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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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devendo entrar nesse capítulo tudo o que se
deve fazer para que os produtos cheguem às mãos do último e verdadeiro consumidor. O Sr. Dühring, ao
identificar dois processos tão substancialmente diferentes, embora mutuamente condicionados, como são,
de fato, a produção e a circulação, afirmando, sem sombra de dúvida, que, se não se aceitar essa mistura
dos dois capítulos; está-se criando uma "fonte de confusão", não faz mais que demonstrar que ignora por
completo, ou não compreende, o gigantesco desenvolvimento a que atingiu, nos últimos anos, a
circulação, ignorância e incompreensão que vemos confirmadas por toda a sua obra. Mas, não contente
com isto, não contente por deixar, sob a mesma rubrica de produção, à produção e à circulação, apresenta
a distribuição ao lado da produção, como um segundo processo perfeitamente independente, que nada
tem a ver com aquele. Como já vimos, a distribuição é sempre, em suas formas mais importantes, um
fruto necessário do regime de produção e de troca, vigente numa determinada sociedade, de acordo com
a condição histórica prévia desta mesma sociedade, de tal modo que, conhecendo esta condição podemos
concluir com toda a exatidão qual o regime de distribuição que impera nessa sociedade. Mas
reconheçamos desde logo que o Sr. Dühring por não querer trair os princípios "assentados" em sua
concepção da Moral, do Direito e da História, não tinha outro remédio, senão negar este fato econômico
elementar, preparando assim também o terreno para fazer-nos escorregar, na Economia, para o campo de
seus dois insubstituíveis homens. Assim, desligada já, felizmente, a distribuição de todo o contato com a
produção e a troca, pode, então, realizar-se, por fim o grande acontecimento.
 Recordemos, antes, porém, como se desenvolveu a coisa no terreno da Moral e do Direito. Começava
aí o Sr. Dühring por manobrar com um só homem, dizendo: "Um homem, na qualidade de indivíduo, ou
seja, desligado de toda a conexão com quaisquer outros homens, não pode ter deveres. Não há, para ele,
outros imperativos que o de sua vontade." Quem há de ser este homem, desligado de seus deveres e
concebido como indivíduo isolado a não ser o fatal "protojudeu Adão" ainda no paraíso, despido de todo
o pecado, pela simples razão de não ter com quem cometê-lo? Mas também a este Adão, da Economia da

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realidade, está reservado o seu pecado original. Ao lado dele surge, não uma Eva de longos cabelos
encaracolados, mas um segundo Adão. E imediatamente Adão adquire deveres e logo os desrespeita. Em
vez de estreitar contra o peito o seu irmão, como um seu igual, submete-o logo ao seu domínio,
escraviza-o. É este primeiro pecado, este pecado original da escravidão, é o pecado cujas conseqüências
ainda vêm sendo sentidas por toda a história do mundo, e tal é a causa por que esta história não valha,
segundo o Sr. Dühring, nem uma cadelinha qualquer.
 Recordemos, incidentalmente, que o Sr. Dühring dava de ombros. pejorativamente, à "negação da
negação", na qual ele via um eco grotesco do velho mito do pecado original e da redenção. Que havemos
de pensar agora desta sua novíssima edição do mesmo mito? (pois, como veremos dentro em pouco, até o
mito da redenção foi por ele utilizado). Em todo o caso, preferimos desde já a versão semítica, na qual,
pelo menos, os dois personagens, o homem e a mulher, saíam lucrando alguma coisa por ter deixado de
lado a inocência primitiva, embora tenhamos de reconhecer que ninguém disputará ao Sr. Dühring a
glória de ter construído o pecado original da maneira mais original do mundo: com dois homens.
