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para
que esse esforço todo no sentido de reunir dois seres humanos absolutamente idênticos, se sabemos que
não existem duas pessoas que sejam moralmente iguais? Pois é o Sr. Dühring quem nos diz que a
desigualdade consiste em que uma delas é pessoa humana, enquanto que a outra tem dentro de si uma
qualquer coisa de besta. Entretanto, a própria procedência animal do homem já nos indica que ele não
pode nunca se desprender totalmente da condição de besta, e que, além disso, o problema da distinção
entre a bestialidade e a humanidade é puramente quantitativo, referindo-se apenas a uma diferença de
grau. A classificação dos homens em dois bandos nitidamente distintos e separados, o dos humanos e os
dos bestiais, os bons e os maus, os cordeiros e os lobos, somente pode ser admitida pela filosofia da
realidade e pelo cristianismo, com a diferença de que este é mais conseqüente, pois cria um juiz
universal, que tem a seu cargo a tarefa da classificação de cada indivíduo num dos dois grupos. Mas, na
filosofia da realidade, quem há de ser o juiz universal? Sucederá com ela o que costuma acontecer, na
prática, entre os cristãos, em que os piedosos cordeirinhos se encarregam da função, com grande êxito,
como sabemos, de juiz universal de seus próximos, os lobos deste mundo. A seita dos filósofos da
realidade, caso fosse fundada algum dia, não poderia ser pior, com relação a esse assunto. Mas isto pouco
nos importa; o que nos interessa é tomar nota da concessão que acaba de nos fazer o Senhor Dühring de
que a desigualdade moral entre os homens acaba por anular a igualdade. Retirada número dois.
 Continuemos a leitura. "Se uma pessoa age, respeitando a ciência e a verdade, enquanto que outra se
deixa levar por preconceitos... necessariamente, haverá entre elas algumas perturbações... Quando
atingirem um certo grau a brutalidade ou as tendências malignas do caráter, produzir-se-á forçosamente
um choque... Não são apenas as crianças e os loucos que conhecem outras armas além da força. A
sucessão dos grupos naturais e das classes culturais pode tornar uma necessidade inadiável a submissão
de cada vontade desviada e hostil, até submetê-la aos vínculos coletivos. Ao fazer tal coisa, respeita-se
como igualmente legitima a vontade alheia; o que se dá é que o seu exercício, coletivo quando hostil e
prejudicial, provoca uma compensação e, se lhe faltam forças, não faz mais que suportar os efeitos
reflexos, provocados pela sua própria injustiça".
 Como vemos, não é só a desigualdade moral, mas também a desigualdade espiritual que pode deitar
por terra a "completa identidade" das duas vontades, instaurando o reino de uma moral que justifica todas
as infâmias praticadas pelos Estados civilizados em sua cruzada de rapina contra os povos mais fracos,
até mesmo as repugnantes façanhas dos russos no Turquestão. Quando, no verão de 1873, o general
Kauffmann caiu, como um vendaval. sobre a tribo tártara dos jomudas, incendiou suas tendas,
massacrou. "à boa maneira caucasiana", como rezava a ordem, as mulheres e as crianças, invocava ele
também a necessidade inevitável de submeter a vontade "desviada e hostil" daqueles selvagens, para
reduzi-los aos "vínculos coletivos", afirmando que os meios postos em prática por ele eram os mais
eficazes para conseguir tal coisa; e já se sabe, além do mais, que os fins justificam os meios, O que
verificamos é que o general conquistador era um pouco menos cruel, pois não lhe ocorria, além de tudo,
rir-se dos jomudas, enganando-os com a fábula de que, ao exterminá-los, como "compensação", não fazia
Anti-Dürhring
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mais que render homenagem à sua própria vontade, acatando-a como "igualmente legitima". Neste
conflito, os eleitos são ainda, em última instância, os filósofos da realidade, que dizem agir de
conformidade com a verdade e a ciência, e que portanto são chamados a definir o que quer dizer a
superstição, o preconceito, a brutalidade, o que são as tendências malignas do caráter e quando é que
devem ser indicadas a dominação e a força como meios de compensação. A igualdade fica reduzida,
pois, ainda uma vez, à nivelação pela força e a segunda vontade deve ser equiparada à primeira por meio
de um ato de submissão, Retirada número três, que, mais que retirada, é já uma fuga vergonhosa.
