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Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.812 seguidores
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historiografia e a ela se deve particularmente o fato de que saibamos tampouco a respeito da silenciosa
evolução que impulsiona realmente os povos e que se oculta no fundo de todas as cenas ruidosas. Esta
crença presidiu toda a História antiga até que, na época da Restauração, os historiadores burgueses lhe
assestaram o primeiro golpe. O que é original é que o Sr. Dühring ignore tudo isso, como de fato o
ignora.
 Além disso, mesmo admitindo, por um momento, que o Sr. Dühring tenha razão ao afirmar que toda a
História, até aos nossos dias, tem as suas raízes na escravização do homem pelo homem, não
chegaríamos, desse modo, nem aproximadamente, ao ponto nevrálgico da questão. Surgiria
imediatamente a pergunta: que levou Robinson a escravizar "Sexta-feira"? Fez Isso apenas por diversão?
Sabemos que não. O que se nos afirma, pelo contrário, é que "Sexta-feira" era "espoliado como escravo,
ou como simples instrumento para serviço econômico, e mantido somente na categoria de instrumento".
Robinson, portanto, escraviza "Sexta-feira" para que este trabalhe em seu beneficio. E como pôde
Robinson se aproveitar do trabalho de "Sexta-feira"? Somente conseguindo que "Sexta-feira" crie, por
seu próprio trabalho, mais meios de vida do que os que Robinson possui para lhe fornecer, a fim de que
se mantenha em condições para trabalhar. Isto é, Robinson, contra as prescrições expressas e imperativas
do Sr. Dühring "não toma como ponto de partida um agrupamento político" criado por meio da
escravização de "Sexta-feira", "por si mesmo considerando-o, pelo contrário, exclusivamente, como
meios para fins ligados à subsistência", e agora, ele que procure entender-se com o seu dono e Senhor.
 Vemos, pois, que o exemplo pueril, expressamente inventado pelo Sr. Dühring para nos provar que a
violência é um fator "historicamente fundamental", na realidade nos demonstra que este fator nada mais é
que o meio, enquanto que o fim está precisamente no proveito econômico. E, finalmente, tudo o que tem
de "fundamental" em relação aos meios empregados para alcançá-lo, também tem de fundamental, na
História, o aspecto econômico da relação entre os dois homens, comparado com o aspecto político. O
exemplo citado demonstra, pois, justamente, o contrário do que o seu autor pretendia demonstrar, A
mesma coisa que, como vemos, acontece com Robinson e "Sexta-feira", pode ser observada com todos
os casos de poder e avassalamento de que nos fala a História. A escravização tem sido sempre, para
empregar a elegante expressão do Sr. Dühring, um "meio para fins ligados à subsistência" (concebida a
subsistência em seu sentido mais amplo), sem ter sido em parte alguma um "agrupamento político",
implantado graças a si mesmo. É preciso que se seja um Sr. Dühring para se poder imaginar que os
impostos cobrados pelos Estados não são mais que "efeitos de segunda ordem" e que o "agrupamento
político" de nossos dias, que coloca, de um lado, a burguesia poderosa e, de outro lado, o proletariado
oprimido, chegou a existir graças a si mesmo, e não como conseqüência dos "fins de subsistência" dos
burgueses dominantes, ou seja, pela produção de lucro e acumulação do capital.
 Voltemos. porém. aos nossos dois homens. Robinson, "com a espada na mão", escraviza
"Sexta-feira". Mas, para que seja um fato a escravização, Robinson necessita de alguma coisa a mais que
a simples espada. Nem a todos os tipos de senhores lhes são úteis seus escravos. Para que possam
servir-se deles torna-se necessário duas coisas: em primeiro lugar, os instrumentos e objetos necessários
para o seu trabalho, e, em segundo lugar, os meios indispensáveis para o seu sustento. Assim pois, antes
de se instituir a escravidão,. para que esta seja mesmo possível, é mister que a produção tenha alcançado
já um certo grau de progresso e que, na distribuição, tenha sido atingido um certo grau de desigualdade.
