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de grande estilo", caso tivesse em suas mãos, mesmo que fosse uma só
vez, o Código de Napoleão. Não temos outro remédio senão concluir que o Sr. Dühring ignora, de modo
absoluto, o único Código Civil moderno que se baseia nas conquistas sociais da Grande Revolução
Francesa e que traduz estas conquistas para a linguagem jurídica: o moderno direito francês.
 Noutro trecho, quando o Sr. Dühring crítica a instituição do jurado, implantada em todo o continente,
depois de se ter aberto o precedente francês, e no qual o veredictum é tomado por maioria de votos,
transmite-nos o seguinte ensinamento: "Sim, teremos de aceitar mesmo a idéia, que não é sequer nova na
história, segundo a qual, numa comunidade perfeita, deveria ser considerada instituição absurda uma
condenação por votos contraditórios... Entretanto, esse modo sério e profundamente espiritual de encarar
as coisas há de nos parecer, forçosamente, inadequado, em relação às instituições tradicionais, como já
apontamos acima, por ser demasiado bom para elas".
 O Sr. Dühring continua ignorando que a unanimidade dos jurados, não só nas condenações penais,
mas também nas sentenças cíveis, é um requisito indispensável de acordo com o direito comum inglês,
ou seja, o direito consuetudinário, não escrito, que vem sendo aplicado, na Inglaterra, desde tempos
imemoriais, pelo menos do século XIV em diante. Um modo tão sério e tão profundamente espiritual de
conceber as coisas, como esse que o Sr. Dühring reputa demasiado bom para o nosso mundo, tem sido
aplicado na Inglaterra, a partir do período mais sombrio da Idade Média e, desse país, foi, a seguir,
exportado para a Irlanda, para os Estados Unidos da América e para todas as suas colônias, sem que os
conscienciosos estudos especializados do Sr. Dühring na matéria lhe tivessem revelado nem uma
informação sobre tais fatos. A área, na qual é aplicado o princípio da unanimidade do jurado, não só é
infinitamente grande, em comparação com o diminuto raio de ação do direito prussiano, como engloba
também um território maior do que todos os países em que o principio da maioria prevalece com relação
à instituição do júri. Daí se conclui, pois, que o Sr. Dühring ignora completamente não apenas o único
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direito moderno, o direito francês, como demonstra mesmo idêntica incultura com respeito ao único
direito germânico que se desenvolveu até os nossos dias, estendendo-se aos quatro cantos do mundo, fora
de qualquer influência romana: o direito inglês. E é natural que assim seja, pois o próprio Sr. Dühring
nos afirma que o pensamento jurídico inglês "não poderia ser comparado com a disciplina dos conceitos
puros dos juristas clássicos romanos, forjada dentro da Alemanha". E acrescenta: "O que poderá
significar o mundo de língua inglesa com o amalgama pueril de sua linguagem, ao lado de nosso
vigoroso e antiquíssimo idioma?" Basta-nos responder a isto com as palavras de Spinoza: - "lgnorantia
non est argumentum".
 Depois da que acabamos de expor, somos forçados a concluir que os conscienciosos estudos
especializados do Sr. Dühring se reduziram a três anos de esforços teóricos consagrados ao Corpus Juris
e outros três anos de preocupações práticas ao nobre Direito Nacional Prussiano. Estudos bastante
meritórios, sem dúvida, e que são suficientes para um respeitabilíssimo juiz distrital ou para um senhor
advogado prussiano. Mas quando se deseja criar uma filosofia do direito que seja válida para todos os
mundos e todos os tempos, achamos que não seria demais acumular um pequeno conhecimento das
instituições jurídicas de países como a França, a Inglaterra e os Estados Unidos da América, que
representaram na História, e ainda representam, um papel bastante diferente que o direito desse recanto
da Alemanha onde floresce o direito nacional prussiano. Continuemos o exame das teorias jurídicas do
Sr. Dühring.
