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e a comerciar, sob as condições
historicamente condicionadas de então.
 Tendo já ocasião de conhecer, de sobra, ao nosso "fundamentador crítico", Sr. Dühring, bem como a
seu método, por tê-lo visto operar no campo da filosofia, não nos é difícil predizer como ele apresentará
as suas concepções na Economia Política. No terreno da filosofia, quando não dizia simples disparates
(como o vimos fazer na Filosofia da Natureza), as suas idéias eram apenas uma caricatura das do século
XVIII. Para ele não existiam leis de desenvolvimento histórico, mas apenas leis naturais, verdades
eternas. As instituições sociais, como a moral e o direito, não eram determinadas pela localização dentro
das condições históricas reais de cada época, mas pela ajuda prestada por aqueles dois homens famosos,
dos quais um oprimia fatalmente o outro, embora até hoje esta suposição não se tenha dado nunca,
infelizmente, na realidade. Não estaremos errados, pois, se, dessas idéias, deduzirmos que a Economia se
baseia também, no modo de ver do Sr. Dühring, em verdades definitivas e inapeláveis, em leis naturais e
eternas, em axiomas tautológicos da mais desolada inutilidade, sem, entretanto, deixar de logo nos
ofertar, pelas portas do fundo, todo o conteúdo positivo da Economia, na medida em que dele tem
conhecimento; nem tampouco nos enganaremos ao supormos que, para o Sr. Dühring, a distribuição,
concebida como fenômeno social, não é derivada da produção e da troca, mas se constrói e fica
definitivamente resolvida por meio dos dois célebres homens. E, como se trata de artifícios que já
conhecemos bastante, não será preciso que nos estendamos em seu exame.
 Com efeito, já na página 2 O Sr. Dühring declara que a sua Economia mantém estreita relação com o
estabelecido em sua filosofia e se "baseia, em alguns pontos essenciais, nas verdades superiores, já
assentadas num campo mais alto de investigação". Sempre o mesmo empenho em nos convencer de sua
grandeza. Sempre as mesmas ponderações sobre o "assentado" e "estabelecido", pelo mesmo Sr.
Dühring. Já tivemos ocasiões de sobra para ver como é que "assenta" e "estabelece" as suas verdades o
Sr. Dühring.
 A seguir deparamos com "as leis naturais mais gerais de toda a Economia". Nossas previsões não
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tinham sido pois desmentidas. Mas estas leis naturais só nos permitem compreender exatamente a
história passada, sempre e quando as "investiguemos sob essa determinação precisa que as formas
políticas de submissão e agrupação imprimiram então a seus resultados. Instituições como a escravidão e
a exploração do trabalho assalariado, às quais se vem unir, com sua irmã gêmea, a propriedade baseada
na força, devem ser investigados como formas constitutivas econômico-sociais, de autêntico caráter
político, formando as mesmas, no mundo atual, o quadro fora do qual não se poderiam revelar os efeitos
das leis naturais da Economia".
 Toda esta tirada complicada é apenas a fanfarra que anuncia, como tema wagneriano a entrada em
cena dos dois famosos homens, Porém, é, além disso, o tema fundamental do todo o livro do Sr. Dühring.
Ao tratar do Direito, não pode o Sr. Dühring oferecer-nos nada mais que uma péssima tradução da teoria
rousseauniana da igualdade para a linguagem socialista; em qualquer taberna de operários de Paris
poder-se-ia encontrar uma adaptação muito melhor. Neste novo capítulo, ele nos oferece uma tradução
socialista, igualmente má, das lamentações dos economistas a respeito do fracasso das leis naturais e
eternas da Economia e dos efeitos causados pela intromissão do Estado e da força. Neste terreno, o Sr.
Dühring está como socialista, por inteiro, completamente, merecidamente. Qualquer operário socialista
de qualquer país sabe perfeitamente que a força ampara a exploração, mas que não lhe dá origem, que a
sua exploração tem a raiz nas relações entre o capital e o trabalho assalariado e que estas relações tiveram
a sua origem num terreno puramente econômico, e não na simples violência.
