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os dois personagens, o homem e a mulher, saíam lucrando alguma coisa por ter deixado de
lado a inocência primitiva, embora tenhamos de reconhecer que ninguém disputará ao Sr. Dühring a
glória de ter construído o pecado original da maneira mais original do mundo: com dois homens.
 Detenhamo-nos um momento, porém, para escutar a tradução do pecado original para a linguagem
econômica: "Para a idéia da produção, basta, desde o início, que se represente um Robinson que,
enfrentando isoladamente a natureza, só por meio de suas forças, nada tem a partilhar com ninguém; isto
não basta como esquema especulativo... Existe a mesma conveniência em se representar o que há de mais
substancial na idéia da distribuição pelo esquema especulativo de duas pessoas, cujas forças econômicas
se combinam, vendo-se naturalmente forçadas a se substituir reciprocamente, sob uma forma ou outra,
em relação às suas participações. É, de fato, suficiente, este simples dualismo para se poder expor, com
todo o rigor, algumas das relações mais importantes de distribuição e para se poder estudar,
embrionariamente, as suas leis, em sua necessidade lógica... Pode-se, igualmente, conceber aqui a
cooperação num pé de igualdade, com a qual, a combinação das forças, mediante a total opressão de uma
das partes, vendo-se esta, neste caso, dominada como escrava ou como mero instrumento de serviço
econômico, somente sustentada na qualidade de instrumento... Entre o estado da igualdade e o da
anulação de uma das partes, ao lado da onipotência e da participação ativa da outra, medeia toda uma
série de graus que os fenômenos da história universal se encarregaram de preencher com uma pitoresca
variedade. Uma vista de olhos universal sobre as diferentes instituições do direito e da injustiça
históricos, torna-se aqui uma condição prévia essencial..." Assim, pois, todo o problema da distribuição
converte-se, finalmente, num "direito econômico de distribuição".
 Pisa finalmente o Sr. Dühring em terreno firme. de mãos dadas com os seus dois insubstituíveis
homens, pode ele levar de vencida a todo o seu século. Por detrás do triunvirato que se forma, ergue-se
um anônimo. "Não foi o capital que inventou a mais-valia. Onde quer que uma parte da sociedade
possua o monopólio dos meios de produção, o operário, livre ou escravo, não tem outro remédio senão
acrescentar ao tempo, de trabalho para o seu sustento uma quantidade de trabalho excedente, destinaria a
produzir os meios de vida para o proprietário dos meios de produção, quer se trate de um caloscágatos
ateniense, um teocrata etrusco, um civis romanus (cidadão romano) quer de um barão da Normandia, um
escravagista americano, um Senhor feudal da Waláquia, um proprietário de terras moderno ou do um
moderno capitalista." (Marx, O Capital, t. I, segunda edição, pág. 227).
