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e da escravização, é matéria
Anti-Dürhring
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que repugna à filosofia da realidade; para essa filosofia, a história, focalizada concretamente, se divide
em duas grandes épocas, a saber: 1) do estado da matéria idêntica a si mesmo até a Revolução Francesa;
e 2) da Revolução Francesa até o Sr. Dühring. Neste segundo período, o século XIX continua sendo
"ainda essencialmente reacionário e, no terreno espiritual, chega a ser ainda mais (!) reacionário do que o
século XVIII", apesar de já trazer em suas entranhas o socialismo e, com este, "o germe de um
renascimento muito mais poderoso do que o concebido (!) pelos precursores e heróis da Revolução
Francesa. O desprezo em que a filosofia da realidade tem toda a história anterior a este período se
justifica da maneira seguinte: "Os poucos milênios a que se pode remontar a recordação histórica, por
meio de documentos originais, para estabelecer a estrutura da humanidade até os nossos dias, não
significam grande coisa, quando se pensa na série de milênios que ainda estão por vir... O gênero
humano, considerado como um todo, é ainda muito jovem, e, quando chegar o dia em que as
documentações científicas retrospectivas possam operar com dezenas de milhares e não apenas com
milhares de anos, o caráter espiritualmente pueril e incipiente de nossas instituições ter-se-á imposto,
indiscutivelmente, como sendo uma hipótese evidente sobre a nossa época, que será, então, considerada
como a mais primitiva das antigüidades."
 Sem nos determos na configuração realmente "vigorosa e antiquíssima" dessa última frase, teremos
que observar duas coisas. Em primeiro lugar, essa "primitivíssima antigüidade" será sempre, aconteça o
que acontecer, um período histórico de grande interesse para todas as gerações futuras, pois que constitui
a base de todo o progresso posterior, tendo por ponto de partida a emancipação do homem das condições
do reino animal e tendo, por conteúdo, a superação de dificuldades tão grandes como jamais voltarão a se
contrapor ao homem associado do futuro. Em segundo lugar, o cancelamento de toda essa primitivíssima
antigüidade, em relação à qual os futuros períodos históricos, que não sofrerão contraposição dos diques
das mesmas dificuldades e obstáculos, prometem muitos triunfos científicos, técnicos e sociais tão
diferentes, esse cancelamento é, logo à primeira vista, um modo brilhantemente escolhido para se poder
ditar normas aos séculos futuros por meio de verdades definitivas e inapeláveis, de verdades imutáveis e
de concepções baseadas no conhecimento das coisas até as suas raízes, descobertas no estudo da
infantilidade e da incipiência espiritual de nosso século, tão "atrasado" e "retrógrado". É preciso que se
seja um Richard Wagner filósofo - embora sem o mesmo talento - para não se compreender que todos os
desprezos, que se costumam lançar sobre a história humana anterior aos nossos dias, acabam por se
voltar, necessariamente, contra o próprio resultado final de suas investidas, a chamada filosofia da
realidade.
 Um dos capítulos mais eloqüentes dessa nova ciência radical é o que trata da individualização e da
potenciação do valor da vida. No decorrer de três capítulos inteiros vemos fluir, aos borbotões, em fluxos
irresistíveis, sempre os mesmos lugares comuns, vestidos de roupagens oraculares. Limitar-nos-emos,
pois, infelizmente, a oferecer aos nossos leitores, apenas um par de botões como amostra de toda essa
riqueza.
 "A essência profunda de todas as sensações, e, portanto, de todas as formas subjetivas de vida,
repousa na diferença de estados... Mas com relação à vida íntegra (!) pode-se afirmar simplesmente (!)
que o que exalta a sensação de vida e desenvolve os impulsos decisivos não é a imobilidade, mas, sim, a
passagem de uma situação de vida para outra... O estado quase idêntico a si mesmo, inerte por assim
dizer, como que em equilíbrio, não significa nada de importante qualquer que seja o caráter com que se
apresente, como uma prova de vida... O hábito e a assimilação, por assim dizer, acabam por converter-se
em algo completamente indiferente, que não se diferencia em grande coisa da morte. Em resumo,
manifestar-se como uma espécie de reação negativa de vida, a tortura do tédio... Numa vida estagnada,
desaparece, para os indivíduos como para os povos, toda a paixão e todo o interesse pela existência. A
nossa lei da diferença explica todos esses fenômenos".
