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em que, de camada feudal se converte em classe moderna, se vê ladeada, sempre e em todas as
partes, inseparavelmente, como por sua própria sombra, pelo proletariado. E ao movimento da igualdade
burguesa acompanha, também, como a sombra ao corpo, o movimento da igualdade proletária. Desde o
instante em que se proclama o postulado burguês da abolição dos privilégios de classe, ergue-se o
postulado proletário da abolição das próprias classes postulado esse que adota primeiro a forma religiosa,
baseada no cristianismo primitivo, e que, mais tarde, se apoia nas próprias teorias burguesas da
igualdade. Os proletários colhem a burguesia pela palavra: é preciso que a igualdade exista não só na
aparência, que não se circunscreva apenas à órbita do Estado, mas que tome corpo e realidade,
fazendo-se extensiva à vida social e econômica. E, desde que a burguesia francesa, sobretudo depois da
Grande Revolução, passou a considerar em primeira plano a igualdade burguesa, o proletariado francês
coloca, passo a passo, as suas próprias reivindicações, levantando o postulado da igualdade social e
econômica, e, a partir dessa época, a igualdade se converte no grito de guerra do proletariado, e, muito
especialmente, do proletariado francês.
Anti-Dürhring
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 O postulado da igualdade tem, pois, na boca do proletariado, uma dupla acepção. As vezes - como
sucedeu sobretudo nos primeiros tempos, na guerra dos camponeses, por exemplo, - este postulado
significa a reação natural contra as desigualdades sociais clamorosas, contra o contraste entre ricos e
pobres, Senhores e servos, famintos e glutões. Este postulado da igualdade não é mais que uma explosão
do instinto revolucionário e somente isso é que o justifica. Outras vezes, no entanto, nasce esse postulado
como reação contra o postulado de igualdade da burguesia e tira dele muitas conseqüências avançadas,
mais ou menos exatas, sendo utilizado como meio de agitação para levantar os operários contra os
capitalistas, usando para isso frases tomadas dos próprios capitalistas e, considerado desse aspecto, se
organiza e cai por terra esse postulado juntamente com essa mesma liberdade burguesa. Tanto num como
noutro caso, o verdadeiro conteúdo do postulado da igualdade proletária é a aspiração de alcançar a
abolição das classes. Qualquer outra aspiração de igualdade que transcenda a tais limites desborda,
necessariamente, para o absurdo. Demos já alguns exemplos a este respeito e poderemos encontrá-los em
abundância quando chegarmos às fantasias sobre o futuro, do Sr. Dühring.
 Como vemos, a idéia da igualdade, tanto na sua forma burguesa como na proletária, é, por si mesma,
um produto histórico que somente podia tomar corpo em virtude de determinadas condições históricas, as
quais, por sua vez, tinham por trás de si um grande passado. Está longe, pois, de ser uma verdade eterna.
E se alguma coisa é atualmente evidente para o grande público - num ou noutro sentido - se, como diz
Marx, - alguma coisa "possui já a completa estabilidade de um preconceito popular", não há de ser
devido à sua verdade axiomática, mas por ser resultado da difusão generalizada e da permanente
atualidade das idéias do século XVIII. Portanto, se o Sr. Dühring pode se dar ao luxo de colocar os seus
dois homens a viver num plano de igualdade, isso se dá. pura e simplesmente, porque para o povo,
devido a esse preconceito, parece essa igualdade ser a coisa mais natural do mundo. Não esqueçamos que
o Sr. Dühring chama de filosofia natural à sua filosofia, por ser proveniente de toda uma série de coisas
que parecem a ele naturalíssimas. Por que é que lhe parecem naturais é uma coisa que não merece a
preocupação do Sr. Dühring.
Capítulo XI - MORAL E DIREITO. LIBERDADE E NECESSIDADE.
