antiduring
155 pág.

antiduring

Disciplina:Filosofia e Ética2.301 materiais68.267 seguidores
Pré-visualização50 páginas
que esta
dedução se impusesse como algo evidente e natural. Nas velhas comunidades naturais, somente se podia
falar de igualdade, de fato, entre os membros da mesma coletividade; as mulheres, os escravos, os

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (58 of 155) [05/04/2001 17:55:02]

estrangeiros, ficavam excluídos, naturalmente, desta comunidade, e essa exclusão era considerada como
perfeitamente natural. Na Grécia e em Roma, as desigualdades entre os homens tinham muito mais força
que qualquer forma de igualdade. E se ocorresse a alguém dizer, então, que os gregos e os bárbaros, os
livres e os escravos, os cidadãos do Estado e os estrangeiros acolhidos sob a sua proteção, os cidadãos
romanos e os súditos de Roma (para empregar um termo geral) eram merecedores de um mesmo
tratamento político, deveria essa pessoa passar por louca aos olhos dos antigos; no Império Romano,
estas desigualdades foram desaparecendo pouco a pouco, com exceção apenas da que separava os
escravos dos homens livres, surgindo então entre estes últimos aquele sistema de igualdade baseado no
qual se desenvolveu o Direito Romano, a mais perfeita expressão que se conhece de um Direito
cimentado sobre a instituição da propriedade privada. Mas, embora subsistisse a distinção entre os
homens livres e os escravos, não havia razão para se falar dos corolários jurídicos derivados da igualdade
de todos os homens; até há pouco tempo, podia-se ainda observar este fenômeno nos Estados
escravagistas da América do Norte.
 O cristianismo reconhecia apenas uma igualdade entre os homens: a do pecado original, igualdade
essa que se enquadrava perfeitamente no seu caráter de religião dos escravos e dos oprimidos. Ao lado
desta, admitia no máximo a igualdade dos eleitos, mas não insistia a respeito desta, a não ser muito nos
primórdios da religião. Os vestígios da comunidade dos bens, com que defrontamos igualmente, nos
primeiros tempos da nova religião, tinham a sua origem mais na solidariedade entre os perseguidos do
que numa verdadeira idéia de igualdade. Ademais, a distinção entre os sacerdotes e os leigos veio logo
pôr um fim a este rudimento de igualdade cristã. A invasão do ocidente da Europa pelos germanos varreu
por vários séculos toda idéia de igualdade, levantando, pouco a pouco, uma hierarquia social e política
tão complicada como até então não se conhecera; entretanto, ao mesmo tempo, a invasão germânica
arrastava consigo, para o mesmo movimento histórico. todos os países do ocidente e do centro da
Europa, criando, pela primeira vez, uma área compacta de cultura e sobre esta área erigindo também pela
primeira vez na história, um sistema de Estados predominantemente nacionais, que se influenciavam e se
contrapunham uns aos outros. Foi desse modo que se preparou o terreno para, tempos mais tarde, ser
possível falar-se da igualdade humana e dos direitos do homem.
 Além disso, no bojo da Idade Média feudal, entrou em gestação a classe chamada a proclamar quando
atingisse a idade madura, o postulado da igualdade humana moderna: a burguesia. A burguesia, que
também em seus começos era apenas uma camada feudal imprimiu um grau relativamente elevado de
desenvolvimento à indústria artesanal e à troca de produtos dentro da sociedade feudal por ocasião de
abertura de novas rotas marítimas, como resultado das grandes descobertas dos fins do século XV. O
comércio extra europeu, que até então se realizava somente entre a Itália e os portos do Levante, torna-se
extensivo agora à América e à Índia e logo ultrapassa em importância o intercâmbio entre muitos países
europeus e mesmo o comércio interior destes países. O ouro e a prata da América inundaram a Europa e
penetraram. como um ácido corrosivo, em todos os poros. fendas e vácuos da sociedade feudal. Não
bastava já a produção artesanal para cobrir as crescentes necessidades; a manufatura tomou posições nos
ramos da produção mais importantes dos países mais adiantados.
 Entretanto, este gigantesco crescimento das condições econômicas de vida da sociedade não foi
seguido de perto pela mudança correspondente da organização política. O regime estatal continuava
sendo feudal, embora a sociedade se fosse tornando cada dia mais burguesa. O comércio em grande
escala e principalmente o comércio internacional e mais ainda o comércio mundial requerem livres
proprietários de mercadorias, desembaraçados em seus movimentos, capazes todos de realizar transações,
dispondo de um direito igual para todos, pelo menos dentro de cada localidade. A passagem do
artesanato para a manufatura pressupõe a existência de um certo número de operários livres - livres, de
um lado. dos entraves gremiais e, de outro, donos dos meios de explorarem, por si próprios, a sua força

