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aos outros autores, consiste em pôr, nos seus lábios, insistentemente,
coisas que estes nunca disseram e que são um produto genuíno e peculiar de sua própria cabeça. Os
pobres restos de sabedoria que nos oferece a respeito de assuntos próprios de filisteus como, por
exemplo, o do valor da vida e o melhor meio de gozá-la, tem um tal caráter de vulgaridade que bastam
para explicar, perfeitamente, a cólera de seu autor contra o Fausto de Goethe. Com efeito, o Sr. Dühring,
não poderá perdoar jamais a Goethe, o fato de ter criado, como herói de seu drama, um ser tão imoral
como Fausto, em vez de pôr em seu lugar um ilustre filósofo da realidade, como o seria Wagner.
Anti-Dürhring
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 Em resumo, a filosofia da realidade não é, mais que, afinal de contas, para usar uma expressão de
Hegel, "a mais vulgar lama do lamaçal alemão", com uma fluidez e uma transparência feitas de lugares
comuns, que só pode ser tornada mais turva e mais densa com os coágulos oraculares que o seu autor
nela dissolve. Quando terminamos a última página do livro, sabemos tanto quanto antes de ter iniciado a
sua leitura e somos forçados a confessar que o "novo método especulativo" ao lado dos "resultados e
concepções fundamentalmente originais" e das "idéias criadoras de sistema", nos revelou, de fato, não
poucos absurdos, sem nos oferecer, em troca, uma linha sequer em que possamos aprender alguma coisa.
E este homem, que tanta propaganda faz de suas artes e mercadorias, ao som de fanfarras, como o mais
vulgar camelot de feira, por detrás de cujas frases grandiloqüentes não se encontra nada, mas
absolutamente nada, este homem tem a ousadia de chamar de charlatães a figuras como Fichte, Schelling
e Hegel, o mais humilde dos quais seria, ao seu lado, um gigante! Há charlatanismo, sim: mas onde e por
parte de quem?
PARTE II
Economia Política
Capítulo I - OBJETO E MÉTODO
 A Economia Política, no sentido mais amplo da palavra, é a ciência das leis que regem a produção e o
intercâmbio dos meios materiais da vida na sociedade humana. Produção e troca são duas funções
distintas. A produção pode desenvolver-se sem a troca, mas esta pressupõe, sempre, necessariamente, a
produção, pelo próprio fato de que o que se trocam são os produtos. Cada uma destas funções sociais
sofre a influência de um grande número de fenômenos exteriores, sendo que essa influência é
subordinada, em grande parte, a leis próprias e especificas. Mas, ao mesmo tempo, a produção e a troca
se condicionam, a cada passo, reciprocamente e influem de tal modo uma sobre a outra, que se pode
dizer que são a abcissa e a ordenada da curva econômica.
 As condições sob as quais os homens produzem e trocam o que foi produzido variam muito para cada
país e, dentro de cada país, de geração para geração. Por isso, a Economia Política não pode ser a mesma
para todos os países nem para todas as épocas históricas. Desde o arco e flecha, passando pelo machado
de pedra do selvagem, com os seus atos de troca, raríssima e excepcional, até a máquina a vapor de mil
cavalos de força, os teares mecânicos, as estradas de ferro e o Banco de Inglaterra, existe um verdadeiro
abismo. Os habitantes da Terra do Fogo não conhecem a produção em grande escala, assim como não
conhecem o comércio mundial, nem tampouco as letras de câmbio que circulam a descoberto e os
inesperados craques de Bolsa. Quem quer que se empenhasse em reduzir a Economia Política da Terra
do Fogo às mesmas leis por que se rege hoje a Economia da Inglaterra, não poderia, evidentemente tirar
alguma conclusão, a não ser uns quantos lugares comuns da mais vulgar trivialidade. A Economia
Política é, portanto, uma ciência essencialmente histórica. A matéria sobre que versa é uma matéria
histórica, isto é, sujeita a mudança constante. Somente depois de investigar as leis especificas de cada
etapa concreta de produção e de troca, como conclusão, nos será permitido formular, a titulo de resumo.
as poucas leis verdadeiramente gerais, aplicáveis à produção e à troca, quaisquer que sejam os sistemas.
