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a oferecer aos nossos leitores, apenas um par de botões como amostra de toda essa
riqueza.
 "A essência profunda de todas as sensações, e, portanto, de todas as formas subjetivas de vida,
repousa na diferença de estados... Mas com relação à vida íntegra (!) pode-se afirmar simplesmente (!)
que o que exalta a sensação de vida e desenvolve os impulsos decisivos não é a imobilidade, mas, sim, a
passagem de uma situação de vida para outra... O estado quase idêntico a si mesmo, inerte por assim
dizer, como que em equilíbrio, não significa nada de importante qualquer que seja o caráter com que se
apresente, como uma prova de vida... O hábito e a assimilação, por assim dizer, acabam por converter-se
em algo completamente indiferente, que não se diferencia em grande coisa da morte. Em resumo,
manifestar-se como uma espécie de reação negativa de vida, a tortura do tédio... Numa vida estagnada,
desaparece, para os indivíduos como para os povos, toda a paixão e todo o interesse pela existência. A
nossa lei da diferença explica todos esses fenômenos".

Anti-Dürhring

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 É verdadeiramente incrível a rapidez com que o Sr. Dühring sabe pôr em prática as suas conclusões
autenticamente originais. Nas linhas anteriores, a filosofia da realidade foi explicada pelo lugar comum
de que o friccionamento constante de um mesmo nervo ou a repetição de um mesmo friccionamento
acaba por fatigar a qualquer nervo e a qualquer sistema nervoso. Assim, em circunstâncias normais,
impõe-se uma interrupção ou uma mudança das reações nervosas, lugar comum esse, que é encontrado,
há já muitos anos, em qualquer manual de fisiologia e que qualquer pessoa conhece por experiência
própria; mas apenas foi revestida essa velha vulgaridade pelo misterioso postulado de que a essência
profunda reside na diferença dos estados, da qual emerge instantaneamente "a nossa lei da diferença". E
essa lei da diferença "explica perfeitamente" toda uma série de fenômenos que não são, por sua vez, mais
que outros tantos exemplos e ilustrações de como são agradáveis as variações na utilização da cada
nervo, fato esse que não necessita de demonstração nem para a mais vulgar inteligência de filisteu e não
adquire nem um átomo de clareza pelo fato de ter sido invocada em seu apoio essa pretensa lei da
diferença.
 Não se pense que com isso esgotamos a radicalidade "de nossa lei da diferença". "A graduação das
idades e as mudanças nas situações da vida, que dela derivam, fornecem um exemplo, bem ao nosso
alcance, para ilustrar o nosso princípio da diferença. A criança, o adolescente, o moço, o homem, não
experimentam a força de suas respectivas sensações de vida, quer em cada estado fixo em que se
encontram, quer nas épocas de transição de um para outro estágio." Mas, continua ainda: "Nossa lei da
diferença pode ter uma aplicação ainda mais remota quando se tem em conta o fato de que a repetição do
fenômeno já experimentado ou realizado não oferece encanto algum". Deixemos ao leitor que tire, por si
mesmo, as suas conclusões, sobre o remate oracular em que vão culminar todas essas profundas e
"radicais" afirmações. Não é de estranhar que, ao terminar o livro, possa o Sr. Dühring exclamar, com
um ar de triunfo: "Para a apreciação e a potenciação do valor da vida, a lei da diferença teve um caráter
decisivo, tanto prática como teoricamente". Decisivo não só para esse efeito, mas também para a
apreciação que faz o Sr. Dühring do nível espiritual de seu público: pelo visto, ele parte do suposto de
que todos os seus leitores são uns asnos ou uns mentecaptos.
 Um pouco mais adiante, vamos encontrar as seguintes regras, extraordinariamente práticas, de vida:
"Os meios para incentivar o interesse geral pela vida" (bela missão para filisteu ou para quem deseja
chegar a sê-lo), "consistem em deixar que se desenvolvam ou se substituam uns aos outros os interesses
concretos, por assim dizer elementares, de que se compõe a vida total, tendo como base os seus períodos
naturais. Simultaneamente, dentro de um mesmo estado, deverá também ser utilizada a gradação na série
dos apetites baixos e fáceis de satisfazer, até as emoções mais altas e de eficácia mais duradoura, de
modo a evitar que se produzam lacunas de uma total ausência de interesse. Além disso, tudo dependerá
de se precaver contra a tendência das tensões, que se produzem naturalmente ou no curso normal da
existência social, se acumularem ou crescerem de um modo arbitrário ou a tendência de uma aberração
inversa, a de se satisfazer à menor reação impedindo desse modo o desenvolvimento de um apetite capaz
de causar um prazer. A observação do ritmo natural é, neste como noutros casos, a condição prévia que
determina o movimento constante e atrativo. Não devemos tampouco nos propor o objetivo irrealizável
de ampliar os encantos de uma situação qualquer além dos limites marcados pela natureza ou pelas
circunstâncias, etc. etc." O homem honesto, que aceitar como norma de vida todos esses oráculos solenes
com que o pedantismo caviloso de um filisteu reveste as mais desconexas vulgaridades, não terá que se
queixar, certamente, de "lacunas completamente desprovidas de interesse" pois gastará todo o seu tempo
para preparar e pôr em ordem os seus prazeres obedecendo a esta receita e não lhe restará, sequer, um
minuto livre para os próprios gozos.
 É preciso viver a vida, a vida íntegra. O Sr. Dühring nos proíbe apenas duas coisas: "a imundície e o
uso do tabaco" e as bebidas e alimentos que "provocam sensação de nojo ou contêm qualquer outra