 "No que se refere aos problemas políticos e jurídicos, os princípios proclamados neste Curso
repousam nos mais conscienciosos estudos especializados. Portanto, o ponto de partida será... a matéria
de que já tratamos... a exposição conseqüente dos resultados das ciências jurídicas e políticas. Comecei
por dedicar-me ao estudo da jurisprudência e não só consagrei a ela os três anos usuais da preparação
teórica universitária, como ainda mais três anos da prática judicial, ocupados por um constante estudo,
principalmente destinado a aprofundar o seu conteúdo científico... Também enfrentaria seguramente a
crítica das instituições de direito privado e suas correspondentes imperfeições jurídicas, com idêntico
domínio da matéria, se não estivesse certo de conhecer todos os pontos fracos desta especialidade, da
mesma forma que conhecia os seus pontos fortes."
 Um homem que possui títulos suficientes para falar de si mesmo em tais termos há de nos infundir,
forçosamente, uma confiança ilimitada, desde o primeiro momento, ainda mais se compararmos a sua
preparação com os "estudos jurídicos primários do Sr. Marx, tão descuidados, segundo ele mesmo
confessa". A única coisa que nos assombra é que uma crítica às instituições do direito privado, que se
ergue com tanta segurança, se reduza a explicar que "a cientificidade da jurisprudência... não é grande",
que o direito civil positivo é a injustiça, pois que sanciona a propriedade baseada na forma e que o
"fundamento natural" do direito penal é a vingança, afirmação que não prima pela novidade, a não ser
com a roupagem mística do "fundamento natural". Os resultados da ciência política ficam reduzidos às já
conhecidas negociações entre os três homens já conhecidos, um dos quais, até agora, vem exercendo a
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violência sobre os outros, dois, além do que, o Sr. Dühring investiga conscienciosamente se será o
segundo ou o terceiro que, em primeiro lugar, introduzirá a violência ou a escravidão.
 Mas, observemos de perto os conscienciosos estudos especializados e o profundo domínio da ciência,
adquirido por nosso jurista, durante os três anos de prática judiciária.
 Quanto a Lassalle, conta-nos o Sr. Dühring, foi acusado e processado "como instigador de tentativa de
roubo de uma maleta", "mas não foi possível uma condenação judicial, tendo-se aplicado a chamada
absolvição de instância, que ainda existia nesse tempo... essa meia absolvição".
 O processo Lassalle, a que se refere, foi julgado em Colônia, em 1848, onde estava em vigor, como
em quase toda a província renana, o direito penal francês. Só para os delitos e contravenções políticos era
aplicado, em caráter excepcional, o direito nacional prussiano, até que, em abril de 1848, Champhausen
aboliu também essa lei de exceção. O direito francês não admite, de modo algum. essa desnecessária
categoria do direito prussiano que se chama "instigação a um delito", nem tampouco, como daí se
depreende, a instigação a uma tentativa de delito. Reconhece apenas a excitação ao crime; e esta, para ser
condenável, deve ser realizada "por meio de presentes, promessas, ameaças, abuso de prestígio ou de
força, astúcia ou artifícios culposos." (Código Penal, artigo 60). O Ministério Público, mergulhado no
direito nacional prussiano, passou por alto, da mesma forma que o Sr. Dühring, sobre a diferença
essencial que distingue o preceito francês, concreto e preciso, da confusa imprecisão da norma prussiana,
e, desse modo, pretendeu envolver Lassalle num processo tendencioso, tendo saído fragorosamente
derrotado. Afirmar que o direito processual francês, assim como o prussiano, admite uma absolvição de
instância, uma "meia absolvição", exige uma audácia que só se pode permitir em quem desconhece
completamente o moderno direito francês. O direito francês admite apenas, com relação ao processo
penal, uma absolvição, ou uma condenação - não há meio termo.
 Podemos, pois, afirmar, que o Sr. Dühring não poderia aplicar a Lassalle, com o modo seguro com
que o faz, esta sua "historiografia