Com isto, quer se dizer que as leis, que se aplicam a um determinado sistema de produção ou a uma
forma concreta de troca, são válidas também a todos aqueles períodos históricos em que esse sistema de
produção ou essa forma de troca se apresentam. Assim, por exemplo, no período em que se implantou na
Economia o sistema de dinheiro metálico, entra em ação toda uma série de leis que passam a reger e que
se mantêm vigentes em todos os países e em todas as épocas da história em que a troca se realiza tendo
Anti-Dürhring
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como mediador o dinheiro metálico.
 O regime de produção e de troca de uma sociedade histórica determinada e, com ele, as condições
históricas prévias que presidem a vida desta sociedade determinam, por sua vez, o regime de distribuição
do que foi produzido. Na comunidade tribal ou na comuna camponesa, organizadas à base da
propriedade coletiva do solo, regime pelo qual passaram - como se pode observar em seus nítidos
vestígios - todos os povos civilizados da história, é perfeitamente compreensível que imperasse um
sistema de distribuição quase igualitário dos produtos. Ali onde aparece, na distribuição, uma
desigualdade mais ou menos assinalada, esta desigualdade é mais um sintoma de que a comunidade
começa a se desagregar. A grande e a pequena agricultura correspondem a formas muito distintas de
distribuição, conforme as condições históricas prévias de que tenham nascido. Mas é evidente que a
agricultura em grande escala condiciona sempre um regime de distribuição completamente diferente do
da pequena agricultura; é evidente que, enquanto a primeira pressupõe ou engendra necessariamente um
antagonismo de classes - divisão em amos e escravos -, a segunda forma, pelo contrário, modela uma
diferença de classes que não está condicionada, de modo algum, pelos indivíduos que trabalham na
produção agrícola, mas que já revela a decadência que se inicia no regime de exploração parcelada do
solo. A implantação e a difusão do dinheiro metálico nos países em que a Economia tomava
desenvolvimento, exclusiva ou predominantemente, pelas vias naturais, trouxe consigo uma perturbação,
mais ou menos intensa, mais ou menos rápida, do sistema tradicional de distribuição, uma modificação
que torna ainda mais agudas as desigualdades da distribuição entre os indivíduos, acelerando assim a
divisão entre ricos e pobres. A indústria artesanal da Idade Média, do tipo local e gremial,
impossibilitava a existência de grandes capitalistas e de operários, assalariados por toda a vida, com a
mesma força de necessidade com que a grande indústria moderna, a atual estrutura do crédito e a forma
da troca adequada ao desenvolvimento desses dois fatores, que é a livre concorrência, faz com que
existam esses mesmos grandes capitalistas e operários assalariados.
 E com as diferenças no regime de distribuição surgem as diferenças de classe. A sociedade se divide
em classes privilegiadas e desprotegidas, exploradoras e exploradas, dominantes e dominadas. E o
Estado, que nasceu do desenvolvimento dos grupos naturais e primitivos em que se começaram a
organizar as comunidades descendentes do mesmo tronco, para a direção de seus interesses comuns
(irrigação da terra, nos países do Oriente, etc.), e para se defender contra os perigos de fora, formou para
si, a partir de então, uma nova finalidade: a defesa, pelo uso da força, das condições de vida e de governo
da classe dominante frente à classe dominada.
 A distribuição não é, pois, um mero produto passivo da produção e da troca, mas, pelo contrário,
repercute também e com força não inferior. sobre elas próprias. Todo novo regime de produção, toda
nova forma de troca, tropeça, logo ao nascer, não só com a resistência passiva que lhe opõem as formas