Anti-Dürhring

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qualidade contrária às sensações delicadas". Mas como, no seu curso de economia, o Sr. Dühring dedica
uma série de ditirambos à destilação de aguardente, devemos por isso entender que a sua proibição não é
extensiva a estas bebidas, mas somente ao vinho e à cerveja. Proíbe-nos, também, o uso da carne e essa
proibição eleva a filosofia da realidade àquelas alturas em que se colocou, em seu tempo, com tanto
êxito. Gustavo Strouvé: nas alturas da mais pura futilidade. Ademais, podia o Sr. Dühring ser um pouco
mais liberal no que se refere aos espirituosos. Um homem que reconhece que não pode encontrar ainda a
ponte entre a estática e a dinâmica, devia ter razões de sobra para julgar com certa benevolência a um
pobre diabo, que, tendo dobrado o cotovelo mais do que podia, busca também, em vão, a ponte entre a
dinâmica e a estática.

Capítulo XII - DIALÉTICA. QUANTIDADE E QUALIDADE
 "A primeira e mais importante das teses sobre as propriedades lógicas fundamentais do ser refere-se à
exclusão da contradição. O contraditório é uma categoria que somente pode ocorrer numa combinação
especulativa, mas nunca na realidade. Não existem contradições nas coisas, ou, dito de outro modo, a
contradição posta na realidade é o cúmulo do absurdo... O antagonismo de forças que se medem umas às
outras em determinado sentido e, inclusive, a forma fundamental de todas as ações na realidade do
mundo e dos seres que nele habitam. Mas esta divergência entre as diferentes direções de força dos
elementos e dos indivíduos, não se concilia, de modo algum, com a idéia de absurdos contraditórios...
Podemo-nos, sentir, neste ponto, satisfeitos por poder desfazer, com uma imagem clara do verdadeiro
absurdo que representa a contradição na realidade, a névoa que parece levantar-se dos pretendidos
mistérios da lógica, demonstrando a inutilidade do incenso que se gastou, aqui e ali, em homenagem ao
fetiche de barro da dialética da contradição, grosseiramente talhado e burilado na esquemática dos
antagonismos do mundo". É isso, mais ou menos, tudo o que o Curso de Filosofia nos diz sobre a
dialética. Na sua História Crítica, o Sr. Dühring focaliza, de um modo completamente diferente, a
dialética da contradição e nela, principalmente, a doutrina de Hegel. "Na lógica hegeliana, ou melhor, na
teoria do Logos, o contraditório não reside