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axiomática, mas por ser resultado da difusão generalizada e da permanente
atualidade das idéias do século XVIII. Portanto, se o Sr. Dühring pode se dar ao luxo de colocar os seus
dois homens a viver num plano de igualdade, isso se dá. pura e simplesmente, porque para o povo,
devido a esse preconceito, parece essa igualdade ser a coisa mais natural do mundo. Não esqueçamos que
o Sr. Dühring chama de filosofia natural à sua filosofia, por ser proveniente de toda uma série de coisas
que parecem a ele naturalíssimas. Por que é que lhe parecem naturais é uma coisa que não merece a
preocupação do Sr. Dühring.

Capítulo XI - MORAL E DIREITO. LIBERDADE E NECESSIDADE.

 "No que se refere aos problemas políticos e jurídicos, os princípios proclamados neste Curso
repousam nos mais conscienciosos estudos especializados. Portanto, o ponto de partida será... a matéria
de que já tratamos... a exposição conseqüente dos resultados das ciências jurídicas e políticas. Comecei
por dedicar-me ao estudo da jurisprudência e não só consagrei a ela os três anos usuais da preparação
teórica universitária, como ainda mais três anos da prática judicial, ocupados por um constante estudo,
principalmente destinado a aprofundar o seu conteúdo científico... Também enfrentaria seguramente a
crítica das instituições de direito privado e suas correspondentes imperfeições jurídicas, com idêntico
domínio da matéria, se não estivesse certo de conhecer todos os pontos fracos desta especialidade, da
mesma forma que conhecia os seus pontos fortes."
 Um homem que possui títulos suficientes para falar de si mesmo em tais termos há de nos infundir,
forçosamente, uma confiança ilimitada, desde o primeiro momento, ainda mais se compararmos a sua
preparação com os "estudos jurídicos primários do Sr. Marx, tão descuidados, segundo ele mesmo
confessa". A única coisa que nos assombra é que uma crítica às instituições do direito privado, que se
ergue com tanta segurança, se reduza a explicar que "a cientificidade da jurisprudência... não é grande",
que o direito civil positivo é a injustiça, pois que sanciona a propriedade baseada na forma e que o
"fundamento natural" do direito penal é a vingança, afirmação que não prima pela novidade, a não ser
com a roupagem mística do "fundamento natural". Os resultados da ciência política ficam reduzidos às já
conhecidas negociações entre os três homens já conhecidos, um dos quais, até agora, vem exercendo a

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violência sobre os outros, dois, além do que, o Sr. Dühring investiga conscienciosamente se será o
segundo ou o terceiro que, em primeiro lugar, introduzirá a violência ou a escravidão.
 Mas, observemos de perto os conscienciosos estudos especializados e o profundo domínio da ciência,
adquirido por nosso jurista, durante os três anos de prática judiciária.
 Quanto a Lassalle, conta-nos o Sr. Dühring, foi acusado e processado "como instigador de tentativa de
roubo de uma maleta", "mas não foi possível uma condenação judicial, tendo-se aplicado a chamada
absolvição de instância, que ainda existia nesse tempo... essa meia absolvição".
 O processo Lassalle, a que se refere, foi julgado em Colônia, em 1848, onde estava em vigor, como
em quase toda a província renana, o direito penal francês. Só para os delitos e contravenções políticos era
aplicado, em caráter excepcional, o direito nacional prussiano, até que, em abril de 1848, Champhausen
aboliu também essa lei de exceção. O direito francês não admite, de modo algum. essa desnecessária
categoria do direito prussiano que se chama "instigação a um delito", nem tampouco, como daí se
depreende, a instigação a uma tentativa de delito. Reconhece apenas a excitação ao crime; e esta, para ser
condenável, deve ser realizada "por meio de presentes, promessas, ameaças, abuso de prestígio ou de
força, astúcia ou artifícios culposos." (Código Penal, artigo 60). O Ministério Público, mergulhado no
direito nacional prussiano, passou por alto, da mesma forma que o Sr. Dühring, sobre a diferença
essencial que distingue o preceito francês, concreto e preciso, da confusa imprecisão da norma prussiana,
e, desse modo, pretendeu envolver Lassalle num processo tendencioso, tendo saído fragorosamente
derrotado. Afirmar que o direito processual francês, assim como o prussiano, admite uma absolvição de
instância, uma "meia absolvição", exige uma audácia que só se pode permitir em quem desconhece
completamente o moderno direito francês. O direito francês admite apenas, com relação ao processo
penal, uma absolvição, ou uma condenação - não há meio termo.
 Podemos, pois, afirmar, que o Sr. Dühring não poderia aplicar a Lassalle, com o modo seguro com
que o faz, esta sua "historiografia de grande estilo", caso tivesse em suas mãos, mesmo que fosse uma só
vez, o Código de Napoleão. Não temos outro remédio senão concluir que o Sr. Dühring ignora, de modo
absoluto, o único Código Civil moderno que se baseia nas conquistas sociais da Grande Revolução
Francesa e que traduz estas conquistas para a linguagem jurídica: o moderno direito francês.
 Noutro trecho, quando o Sr. Dühring crítica a instituição do jurado, implantada em todo o continente,
depois de se ter aberto o precedente francês, e no qual o veredictum é tomado por maioria de votos,
transmite-nos o seguinte ensinamento: "Sim, teremos de aceitar mesmo a idéia, que não é sequer nova na
história, segundo a qual, numa comunidade perfeita, deveria ser considerada instituição absurda uma
condenação por votos contraditórios... Entretanto, esse modo sério e profundamente espiritual de encarar
as coisas há de nos parecer, forçosamente, inadequado, em relação às instituições tradicionais, como já
apontamos acima, por ser demasiado bom para elas".
 O Sr. Dühring continua ignorando que a unanimidade dos jurados, não só nas condenações penais,
mas também nas sentenças cíveis, é um requisito indispensável de acordo com o direito comum inglês,
ou seja, o direito consuetudinário, não escrito, que vem sendo aplicado, na Inglaterra, desde tempos
imemoriais, pelo menos do século XIV em diante. Um modo tão sério e tão profundamente espiritual de
conceber as coisas, como esse que o Sr. Dühring reputa demasiado bom para o nosso mundo, tem sido
aplicado na Inglaterra, a partir do período mais sombrio da Idade Média e, desse país, foi, a seguir,
exportado para a Irlanda, para os Estados Unidos da América e para todas as suas colônias, sem que os
conscienciosos estudos especializados do Sr. Dühring na matéria lhe tivessem revelado nem uma
informação sobre tais fatos. A área, na qual é aplicado o princípio da unanimidade do jurado, não só é
infinitamente grande, em comparação com o diminuto raio de ação do direito prussiano, como engloba
também um território maior do que todos os países em que o principio da maioria prevalece com relação
à instituição do júri. Daí se conclui, pois, que o Sr. Dühring ignora completamente não apenas o único

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direito moderno, o direito francês, como demonstra mesmo idêntica incultura com respeito ao único
direito germânico que se desenvolveu até os nossos dias, estendendo-se aos quatro cantos do mundo, fora
de qualquer influência romana: o direito inglês. E é natural que assim seja, pois o próprio Sr. Dühring
nos afirma que o pensamento jurídico inglês "não poderia ser comparado com a disciplina dos conceitos
puros dos juristas clássicos romanos, forjada dentro da Alemanha". E acrescenta: "O que poderá
significar o mundo de língua inglesa com o amalgama pueril de sua linguagem, ao lado de nosso
vigoroso e antiquíssimo idioma?" Basta-nos responder a isto com as palavras de Spinoza: - "lgnorantia
non est argumentum".
 Depois da que acabamos de expor, somos forçados a concluir que os conscienciosos estudos
especializados do Sr. Dühring se reduziram a três anos de esforços teóricos consagrados ao Corpus Juris