 "A pitoresca mescla de direitos locais, provinciais e nacionais, que se entrechocam nas mais diversas
direções, adquirindo, de um modo caprichoso, ora a forma de direito consuetudinário, ora a da lei escrita,
reduzindo matérias importantíssimas, não poucas vezes, à simples forma estatutária, este quadro, modelo
de desordem e de contradição, no qual, o concreto contradiz o geral, e, às vezes, até mesmo as normas
gerais contradizem os preceitos concretos, não é certamente um quadro adequado para permitir a alguém
a formação de uma clara consciência jurídica." Mas, onde é que impera esse quadro de confusão que
tanto desnorteia o Sr. Dühring? Que saibamos, essa confusão reina no já referido Direito Nacional
Prussiano, no qual, ao lado de um direito nacional, por cima e por baixo dele, vigora toda uma série de
direitos provinciais e de estatutos locais, combinados nalgumas localidades com o direito comum e com
outras complicações do mesmo estilo, numa inacabável gama de variáveis relativas, que provocam em
todo o jurista profissional esse grito de angústia que com tanta simpatia recolhe aqui o Sr. Dühring. Mas
nem sequer precisa cruzar as fronteiras de sua amada Prússia; basta-lhe dar um passeiozinho pelo Reno
para se convencer de que aqui não exista, há mais da 70 anos, nada disso que ele descreve, sem falar de
outros países civilizados em que faz muito tempo que esse antiquado regime desapareceu.
 Continuemos: "De um modo menos flagrante, observamos que a responsabilidade natural do
indivíduo fica encoberta pelos juízos e pelos atos coletivos, secretos e, portanto. anônimas. dos tribunais
sob a forma de colégios ou de outros órgãos da autoridade, nos quais se disfarça a contribuição pessoal
de cada membro." E noutro trecho: "No atual estado de coisas, seria considerado surpreendente e
excessivamente rigoroso um postulado que não permitisse que a responsabilidade individual fosse
encoberta ou disfarçada por tribunais colegiais." Talvez seja uma noticia surpreendente para o Sr.
Dühring. a de que, nos territórios em que vigora o direito inglês, todos os juizes do tribunal colegial são
obrigados a emitir despachos e a expender individualmente a sua opinião em sessões públicas; e talvez se
surpreenda também quando souber que os organismos administrativos colegiais. que nada tem de eletivos
e de atuação e votação públicas, são uma instituição eminentemente prussiana, desconhecida na maioria
dos países, razão pela qual o seu postulado acima referido somente pode ser reputado surpreendente e
excessivamente rigoroso... na Prússia.
 A mesma coisa acontece com os seus lamentos a respeito das intromissões injustificadas do ritual
religioso no nascimento, no matrimônio, na morte e nos enterros; de todos os países civilizados de certa
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extensão, tais lamentos se aplicam somente à Prússia, e. mesmo nesta, já se tornam desnecessários desde
a implantação do sistema do Registro Civil. Até mesmo um Bismarck foi capaz de resolver, há pouco
tempo, por uma simples lei, o problema que o Sr. Dühring não sonhava que se pudesse resolver a não ser
por meio de seus planos "socialitários" sobre o futuro. Na sua "queixa a respeito da defeituosa preparação
dos juristas para exercer a sua profissão", aliás extensiva até "aos funcionários da administração", volta a
martelar a tecla das lamentações especificamente prussianas. Também o anti-semitismo, tendo ou não
importância e que é levado a extremos ridículos, merecendo o entusiasmo do Sr. Dühring, nos demonstra
a mesma qualidade, se não especificamente prussiana, pelo menos característica de uma determinada
região da Prússia: o Leste do Elba.
 Com efeito, este filósofo da realidade, que contempla com um desprezo soberano todos os
preconceitos e superstições, se deixa influenciar profundamente pelas quimeras pessoais até o ponto de
querer qualificar o preconceito popular contra os judeus, herdado