 Prosseguindo a leitura, verificamos que, em todos os problemas econômicos, "podemos distinguir
duas trajetórias, a da produção e a da distribuição". E que o conhecido e superficial economista Jean
Baptiste Say acrescenta a estas duas uma terceira trajetória, a do consumo, mas sem chegar a dizer nada
de inteligente a respeito dela, nem mais nem menos que o seu sucessor. E, finalmente, verificamos que a
troca ou circulação não é mais que um capítulo da produção, devendo entrar nesse capítulo tudo o que se
deve fazer para que os produtos cheguem às mãos do último e verdadeiro consumidor. O Sr. Dühring, ao
identificar dois processos tão substancialmente diferentes, embora mutuamente condicionados, como são,
de fato, a produção e a circulação, afirmando, sem sombra de dúvida, que, se não se aceitar essa mistura
dos dois capítulos; está-se criando uma "fonte de confusão", não faz mais que demonstrar que ignora por
completo, ou não compreende, o gigantesco desenvolvimento a que atingiu, nos últimos anos, a
circulação, ignorância e incompreensão que vemos confirmadas por toda a sua obra. Mas, não contente
com isto, não contente por deixar, sob a mesma rubrica de produção, à produção e à circulação, apresenta
a distribuição ao lado da produção, como um segundo processo perfeitamente independente, que nada
tem a ver com aquele. Como já vimos, a distribuição é sempre, em suas formas mais importantes, um
fruto necessário do regime de produção e de troca, vigente numa determinada sociedade, de acordo com
a condição histórica prévia desta mesma sociedade, de tal modo que, conhecendo esta condição podemos
concluir com toda a exatidão qual o regime de distribuição que impera nessa sociedade. Mas
reconheçamos desde logo que o Sr. Dühring por não querer trair os princípios "assentados" em sua
concepção da Moral, do Direito e da História, não tinha outro remédio, senão negar este fato econômico
elementar, preparando assim também o terreno para fazer-nos escorregar, na Economia, para o campo de
seus dois insubstituíveis homens. Assim, desligada já, felizmente, a distribuição de todo o contato com a
produção e a troca, pode, então, realizar-se, por fim o grande acontecimento.
 Recordemos, antes, porém, como se desenvolveu a coisa no terreno da Moral e do Direito. Começava
aí o Sr. Dühring por manobrar com um só homem, dizendo: "Um homem, na qualidade de indivíduo, ou
seja, desligado de toda a conexão com quaisquer outros homens, não pode ter deveres. Não há, para ele,
outros imperativos que o de sua vontade." Quem há de ser este homem, desligado de seus deveres e
concebido como indivíduo isolado a não ser o fatal "protojudeu Adão" ainda no paraíso, despido de todo
o pecado, pela simples razão de não ter com quem cometê-lo? Mas também a este Adão, da Economia da
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realidade, está reservado o seu pecado original. Ao lado dele surge, não uma Eva de longos cabelos
encaracolados, mas um segundo Adão. E imediatamente Adão adquire deveres e logo os desrespeita. Em
vez de estreitar contra o peito o seu irmão, como um seu igual, submete-o logo ao seu domínio,
escraviza-o. É este primeiro pecado, este pecado original da escravidão, é o pecado cujas conseqüências
ainda vêm sendo sentidas por toda a história do mundo, e tal é a causa por que esta história não valha,
segundo o Sr. Dühring, nem uma cadelinha qualquer.
 Recordemos, incidentalmente, que o Sr. Dühring dava de ombros. pejorativamente, à "negação da
negação", na qual ele via um eco grotesco do velho mito do pecado original e da redenção. Que havemos
de pensar agora desta sua novíssima edição do mesmo mito? (pois, como veremos dentro em pouco, até o
mito da redenção foi por ele utilizado). Em todo o caso, preferimos desde já a versão semítica, na qual,
pelo menos,