E, para que o trabalho dos escravos possa converter-se em regime de produção predominante em toda a
sociedade, é preciso que, nesta, a produção, o comércio e a acumulação de riquezas se tenham
desenvolvido num grau já muito superior. Nas primitivas comunidades naturais, organizadas sobre o
regime da propriedade coletiva do solo, ou não pôde a escravidão existir, sob nenhuma forma ou, então,
desempenhou esta instituição papel muito secundário. Acontecia o mesmo na antiga Roma, quando esta

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era uma cidade de camponeses. Mais tarde, ao converter-se numa "cidade universal", e ao concentrar a
propriedade do solo da península itálica, cada vez mais intensamente, nas mãos de uma classe pouco
numerosa de proprietários de terra riquíssimos, a primitiva população de camponeses cedeu lugar a uma
população de escravos. Sabemos que, nos tempos da guerra dos Persas, o número de escravos se elevava,
em Corinto, a 460.000 e em Egina, a 470.000, chegando a haver 10 escravos para cada cidadão livre. É
evidente que para chegar a este estado de coisas, não bastava usar a "violência", mas, pelo contrário,
devia fazer falta uma indústria artística e artesanal muito desenvolvida, ao lado de uma extensa rede
comercial. Nos Estados Unidos da América a escravidão não descansava nem no uso da violência, nem
na existência da indústria inglesa do algodão. Nas regiões não algodoeiras e que não se dedicavam, como
os Estados litorâneos, à manutenção de escravos, destinados aos Estados algodoeiros, foi-se extinguindo
a escravidão por si mesma, sem apelar para a violência, pela simples razão de que não era rendosa.
 Quando, portanto, o Sr. Dühring diz que a instituição moderna da propriedade está baseada na
violência e a define como "aquela forma de poder que não exclui o semelhante do uso dos meios naturais
da vida, mas também, o que é muito importante esta instituição está baseada no avassalamento do
homem como servo", está o Sr. Dürhing virando as coisas pelo avesso. O avassalamento do homem
como servo, qualquer que seja a forma que apresente, pressupõe, em quem o avassala, o poder de dispor
sobre os meios de trabalho, sem os quais o servo não lhe serviria para nada, e pressupõe, na instituição da
escravidão, além disso, o poder de dispor dos meios de vida indispensáveis para o sustento do escravo.
Pressupõe, assim. de qualquer maneira, um certo nível patrimonial superior ao grau médio de fortuna.
Perguntamos, agora, de onde .é que saiu esta diferença? É fora de dúvida que pôde ter saído do roubo,
isto é, da violência, mas esta não é a única explicação possível Pode também ser o fruto do trabalho, do
furto, ou de uma transação comercial ou de uma fraude. Ainda mais: para que alguma coisa possa ser
roubada é mister tenha alguém criado, com o seu trabalho, aquilo que se lhe rouba.
 A propriedade privada não surge na História nem como fruto do roubo e da violência nem como coisa
parecida. Muito ao contrário, a propriedade privada, embora limitada a certos objetos, já existe nas
comunas naturais primitivas, na origem de todos os povos civilizados. Começa por se desenvolver, ainda
no seio destas comunidades, pela troca efetuada com os membros de outras comunas, sob a forma de
mercadoria. E quanto mais se acentua a forma de mercadoria nos produtos da comuna, ou, o que vem a
ser o mesmo, quanto maior for a proporção em que estes artigos sejam produzidos para a troca, e não
para serem consumidos pelo próprio produtor, quanto mais esta troca fez substituindo ainda no seio da
própria comuna, o regime primitivo e natural da divisão do trabalho, se vai cada vez mais acentuando,
também, a desigualdade na situação de riqueza dos diferentes membros da comunidade, tanto mais se vai
minando e solapando o velho regime de propriedade coletiva do solo e, mais rapidamente, encaminha-se
a comunidade para a sua dissolução, para se converter finalmente numa aldeia que é constituída por
lavradores, proprietários de suas réstias de terra. O despotismo oriental e a constante mudança de
poderes, de uns para outros povos nômades conquistadores,