, uma área compacta de cultura e sobre esta área erigindo também pela
primeira vez na história, um sistema de Estados predominantemente nacionais, que se influenciavam e se
contrapunham uns aos outros. Foi desse modo que se preparou o terreno para, tempos mais tarde, ser
possível falar-se da igualdade humana e dos direitos do homem.
 Além disso, no bojo da Idade Média feudal, entrou em gestação a classe chamada a proclamar quando
atingisse a idade madura, o postulado da igualdade humana moderna: