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e outros três anos de preocupações práticas ao nobre Direito Nacional Prussiano. Estudos bastante
meritórios, sem dúvida, e que são suficientes para um respeitabilíssimo juiz distrital ou para um senhor
advogado prussiano. Mas quando se deseja criar uma filosofia do direito que seja válida para todos os
mundos e todos os tempos, achamos que não seria demais acumular um pequeno conhecimento das
instituições jurídicas de países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América, que
representaram na História, e ainda representam, um papel bastante diferente que o direito desse recanto
da Alemanha onde floresce o direito nacional prussiano. Continuemos o exame das teorias jurídicas do
Sr. Dühring.
 "A pitoresca mescla de direitos locais, provinciais e nacionais, que se entrechocam nas mais diversas
direções, adquirindo, de um modo caprichoso, ora a forma de direito consuetudinário, ora a da lei escrita,
reduzindo matérias importantíssimas, não poucas vezes, à simples forma estatutária, este quadro, modelo
de desordem e de contradição, no qual, o concreto contradiz o geral, e, às vezes, até mesmo as normas
gerais contradizem os preceitos concretos, não é certamente um quadro adequado para permitir a alguém
a formação de uma clara consciência jurídica." Mas, onde é que impera esse quadro de confusão que
tanto desnorteia o Sr. Dühring? Que saibamos, essa confusão reina no já referido Direito Nacional
Prussiano, no qual, ao lado de um direito nacional, por cima e por baixo dele, vigora toda uma série de
direitos provinciais e de estatutos locais, combinados nalgumas localidades com o direito comum e com
outras complicações do mesmo estilo, numa inacabável gama de variáveis relativas, que provocam em
todo o jurista profissional esse grito de angústia que com tanta simpatia recolhe aqui o Sr. Dühring. Mas
nem sequer precisa cruzar as fronteiras de sua amada Prússia; basta-lhe dar um passeiozinho pelo Reno
para se convencer de que aqui não exista, há mais da 70 anos, nada disso que ele descreve, sem falar de
outros países civilizados em que faz muito tempo que esse antiquado regime desapareceu.
 Continuemos: "De um modo menos flagrante, observamos que a responsabilidade natural do
indivíduo fica encoberta pelos juízos e pelos atos coletivos, secretos e, portanto. anônimas. dos tribunais
sob a forma de colégios ou de outros órgãos da autoridade, nos quais se disfarça a contribuição pessoal
de cada membro." E noutro trecho: "No atual estado de coisas, seria considerado surpreendente e
excessivamente rigoroso um postulado que não permitisse que a responsabilidade individual fosse
encoberta ou disfarçada por tribunais colegiais." Talvez seja uma noticia surpreendente para o Sr.
Dühring. a de que, nos territórios em que vigora o direito inglês, todos os juizes do tribunal colegial são
obrigados a emitir despachos e a expender individualmente a sua opinião em sessões públicas; e talvez se
surpreenda também quando souber que os organismos administrativos colegiais. que nada tem de eletivos
e de atuação e votação públicas, são uma instituição eminentemente prussiana, desconhecida na maioria
dos países, razão pela qual o seu postulado acima referido somente pode ser reputado surpreendente e
excessivamente rigoroso... na Prússia.
 A mesma coisa acontece com os seus lamentos a respeito das intromissões injustificadas do ritual
religioso no nascimento, no matrimônio, na morte e nos enterros; de todos os países civilizados de certa

