antiduring
155 pág.

antiduring

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.876 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Assim, por exemplo, no período em que se implantou na
Economia o sistema de dinheiro metálico, entra em ação toda uma série de leis que passam a reger e que
se mantêm vigentes em todos os países e em todas as épocas da história em que a troca se realiza tendo

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (84 of 155) [05/04/2001 17:55:03]

como mediador o dinheiro metálico.
 O regime de produção e de troca de uma sociedade histórica determinada e, com ele, as condições
históricas prévias que presidem a vida desta sociedade determinam, por sua vez, o regime de distribuição
do que foi produzido. Na comunidade tribal ou na comuna camponesa, organizadas à base da
propriedade coletiva do solo, regime pelo qual passaram - como se pode observar em seus nítidos
vestígios - todos os povos civilizados da história, é perfeitamente compreensível que imperasse um
sistema de distribuição quase igualitário dos produtos. Ali onde aparece, na distribuição, uma
desigualdade mais ou menos assinalada, esta desigualdade é mais um sintoma de que a comunidade
começa a se desagregar. A grande e a pequena agricultura correspondem a formas muito distintas de
distribuição, conforme as condições históricas prévias de que tenham nascido. Mas é evidente que a
agricultura em grande escala condiciona sempre um regime de distribuição completamente diferente do
da pequena agricultura; é evidente que, enquanto a primeira pressupõe ou engendra necessariamente um
antagonismo de classes - divisão em amos e escravos -, a segunda forma, pelo contrário, modela uma
diferença de classes que não está condicionada, de modo algum, pelos indivíduos que trabalham na
produção agrícola, mas que já revela a decadência que se inicia no regime de exploração parcelada do
solo. A implantação e a difusão do dinheiro metálico nos países em que a Economia tomava
desenvolvimento, exclusiva ou predominantemente, pelas vias naturais, trouxe consigo uma perturbação,
mais ou menos intensa, mais ou menos rápida, do sistema tradicional de distribuição, uma modificação
que torna ainda mais agudas as desigualdades da distribuição entre os indivíduos, acelerando assim a
divisão entre ricos e pobres. A indústria artesanal da Idade Média, do tipo local e gremial,
impossibilitava a existência de grandes capitalistas e de operários, assalariados por toda a vida, com a
mesma força de necessidade com que a grande indústria moderna, a atual estrutura do crédito e a forma
da troca adequada ao desenvolvimento desses dois fatores, que é a livre concorrência, faz com que
existam esses mesmos grandes capitalistas e operários assalariados.
 E com as diferenças no regime de distribuição surgem as diferenças de classe. A sociedade se divide
em classes privilegiadas e desprotegidas, exploradoras e exploradas, dominantes e dominadas. E o
Estado, que nasceu do desenvolvimento dos grupos naturais e primitivos em que se começaram a
organizar as comunidades descendentes do mesmo tronco, para a direção de seus interesses comuns
(irrigação da terra, nos países do Oriente, etc.), e para se defender contra os perigos de fora, formou para
si, a partir de então, uma nova finalidade: a defesa, pelo uso da força, das condições de vida e de governo
da classe dominante frente à classe dominada.
 A distribuição não é, pois, um mero produto passivo da produção e da troca, mas, pelo contrário,
repercute também e com força não inferior. sobre elas próprias. Todo novo regime de produção, toda
nova forma de troca, tropeça, logo ao nascer, não só com a resistência passiva que lhe opõem as formas
tradicionais e as instituições políticas ajustadas a elas, mas também com as barreiras do velho regime de
distribuição. Por isso, devem esse regime e essa forma lutar duramente e durante largo espaço de tempo
até conquistar um sistema de distribuição adequado à nova modalidade de produção ou de troca. Mas,
quanto mais dinâmico e mais capaz de aperfeiçoamento e desenvolvimento for um determinado regime
de produção e de troca, mais depressa deverá alcançar também o regime de distribuição um grande
desenvolvimento que deixe para trás o regime seu progenitor, um grande progresso que se torne
incompatível com o regime antigo de troca e de produção. As velhas comunidades naturais, a que nos
referimos atrás, puderam viver milhares de anos, como aliás ainda perduram em nossos dias entre os
índios e muitos eslavos, antes que o comércio com o mundo exterior engendrasse em seu seio as
diferenças de patrimônio que deveriam acarretar a sua disposição. Ao contrário, a moderna produção
capitalista, que não conta mais de trezentos anos de existência e que não se impôs mesmo depois da
implantação da grande indústria, isto, é, até há uns cem anos, provocou, no entanto, durante este curto