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (59 of 155) [05/04/2001 17:55:02]

de trabalho - capazes de estabelecer contrato com o fabricante, vendendo-lhe a sua força de trabalho, e
que, portanto, sejam capazes de contratar de igual para igual. Finalmente, a igualdade e a igual
valorização de todos os trabalhos humanos, na qualidade de manifestações do trabalho da homem,
encontrou a sua mais forte expressão. embora inconsciente, na lei do valor da economia burguesa
moderna, segundo a qual o valor de uma mercadoria se mede pelo trabalho socialmente necessário
contido nela.(5) Mas ali onde as condições econômicas clamavam por igualdade de direitos e por
liberdade, a ordem política lhes opunha, a cada passo, os entraves feudais e os privilégios de classe. Por
todas as partes se erguiam privilégios locais, barreiras alfandegárias para cada produto, leis de exceção
de todo o gênero, prejudicando o comércio não só dos estrangeiros e dos habitantes das colônias, mas até,
muitas vezes, de categorias inteiras dos próprios súditos do país; por todas as partes, inúmeros privilégios
gremiais barravam-lhes o caminho e se antepunham ao desenvolvimento da manufatura. Os
competidores burgueses não encontravam liberdade e igualdade de condições em nenhuma parte, e,
entretanto, essa sua reivindicação era essencial e cada vez mais premente.
 A emancipação dos entraves feudais e a implantação da igualdade jurídica, pela abolição das
desigualdades do feudalismo, eram um postulado colocado na ordem do dia pelo progresso econômico da
sociedade, e que depressa alcançaria grandes proporções. Embora proclamado este postulado da
igualdade de direitos no interesse da indústria e do comércio, não havia mais remédio senão torná-lo
extensivo também à grande massa de camponeses que, submetida a todas as nuanças de vassalagem, que
chegava até a servidão completa, passava a maior parte de seu tempo trabalhando gratuitamente nos
campos do nobre senhor feudal, além de ter de pagar a ele e ao Estado uma infinidade de tributos. Postos
neste caminho, não havia outro remédio para os burgueses senão exigir também a abolição dos
privilégios feudais, da isenção de impostos para a nobreza, dos direitos políticos singulares de cada
categoria social feudal. E como a sociedade não vivia mais num império mundial como o romano, mas
sim dividida numa rede de Estados independentes, que mantinham entre si relações de igualdade e
tinham chegado a um grau quase burguês de desenvolvimento, era natural que aquelas tendências
adquirissem um caráter geral, ultrapassando as fronteiras dos Estados e era natural, portanto, que a
liberdade e a igualdade fossem proclamadas direitos humanos. Para compreender o caráter
especificamente burguês de tais direitos humanos, nada mais eloqüente que a Constituição
norte-americana, a primeira em que são definidos os direitos do homem, na qual, ao mesmo tempo, se
sanciona a escravidão dos negros, então vigente nos Estados Unidos, e se proscrevem os privilégios de
classe, enquanto que os privilégios de raça são santificados.
 Sabe-se, por outro lado, que a burguesia, desde o instante em que sai do embrião da burguesia feudal,
instante