 Acrescentaremos, entre parênteses, que a frase segundo a qual a vontade alheia é sancionada como
"igualmente legítima", justamente por meio da nivelação pela força, não é mais que uma deturpação da
teoria de Hegel, de acordo com o qual o criminoso tem direito à pena: "No fato de ver implícito na pena
um direito próprio do criminoso é que se reconhece e se honra a este como um ser racional". (Filosofia
do Direito, § 100, nota).
 Acreditamos que isso é suficiente, Não é preciso seguir passo a passo o Sr. Dühring para a destruição
gradual de seu principio de igualdade, tão axiomaticamente proclamado, de sua soberania humana geral,
etc. etc.; é inútil continuarmos a observar que, embora se necessitem apenas de dois homens para
construir a sociedade, é preciso, para edificar o Estado, mais um terceiro, sem o qual - para resumir de
um modo conciso - não se poderia resolver nenhum problema pelo sistema da maioria e, sem esta, isto é,
sem o domínio da maioria sobre a minoria, não é possível conceber-se o Estado. Não precisamos ver
como, pouco a pouco, vai o Sr. Dühring navegando para as águas tranqüilas da construção de seu Estado
socialitário do futuro, no qual teremos oportunidade, numa manhã de bom tempo, de fazer-lhe uma
visita. Basta-nos o que foi dito atrás para compreender que a completa igualdade entre as duas vontades
fica liquidada desde o momento e no ponto exato em que qualquer uma delas chegue a desejar alguma
coisa. Compreendemos, desse modo, que, desde o momento em que deixam de ser vontades humanas
como tais e passam a ser vontades reais, individuais, acabou-se a igualdade das vontades de dois homens
reais e concretos. Compreendemos que a infância, a loucura, o que ele chama de bestialidade, a suposta
superstição, os preconceitos denunciados, a presumida incapacidade de um lado e o prurido de
humanidade de outro, o domínio da verdade e das ciências, ou seja, que a mínima diferença do ponto de
vista qualitativo entre as duas vontades, ou no tocante à inteligência que as orienta, justificam ume
desigualdade que pode chegar até a submissão. Para que continuar, quando já o próprio Sr. Dühring
pulveriza tão radicalmente, em seus próprios fundamentos, o seu edifício da igualdade?
 Mas o fato de termos liquidado a absurda e tola construção que o Sr. Dühring cria sobre a idéia da
igualdade, não quer dizer que tenhamos liquidado a própria idéia, que ocupa um lugar tão importante na
teoria, principalmente a partir de Rousseau, e que exerceu tanta influência na política prática da Grande
Revolução, e nos períodos que a seguiram e que, pela sua ação agitadora, influencia ainda hoje o
movimento socialista de quase todos os países. Analisando o seu conteúdo científico, tentaremos pôr em
evidência o valor que tem esta idéia para o movimento proletário.
 A crença de que todos os homens, pelo simples fato de sê-lo, têm alguma coisa de comum que os
torna iguais, na proporção em que exista esse ponto comum, é naturalmente antiquíssima. Mas o
postulado moderno da igualdade difere radicalmente desta idéia e, pelo contrário, faz ressaltar da própria
natureza, comum a todos os homens, dessa igualdade dos homens como tais, o princípio da equiparação
política e social de todos os seres humanos, ou, pelo menos, de todos os cidadãos de um Estado, ou de
todos os indivíduos de uma mesma sociedade. Foi preciso que muitos milhares de anos passassem e, de
fato, passaram, antes que aquela idéia primitiva da igualdade relativa inspirasse, como um corolário, a
idéia da igualdade dentro da sociedade e do Estado e muito mais tempo seria preciso até