Anti-Dürhring

file:///C|/site/LivrosGrátis/antiduring.htm (85 of 155) [05/04/2001 17:55:03]

período, muitos antagonismos no regime de distribuição - de um lado a concentração de capitais em
poucas mãos e, de outro, a concentração das massas não possuidoras nas cidades mais populosas, - de tal
modo que estes antagonismos necessariamente a farão perecer.
 A relação entre o regime de distribuição e as condições materiais de existência de uma determinada
sociedade está tão arraigada na natureza das coisas, que chega a se refletir, comumente, no instinto do
povo. Enquanto um regime de produção está-se desenvolvendo em sentido ascensional, pode contar até
mesmo com a adesão e a admiração entusiasta dos que menos beneficiados sairão com o regime de
distribuição ajustado a ele. Basta que se recorde o entusiasmo dos operários inglêses ao aparecer a grande
indústria. E mesmo depois que este regime de produção já consolidado, constitui, na sociedade de que se
trata, um regime normal, continua-se mantendo, em geral, algum contentamento com a forma de
distribuição e, se se ergue alguma voz de protesto, é das fileiras da classe dominante que ela sai
(Saint-Simon, Fourier, Owen), sem encontrar nem mesmo algum eco no seio da massa explorada. Há de
passar algum tempo - e encaminhar-se o regime de produção, já francamente pela vertente da decadência,
deve este regime já ter sido superado em parte. devem ter desaparecido, em grande proporção, as
condições que justificam a sua existência, estando mesmo tomando tal vulto o seu sucessor -, para que a
distribuição, cada vez mais desigual, seja considerada injusta, para que a voz da massa clame contra os
fatos do passado junto ao tribunal da chamada justiça eterna. Claro está que este apelo à moral e ao
direito não nos faz avançar cientificamente nem uma polegada; a ciência econômica não pode encontrar,
na indignação moral, por mais justificada que ela seja, nem razões nem argumentos, mas simplesmente
sintomas. A sua missão consiste exclusivamente em demonstrar que os novos abusos e males, que tomam
corpo na sociedade, não são mais que outras tantas conseqüências obrigatórias do regime de produção em
vigor, ao mesmo tempo em que são indícios da proximidade de seu fim, tornando conhecidos os
elementos para a organização futura da produção e da troca, que já estão contidos no seio do regime
econômico que caminha a passo largos para a sua dissolução, e na qual esses males e abusos terão que
desaparecer. A cólera provocada no poeta tem a sua razão de ser quando se trata de descrever esses males
e abusos, ou de atacar os "harmonizadores" que pretendem negá-los ou atenuá-los em benefício da classe
dominante mas, para compreender como a cólera prova pouco em cada caso, basta que se considere que,
até hoje, em todas as épocas da História, houve matéria de sobra para alimentar os seus impulsos.
 Mas a Economia Política, concebida como a ciência das condições e das formas sob as quais as
diversas sociedades humanas produzem e trocam os seus produtos, e sob as quais se distribuem os
produtos, esta Economia Política, nestes termos concedida, com tal amplitude, está ainda por se criar.
Tudo o que até hoje possuímos de ciência econômica se reduz quase exclusivamente à gênese e ao
desenvolvimento