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diagonal. A liberdade seria, pois, a linha média entre a razão e o instinto, entre a inteligência e a
irreflexão, poder-se-ia determinar o grau de liberdade, em cada indivíduo, de modo empírico, por meio
de uma "equação pessoal", para dizê-lo em linguagem astronômica. Vamos encontrar, páginas adiante, a
seguinte afirmação: "Baseamos a responsabilidade moral na liberdade, mas esta significa para nós apenas
a receptividade do homem em relação aos móveis conscientes, como resultado da inteligência natural e
adquirida. Todos estes móveis agem com o caráter inflexível das leis naturais, apesar de se perceber um
possível antagonismo entre eles; e é precisamente com este caráter necessário e inelutável que podemos
contar como pontos de apoio para as alavancas morais."
 Essa segunda definição da idéia da liberdade, que se choca flagrantemente com a primeira, não é mais
do que uma fraca vulgarização da filosofia hegeliana. Foi Hegel o primeiro que soube expor de um modo
exato as relações entre a liberdade e a necessidade. Para ele, a liberdade não é outra coisa senão a
convicção da necessidade. "A necessidade somente é cega enquanto não compreendida," A liberdade não
reside, pois, numa sonhada independência em relação às leis naturais, mas na consciência dessas leis e na
correspondente possibilidade de projetá-las racionalmente para determinados fins. Isto é verdade não
somente para as leis da natureza exterior, mas também para as leis que presidem a existência corporal e
espiritual do homem: duas espécies de leis que podemos distinguir, quando muito, em nosso pensamento.
mas que, na realidade, são absolutamente inseparáveis. O livre arbítrio não é. portanto, de acordo com o
que acabamos de dizer, senão a capacidade de decisão com conhecimento de causa. Assim, pois, quanto
mais livre, for o juízo de uma pessoa com relação a um determinado problema, tanto mais nítido será o
caráter de necessidade determinado pelo conteúdo desse juízo; ao contrário, a falta de segurança que,
baseada na ignorância, parece escolher, livremente, entre um mundo de possibilidades distintas e
contraditórias, está demonstrando, desse modo, justamente a sua falta de liberdade, está assim
demonstrando que se acha dominada pelo objeto que pretende dominar, A liberdade, pois, é o domínio de
nós próprios e da natureza exterior, baseado na consciência das necessidades naturais; como tal é,
forçosamente, um produto da evolução histórica. Os primeiros homens que se levantaram do reino
animal eram, em todos os pontos essenciais de suas vidas, tão pouco livres quanto os próprios animais;
cada passo dado no caminho da cultura é um passo no caminho da liberdade. Nos primórdios da história
da humanidade, realizou-se a descoberta que permitiu converter o movimento mecânico em calor: a
produção do fogo pela fricção; o progresso tem, atualmente, como sua etapa terminal, a descoberta que
transforma, inversamente, o calor em movimento mecânico: a máquina a vapor. E apesar do colossal
abalo de libertação que a máquina a vapor trouxe ao mundo social - e que até hoje ainda não deu sequer a
metade de seus frutos - é indubitável que a produção do fogo pela fricção, nos tempos primitivos, foi
superior àquela descoberta como condição emancipadora. O fogo, obtido dessa forma, foi que permitiu
ao homem o domínio sobre uma força da natureza, emancipando-o definitivamente das limitações do
mundo animal. A máquina a vapor não poderá jamais representar um passo tão gigantesco na história do
homem, por mais que apareça, ante nossos olhos, como a representação de todas essas gigantescas forças
produtivas a ela incorporadas e sem as quais não seria possível instaurar um regime social livre de todas
as diferenças de classe, no qual desapareçam as preocupações com relação aos meios de subsistência
individual e se possa falar, pela primeira vez, de uma liberdade verdadeiramente humana, de uma vida
em harmonia com as leis naturais que conhecemos. O simples fato de toda a história anterior à nossa
época poder ser designada como a história do período que começa com a descoberta prática, que
converte o movimento mecânico em calor e culmina com a descoberta que transforma o calor em
movimento mecânico, esse simples fato indica como é jovem ainda a história humana, e também como
seria ridículo querer imprimir às nossas idéias atuais um caráter absoluto.
 Mas o Sr. Dühring compreende a história de outro modo. De maneira geral, a história, concebida
como sendo a história dos erros, da ignorância e da barbárie, da violência e da escravização, é matéria

Anti-Dürhring

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que repugna à filosofia da realidade; para essa filosofia, a história, focalizada concretamente, se divide
em duas grandes épocas, a saber: 1) do estado da matéria idêntica a si mesmo até a Revolução Francesa;
e 2) da Revolução Francesa até o Sr. Dühring. Neste segundo período, o século XIX continua sendo
"ainda essencialmente reacionário e, no terreno espiritual, chega a ser ainda mais (!) reacionário do que o
século XVIII", apesar de já trazer em suas entranhas o socialismo e, com este, "o germe de um
renascimento muito mais poderoso do que o concebido (!) pelos precursores e heróis da Revolução
Francesa. O desprezo em que a filosofia da realidade tem toda a história anterior a este período se
justifica da maneira seguinte: "Os poucos milênios a que se pode remontar a recordação histórica, por
meio de documentos originais, para estabelecer a estrutura da humanidade até os nossos dias, não
significam grande coisa, quando se pensa na série de milênios que ainda estão por vir... O gênero
humano, considerado como um todo, é ainda muito jovem, e, quando chegar o dia em que as
documentações científicas retrospectivas possam operar com dezenas de milhares e não apenas com
milhares de anos, o caráter espiritualmente pueril e incipiente de nossas instituições ter-se-á imposto,
indiscutivelmente, como sendo uma hipótese evidente sobre a nossa época, que será, então, considerada
como a mais primitiva das antigüidades."
 Sem nos determos na configuração realmente "vigorosa e antiquíssima" dessa última frase, teremos
que observar duas coisas. Em primeiro lugar, essa "primitivíssima antigüidade" será sempre, aconteça o
que acontecer, um período histórico de grande interesse para todas as gerações futuras, pois que constitui
a base de todo o progresso posterior, tendo por ponto de partida a emancipação do homem das condições
do reino animal e tendo, por conteúdo, a superação de dificuldades tão grandes como jamais voltarão a se
contrapor ao homem associado do futuro. Em segundo lugar, o cancelamento de toda essa primitivíssima
antigüidade, em relação à qual os futuros períodos históricos, que não sofrerão contraposição dos diques
das mesmas dificuldades e obstáculos, prometem muitos triunfos científicos, técnicos e sociais tão
diferentes, esse cancelamento é, logo à primeira vista, um modo brilhantemente escolhido para se poder
ditar normas aos séculos futuros por meio de verdades definitivas e inapeláveis, de verdades imutáveis e
de concepções baseadas no conhecimento das coisas até as suas raízes, descobertas no estudo da
infantilidade e da incipiência espiritual de nosso século, tão "atrasado" e "retrógrado". É preciso que se
seja um Richard Wagner filósofo - embora sem o mesmo talento - para não se compreender que todos os
desprezos, que se costumam lançar sobre a história humana anterior aos nossos dias, acabam por se
voltar, necessariamente, contra o próprio resultado final de suas investidas, a chamada filosofia da
realidade.
 Um dos capítulos mais eloqüentes dessa nova ciência radical é o que trata da individualização e da
potenciação do valor da vida. No decorrer de três capítulos inteiros vemos fluir, aos borbotões, em fluxos
irresistíveis, sempre os mesmos lugares comuns, vestidos de roupagens oraculares. Limitar-nos-emos,
pois, infelizmente,