Anti-Dürhring
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 É verdadeiramente incrível a rapidez com que o Sr. Dühring sabe pôr em prática as suas conclusões
autenticamente originais. Nas linhas anteriores, a filosofia da realidade foi explicada pelo lugar comum
de que o friccionamento constante de um mesmo nervo ou a repetição de um mesmo friccionamento
acaba por fatigar a qualquer nervo e a qualquer sistema nervoso. Assim, em circunstâncias normais,
impõe-se uma interrupção ou uma mudança das reações nervosas, lugar comum esse, que é encontrado,
há já muitos anos, em qualquer manual de fisiologia e que qualquer pessoa conhece por experiência
própria; mas apenas foi revestida essa velha vulgaridade pelo misterioso postulado de que a essência
profunda reside na diferença dos estados, da qual emerge instantaneamente "a nossa lei da diferença". E
essa lei da diferença "explica perfeitamente" toda uma série de fenômenos que não são, por sua vez, mais
que outros tantos exemplos e ilustrações de como são agradáveis as variações na utilização da cada
nervo, fato esse que não necessita de demonstração nem para a mais vulgar inteligência de filisteu e não
adquire nem um átomo de clareza pelo fato de ter sido invocada em seu apoio essa pretensa lei da
diferença.
 Não se pense que com isso esgotamos a radicalidade "de nossa lei da diferença". "A graduação das
idades e as mudanças nas situações da vida, que dela derivam, fornecem um exemplo, bem ao nosso
alcance, para ilustrar o nosso princípio da diferença. A criança, o adolescente, o moço, o homem, não
experimentam a força de suas respectivas sensações de vida, quer em cada estado fixo em que se
encontram, quer nas épocas de transição de um para outro estágio." Mas, continua ainda: "Nossa lei da
diferença pode ter uma aplicação ainda mais remota quando se tem em conta o fato de que a repetição do
fenômeno já experimentado ou realizado não oferece encanto algum". Deixemos ao leitor que tire, por si
mesmo, as suas conclusões, sobre o remate oracular em que vão culminar todas essas profundas e
"radicais" afirmações. Não é de estranhar que, ao terminar o livro, possa o Sr. Dühring exclamar, com
um ar de triunfo: "Para a apreciação e a potenciação do valor da vida, a lei da diferença teve um caráter
decisivo, tanto prática como teoricamente". Decisivo não só para esse efeito, mas também para a
apreciação que faz o Sr. Dühring do nível espiritual de seu público: pelo visto, ele parte do suposto de
que todos os seus leitores são uns asnos ou uns mentecaptos.
 Um pouco mais adiante, vamos encontrar as seguintes regras, extraordinariamente práticas, de vida:
"Os meios para incentivar o interesse geral pela vida" (bela missão para filisteu ou para quem deseja
chegar a sê-lo), "consistem em deixar que se desenvolvam ou se substituam uns aos outros os interesses
concretos, por assim dizer elementares, de que se compõe a vida total, tendo como base os seus períodos
naturais. Simultaneamente, dentro de um mesmo estado, deverá também ser utilizada a gradação na série
dos apetites baixos e fáceis de satisfazer, até as emoções mais altas e de eficácia mais duradoura, de
modo a evitar que se produzam lacunas de uma total ausência de interesse. Além disso, tudo dependerá
de se precaver contra a tendência das tensões, que se produzem naturalmente ou no curso normal da
existência social, se acumularem ou crescerem de um modo