 Depois de verificar por este caminho qual era a forma fundamental de exploração, comum a todas as
formas de produção até a nossa época - desde que baseadas em antagonismos de classes, - não precisava
o Sr. Dühring senão pôr em ação os seus dois homenzinhos e com apenas isso ficavam armados os
alicerces "radicais" de sua Economia da realidade. E não vacilou ele nem um momento na execução desta
idéia criadora de sistema". Eis o ponto central: trabalho sem remuneração após ter sido gasto o tempo de
trabalho necessário para a conservação do operário. O nosso Adão, agora convertido em Robinson, põe a
trabalhar o segundo Adão, ou seja, o "Sexta-feira". Porém, como "Sexta-feira" há de se prestar a
Anti-Dürhring
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trabalhar mais do que o necessário para o seu sustento? Esta pergunta parece que foi também respondida,
em parte pelo menos, por Marx. Entretanto, a resposta de Marx é demasiada prolixa para os nossos dois
homens. Resolve-se o assunto com mais facilidade. Robinson "oprime" o "Sexta-feira", espolia-o "como
um escravo ou instrumento, posto ao serviço econômico", e somente o sustenta "na qualidade de
instrumento". Com esta novíssima "manobra criadora", mata o Sr. Dühring dois coelhos com uma só
cajadada. Em primeiro lugar, poupa-se ao trabalho do explicar-nos as diversas formas de distribuição que
se sucedem na história, com suas diferenças e suas respectivas causas. Basta que se saiba que todas estas
formas são reprováveis, pois todas elas descansam na opressão, na violência, sobre isso teremos
oportunidade de falar mais adiante. Em segundo lugar, desloca toda a teoria da distribuição, do terreno
econômico para o da Moral e do Direito, ou seja, do terreno dos fatos materiais concretos e decisivos
para o das opiniões e sentimentos mais ou menos flutuantes. Nesta situação, já não se precisa molestar
em investigações e demonstrações bastando-lhe recitar vastas tiradas declamatórias e exigir que a
distribuição dos produtos do trabalho se ajuste, não às causas reais. mas ao que ele Dühring, considera
justo e moral. Mas o que o Sr. Dühring considera justo não é, de modo algum, algo de imutável, distando
muito de ser uma autêntica verdade, pois estas, segundo a sua opinião, "não são nunca imutáveis". Em
1868, o Sr. Dühring afirmava ("O destino de minha memória social", etc.) que "na tendência de qualquer
civilização superior, está o modelamento da propriedade em traços cada vez mais definidos", e que "nisto
e não numa confusão de direitos e de esferas de influência" se baseava "o caráter e o futuro da evolução
moderna". E afirmava, também, que não podia simplesmente compreender como a transformação do
trabalho assalariado num regime diferente de subsistência, poderia chegar a ser, de qualquer modo,
compatível com as leis da natureza humana e da estrutura natural e necessária do organismo social.
Como vemos, em 1868. a propriedade privada e o trabalho assalariado eram instituições naturais e
necessárias e, portanto, justas. Em 1876, eram ambas, pelo contrário, resultado da violência e do roubo, e
portanto,injustas. Não é nada fácil saber o que será considerado moral e justo, dentro de alguns anos, por
um gênio tão vertiginoso como esse. Se quisermos, assim, estudar a distribuição das riquezas, será
melhor que nos restrinjamos às leis reais e objetivas da Economia, e não às idéias momentâneas,
mutáveis e subjetivas do Sr. Dühring, no que diz respeito ao Direito e à injustiça.
 No que diz respeito à revolução, que se aproxima e que transformará o atual regime de distribuição
dos produtos do trabalho, com todos os seus clamorosos contrastes de miséria e abundância, fome e
dissipação, se contássemos apenas com a consciência de que esse regime de distribuição é injusto e de
que, cedo ou tarde, o direito e a injustiça acabariam por triunfar poderíamos, então, esperar
tranqüilamente sentados. Os místicos da Idade Média, aqueles que sonhavam com a proximidade do
reino milenar, já tinham consciência dessa injustiça, a consciência da injustiça dos antagonismos de
classe. Nos primórdios da história moderna, há uns trezentos e cinqüenta anos, ergueu-se a voz de
Thomas Munzer, clamando contra esta injustiça. O mesmo grito novamente ressoa e perde-se na
Revolução Inglesa e na Revolução burguesa da França. O grito, que até 1830 não tinha comovido ainda
as massas trabalhadoras e oprimidas, encontra hoje eco em milhões de homens, abalando um por um,
todos os países, na mesma ordem e com a mesma intensidade com que, nesses países, se vai
desenvolvendo a grande indústria, e chega a atingir, no decurso de uma geração, uma força tal, que pode
desafiar todos os poderes coligados contra ele, estando mesmo seguro da vitória definitiva num futuro
próximo. Cabe-nos perguntar agora: A que se deve isso? Simplesmente ao fato de que a grande indústria
moderna engendrou, por um lado, o proletariado, classe que se pôde levantar, pela primeira vez na
história, para exigir a abolição, não de uma ou de outra organização concreta de classe, não de tal ou qual
privilégio concreto de classe, mas