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Disciplina:Filosofia e Ética2.204 materiais65.570 seguidores
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opiniões e sentimentos mais ou menos flutuantes. Nesta situação, já não se precisa molestar
em investigações e demonstrações bastando-lhe recitar vastas tiradas declamatórias e exigir que a
distribuição dos produtos do trabalho se ajuste, não às causas reais. mas ao que ele Dühring, considera
justo e moral. Mas o que o Sr. Dühring considera justo não é, de modo algum, algo de imutável, distando
muito de ser uma autêntica verdade, pois estas, segundo a sua opinião, "não são nunca imutáveis". Em
1868, o Sr. Dühring afirmava ("O destino de minha memória social", etc.) que "na tendência de qualquer
civilização superior, está o modelamento da propriedade em traços cada vez mais definidos", e que "nisto
e não numa confusão de direitos e de esferas de influência" se baseava "o caráter e o futuro da evolução
moderna". E afirmava, também, que não podia simplesmente compreender como a transformação do
trabalho assalariado num regime diferente de subsistência, poderia chegar a ser, de qualquer modo,
compatível com as leis da natureza humana e da estrutura natural e necessária do organismo social.
Como vemos, em 1868. a propriedade privada e o trabalho assalariado eram instituições naturais e
necessárias e, portanto, justas. Em 1876, eram ambas, pelo contrário, resultado da violência e do roubo, e
portanto,injustas. Não é nada fácil saber o que será considerado moral e justo, dentro de alguns anos, por
um gênio tão vertiginoso como esse. Se quisermos, assim, estudar a distribuição das riquezas, será
melhor que nos restrinjamos às leis reais e objetivas da Economia, e não às idéias momentâneas,
mutáveis e subjetivas do Sr. Dühring, no que diz respeito ao Direito e à injustiça.
 No que diz respeito à revolução, que se aproxima e que transformará o atual regime de distribuição
dos produtos do trabalho, com todos os seus clamorosos contrastes de miséria e abundância, fome e
dissipação, se contássemos apenas com a consciência de que esse regime de distribuição é injusto e de
que, cedo ou tarde, o direito e a injustiça acabariam por triunfar poderíamos, então, esperar
tranqüilamente sentados. Os místicos da Idade Média, aqueles que sonhavam com a proximidade do
reino milenar, já tinham consciência dessa injustiça, a consciência da injustiça dos antagonismos de
classe. Nos primórdios da história moderna, há uns trezentos e cinqüenta anos, ergueu-se a voz de
Thomas Munzer, clamando contra esta injustiça. O mesmo grito novamente ressoa e perde-se na
Revolução Inglesa e na Revolução burguesa da França. O grito, que até 1830 não tinha comovido ainda
as massas trabalhadoras e oprimidas, encontra hoje eco em milhões de homens, abalando um por um,
todos os países, na mesma ordem e com a mesma intensidade com que, nesses países, se vai
desenvolvendo a grande indústria, e chega a atingir, no decurso de uma geração, uma força tal, que pode
desafiar todos os poderes coligados contra ele, estando mesmo seguro da vitória definitiva num futuro
próximo. Cabe-nos perguntar agora: A que se deve isso? Simplesmente ao fato de que a grande indústria
moderna engendrou, por um lado, o proletariado, classe que se pôde levantar, pela primeira vez na
história, para exigir a abolição, não de uma ou de outra organização concreta de classe, não de tal ou qual
privilégio concreto de classe, mas de todas as classes em geral; essa classe, pelas próprias circunstâncias,
é obrigada a impor essa abolição, sob pena de ficar reduzida à situação em que se encontram os coolies
na China. Por outro lado, a grande indústria cria a burguesia; classe que ostenta o monopólio de todos os