 Detenhamo-nos um momento, porém, para escutar a tradução do pecado original para a linguagem
econômica: "Para a idéia da produção, basta, desde o início, que se represente um Robinson que,
enfrentando isoladamente a natureza, só por meio de suas forças, nada tem a partilhar com ninguém; isto
não basta como esquema especulativo... Existe a mesma conveniência em se representar o que há de mais
substancial na idéia da distribuição pelo esquema especulativo de duas pessoas, cujas forças econômicas
se combinam, vendo-se naturalmente forçadas a se substituir reciprocamente, sob uma forma ou outra,
em relação às suas participações. É, de fato, suficiente, este simples dualismo para se poder expor, com
todo o rigor, algumas das relações mais importantes de distribuição e para se poder estudar,
embrionariamente, as suas leis, em sua necessidade lógica... Pode-se, igualmente, conceber aqui a
cooperação num pé de igualdade, com a qual, a combinação das forças, mediante a total opressão de uma
das partes, vendo-se esta, neste caso, dominada como escrava ou como mero instrumento de serviço
econômico, somente sustentada na qualidade de instrumento... Entre o estado da igualdade e o da
anulação de uma das partes, ao lado da onipotência e da participação ativa da outra, medeia toda uma
série de graus que os fenômenos da história universal se encarregaram de preencher com uma pitoresca
variedade. Uma vista de olhos universal sobre as diferentes instituições do direito e da injustiça
históricos, torna-se aqui uma condição prévia essencial..." Assim, pois, todo o problema da distribuição
converte-se, finalmente, num "direito econômico de distribuição".
 Pisa finalmente o Sr. Dühring em terreno firme. de mãos dadas com os seus dois insubstituíveis
homens, pode ele levar de vencida a todo o seu século. Por detrás do triunvirato que se forma, ergue-se
um anônimo. "Não foi o capital que inventou a mais-valia. Onde quer que uma parte da sociedade
possua o monopólio dos meios de produção, o operário, livre ou escravo, não tem outro remédio senão
acrescentar ao tempo, de trabalho para o seu sustento uma quantidade de trabalho excedente, destinaria a
produzir os meios de vida para o proprietário dos meios de produção, quer se trate de um caloscágatos
ateniense, um teocrata etrusco, um civis romanus (cidadão romano) quer de um barão da Normandia, um
escravagista americano, um Senhor feudal da Waláquia, um proprietário de terras moderno ou do um
moderno capitalista." (Marx, O Capital, t. I, segunda edição, pág. 227).
 Depois de verificar por este caminho qual era a forma fundamental de exploração, comum a todas as
formas de produção até a nossa época - desde que baseadas em antagonismos de classes, - não precisava
o Sr. Dühring senão pôr em ação os seus dois homenzinhos e com apenas isso ficavam armados os
alicerces "radicais" de sua Economia da realidade. E não vacilou ele nem um momento na execução desta
idéia criadora de sistema". Eis o ponto central: trabalho sem remuneração após ter sido gasto o tempo de
trabalho necessário para a conservação do operário. O nosso Adão, agora convertido em Robinson, põe a
trabalhar o segundo Adão, ou seja, o "Sexta-feira". Porém, como "Sexta-feira" há de se prestar a

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trabalhar mais do que o necessário para o seu sustento? Esta pergunta parece que foi também respondida,
em parte pelo menos, por Marx. Entretanto, a resposta de Marx é demasiada prolixa para os nossos dois
homens. Resolve-se o assunto com mais facilidade. Robinson "oprime" o "Sexta-feira", espolia-o "como
um escravo ou instrumento, posto ao serviço econômico", e somente o sustenta "na qualidade de
instrumento". Com esta novíssima "manobra criadora", mata o Sr. Dühring dois coelhos com uma só
cajadada. Em primeiro lugar, poupa-se ao trabalho do explicar-nos as diversas formas de distribuição que
se sucedem na história, com suas diferenças e suas respectivas causas. Basta que se saiba que todas estas
formas são reprováveis, pois todas elas descansam na opressão, na violência, sobre isso teremos
oportunidade de falar mais adiante. Em segundo lugar, desloca toda a teoria da distribuição, do terreno
econômico para o da Moral e do Direito, ou seja, do terreno dos fatos materiais concretos e decisivos
para o das