Anti-Dürhring

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extensão, tais lamentos se aplicam somente à Prússia, e. mesmo nesta, já se tornam desnecessários desde
a implantação do sistema do Registro Civil. Até mesmo um Bismarck foi capaz de resolver, há pouco
tempo, por uma simples lei, o problema que o Sr. Dühring não sonhava que se pudesse resolver a não ser
por meio de seus planos "socialitários" sobre o futuro. Na sua "queixa a respeito da defeituosa preparação
dos juristas para exercer a sua profissão", aliás extensiva até "aos funcionários da administração", volta a
martelar a tecla das lamentações especificamente prussianas. Também o anti-semitismo, tendo ou não
importância e que é levado a extremos ridículos, merecendo o entusiasmo do Sr. Dühring, nos demonstra
a mesma qualidade, se não especificamente prussiana, pelo menos característica de uma determinada
região da Prússia: o Leste do Elba.
 Com efeito, este filósofo da realidade, que contempla com um desprezo soberano todos os
preconceitos e superstições, se deixa influenciar profundamente pelas quimeras pessoais até o ponto de
querer qualificar o preconceito popular contra os judeus, herdado da beataria medieval, de preconceito
natural" baseado em "fundamentos naturais" lançando a seguinte afirmação digna de nota: "O socialismo
é a única força capaz de fazer frente a Estados de população com uma forte mescla judia." (Estados de
mescla judia! Que linguagem!)
 Parece que é suficiente. Todas aquelas pretensões de erudição jurídica, se reduzem - no melhor dos
casos - à vulgaríssimos conhecimentos profissionais de um vulgaríssimo demagogo prussiano. E a
ciência jurídica e política, cujos frutos nos são oferecidos, consequentemente, pelo Sr. Dühring, se
restringe ao raio de ação do direito nacional prussiano, Afora os conhecimentos de direito romano que
possui qualquer profissional do direito, atualmente, mesmo na Inglaterra, a sua ciência jurídica limita-se
simplesmente ao direito nacional prussiano, esse código ilustrado do despotismo patriarcal, escrito num
alemão que se parece com o que aprendeu o Sr. Dühring, código que parece estar cheio da era
pré-revolucionária, pelas suas glórias morais, pelo seu estilo vago e pela falta de consciência jurídica,
bem como pelos açoites que adotava como meio de tortura e como pena. Fora disso, nada reza conforme
a cartilha do Sr. Dühring: para ele não existe o moderno direito civil francês, nem tampouco o direito
inglês, com a sua peculiaríssima evolução e suas garantias de liberdade pessoal, desconhecidas estas em
todo o continente. Uma filosofia "que não se deixa limitar pela aparência de nenhum horizonte, mas que
revolve numa profunda comoção todas as terras e todos os céus interiores e exteriores da natureza", não
tem outro horizonte real senão as fronteiras das seis províncias orientais do velho reino da Prússia, e,
também, uns dois ou três palmos de terra, que ficam do outro lado dessas fronteiras e nos quais vigora o
nobre direito prussiano; fora desses horizontes, não estremecem terras nem céus, não se revolve natureza
alguma exterior ou interior; o que somente se agita é um quadro da mais crassa ignorância, com respeito
ao que ocorre no resto do mundo.
 Não é fácil falar de moral e de direito sem tocar no problema do chamado livre arbítrio, o problema da
responsabilidade humana, o problema das relações entre a necessidade e a liberdade. Em relação a este
problema, a filosofia da realidade nos oferece não apenas uma, mas duas soluções.
 "Todas essas falsas teorias da liberdade devem ser substituídas pelo caráter da relação, em que se
fundem, como a experiência nos revela, partindo, de um lado, a penetração racional e, de outro, os
impulsos instintivos, como para formar uma força intermediária. A observação fornece-nos os fatos
fundamentais dessa espécie de dinâmica e podemos também calculá-los, com antecedência, de uma
maneira mais ou menos boa, no que concerne ao gênero e à grandeza, com relação mesmo ao que não foi
observado. Desse modo, caem por terra todas essas tolas figurações a respeito da liberdade interior com
as quais se remoeram e se torturaram os homens durante milhares de anos, deixando, em seu lugar,
alguma coisa de positivo e de útil para a organização prática da vida." De acordo com essa idéia, a
liberdade consiste em que a penetração nacional leva o homem para a direita e os impulsos irracionais
para a esquerda, formando um paralelogramo de forças em que o movimento real toma a direção da

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