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instrumentos de produção e meios de vida, ficando demonstrado, em cada período de saturação e nas
crises que lhes são subseqüentes, que é já incapaz de continuar a governar as forças produtivas, que
fogem ao seu controle; essa classe, sob cujo controle a sociedade corre, vertiginosamente, para a ruína,
como se fosse uma locomotiva, na qual o maquinista não tem mais força suficiente para abrir nenhuma
válvula de segurança. Ora, por outras palavras: a onda de rebeldia é devida a que as forças produtivas
engendradas, tanto pelo moderno regime capitalista de produção, como também pelo sistema de
distribuição de riquezas, por ele criado, estão em flagrante contradição com esse regime de produção,
numa contradição tão irredutível que, necessariamente, deverá se produzir uma transformação radical no
regime de produção e de distribuição, arrastando para o abismo todas as diferenças de classe, se é que a
sociedade moderna não quer perecer. Neste fato material e tangível, que se impõe, dentro de limites mais
ou menos claros, através de uma irresistível necessidade, nos cérebros dos proletários vítimas da
exploração, nesse fato e não nas idéias e maquinações de um erudito especulador sobre o Direito e a
Justiça, é que se evidencia a certeza de que o socialismo moderno terá de triunfar.

Capítulo II - TEORIA DA VIOLÊNCIA
 "A relação entre a política geral e as formações do direito econômico é determinada, em meu sistema,
de uma forma tão decisiva e tão original que não será demais ressaltá-la aqui, para facilitar a sua
compreensão. A configuração das relações políticas é historicamente fundamental, e as dependências
econômicas nada mais são que um efeito ou caso especial, sendo, portanto, sempre, fatos de segunda
ordem. Muitos dos sistemas socialistas modernos têm, como principio diretivo, a aparência de uma
relação totalmente inversa, que salta aos nossos olhos, fazendo com que os estados econômicos surjam,
digamos, das subordinações políticas. Esses efeitos de segunda classe existem, sem dúvida, como tais, e
são especialmente sensíveis nos tempos atuais; mas o elemento primário deve ser encontrado no poder
político imediato e não no poder econômico indireto". E a mesma doutrina se reflete noutro trecho em
que o Sr. Dühring "extrai da tese de que os estados políticos são a causa decisiva da situação econômica
e de que a relação inversa representa somente uma repercussão de segunda ordem .. Enquanto não se
considerem os agrupamentos políticos, por si mesmos,, como pontos de partida, considerando-os pelo
contrário, exclusivamente, como meios para fins ligados à subsistência, por mais radical, mais socialista
e mais revolucionário que se queria aparecer, continuar-se-á a esconder uma boa dose camuflada de
reação."
 Tal é a teoria do Sr. Dühring. Teoria que, neste como em muitos outros trechos, ele se limita a
formular e, quase poderíamos dizer, a decretar. Em nenhum dos três tomos de sua obra, apesar de tão
volumosos, pode ser encontrada a mais leve intenção de demonstrá-la ou de refutar a opinião contrária à
sua. Ainda que os argumentos fossem baratos como amoras, o Sr. Dühring não nos forneceria nenhum
em apoio à sua tese. Para que fornecê-los se tudo está tão suficientemente demonstrado pelo famoso
pecado original, em que víamos Robinson escravizar "Sexta-feira"? Esta escravização era um ato de
violência e, portanto, um ato político. E, como esse ato de dominação é o ponto de partida e o fato
fundamental de toda a história até os nossos dias, introduzindo nela o pecado original da injustiça,
embora um pouco atenuado ao se converter mais tarde "nas formas bem mais indiretas da dependência
econômica", e, como desse avassalamento primitivo brota toda a "propriedade baseada na força", que
vem até hoje imperando, é evidente que os fenômenos econômicos têm a sua raiz em causas políticas e,
mais concretamente, na violência. E quem não se conformar com essas deduções é um reacionário
camuflado.
 Observemos, antes de mais nada, que é necessário estar muito cheio de si, como o Sr. Dühring, para
afirmar que esta teoria é "original", quando ela não o é de modo algum. A crença de que os atos políticos

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dos chefes e do Estado são um fator decisivo da História é uma crença tão antiga como a própria