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pois que, se, por um lado,
considerava como suposto essencial da concepção histórica, segundo a qual a história humana é um
processo de desenvolvimento que não pôde, por sua própria natureza, encontrar solução intelectual no
descobrimento disso que se chama de verdades absolutas, por outro, se nos apresenta precisamente como
resumo e compêndio de uma dessas verdades absolutas, Um sistema universal e compacto,
definitivamente plasmado, no qual se pretende enquadrar a ciências da natureza e da história, é
Anti-Dürhring
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incompatível com as leis da dialética. Isso, entretanto, não exclui, mas, ao contrário, faz com que o
conhecimento sistemático do mundo exterior, em sua totalidade, possa progredir, a passos gigantescos,
de geração em geração.
 A consciência da total inversão em que o idealismo alemão incorrera, necessariamente, tinha que
levar ao materialismo, Mas, note-se bem, não se trata do materialismo puramente metafísico e
exclusivamente mecânico do século XVIII Afastando-se da simples repulsa, candidamente
revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê, na história, o processo de
desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas tem por encargo descobrir. E, desviando-se da
idéia da natureza que dominava entre os franceses do século XVIII, da mesma forma que da idéia
concebida por Hegel, idéia pela qual se considerava a natureza como um todo permanente e inalterável,
com mundos eternos que se moviam dentro de um estreito ciclo, tal como a representava Newton, e com
espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinava Lineu, o materialismo moderno resume e
sistematiza os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também a sua
história no tempo e os mundos, as espécies e os organismos, que, em condições propícias, o habitam,
nascem e morrem, e onde os ciclos, na medida em que sejam admissíveis, se revestem de dimensões
infinitamente mais grandiosas. Tanto num como noutro caso, o materialismo moderno é
substancialmente dialético e já não há necessidade de uma filosofia superior para as demais ciências.
Desde o instante em que cada ciência tenha que se colocar no quadro universal das coisas e do
conhecimento delas, já não há margem para uma ciência que seja especialmente consagrada a estudar as
concatenações universais. Tudo o que resta da antiga filosofia, com existência própria, é a teoria do
pensamento e de suas leis: a lógica formal e a dialética. Tudo o mais se dissolve na ciência positiva da
natureza e da história.
 A nova etapa das ciências naturais, entretanto, só conseguiu impor-se na medida em que a
investigação lhe fornecia materiais positivos correspondentes, e, enquanto isso, já há muito tempo, se
haviam revelado certos fatos históricos que abalaram decisivamente o modo de encarar a história. Em
1931, rompe, em Lyon, a primeira sublevação operária e, de 1838 a 1842, o primeiro movimento
operário nacional, o dos cartistas ingleses, alcança o seu apogeu. A luta de classes entre o proletariado e a
burguesia passou a ocupar o primeiro plano na história dos países europeus mais avançados, no mesmo
ritmo em que se desenvolvia a grande indústria e em que se firmava a hegemonia política da burguesia
recentemente conquistada. Os fatos vinham desmentir, cada vez mais categoricamente, as doutrinas
econômicas burguesas sobre a identidade de interesses entre o capital e o trabalho e sobre a harmonia
universal e o bem-estar geral das nações como fruto da livre concorrência.
 Esses fatos não podiam passar desapercebidos, assim como não podia ser ignorado o socialismo
francês e o inglês, que eram a sua expressão teórica, embora ainda bastante imperfeita. Mas a velha
concepção idealista da história, que ainda não havia sido abandonada, não podia reconhecer sequer
interesses materiais de qualquer espécie. Para ela, a produção, como todos os outros fatores econômicos,
só existia como acessório, como elemento secundário dentro da "história cultural". Os novos fatos, que a
realidade revelava, obrigaram a uma revisão de toda a história antiga e, dessa maneira, ficou
demonstrado que a história havia sido, sempre uma história de luta de classes e que estas classes em luta
foram, em todas as épocas, condições de produção e de troca, ou seja, fruto das condições econômicas e
que a estrutura econômica da sociedade em todos os fatos da história era, portanto. a base real sobre a
qual se erigia, em última instância, todo o edifício das instituições jurídicas e políticas, da ideologia
filosófica, religiosa, etc.. de cada período histórico. Assim, o idealismo via-se despojado de seu último
reduto na ciência histórica. Lançava-se os alicerces para uma concepção materialista e abria-se o
caminho para verificar-se que a existência é quem determina a consciência do homem e não é a
consciência quem determina a existência, como se afirmava tradicionalmente.
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 Verificamos, assim, que o socialismo tradicional era incompatível com a nova concepção materialista
da história bem como a concepção dos materialistas franceses, sobre a natureza, não podia coexistir com
a dialética moderna e com as novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo críticava o regime
capitalista de produção existente e suas conseqüências, mas não conseguiu explicá-lo e, portanto,
também não o poderia destruir, limitando-se apenas a repudiá-lo, simplesmente, como imoral. Era
preciso, porém, entender esse regime capitalista de produção em suas conexões históricas, como um
regime necessário para uma determinada época da história, demonstrando, com isso, ao mesmo tempo,
seu aspecto condicional histórico, a necessidade de sua extinção e do desmascaramento de todos os seus
disfarces, uma vez que os críticos anteriores se limitavam apenas a apontar os males que o capitalismo
engendrava em vez de assinalar as tendências das coisas a que obedeciam. A principal máscara, sob a
qual se disfarçava o capitalismo, caiu por terra com a descoberta da mais-valia. Esta descoberta revelou
que o regime capitalista de produção e a exploração dos operários que dele se origina tinham, como base
fundamental, a apropriação do trabalho não pago. Revelou ainda que o capitalista, mesmo supondo-se
que comprasse a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que representava
como mercadoria no mercado, e que este excedente do valor, esta mais-valia era, em última instância, a
soma do valor de que provinha a massa cada vez maior do capital acumulado nas mãos das classes
possuidoras. Desde então, o processo da produção capitalista e o da criação do capital já não continham
nenhum segredo.
 Estas duas descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção
capitalista que se resume na mais-valia são devidas a Karl Marx. Graças a estas descobertas, o socialismo
converte-se numa ciência, que não é preciso senão desenvolver em todos os seus detalhes e
concatenações.
 Era esse, mais ou menos, o sentido com que se apresentavam as coisas no campo do socialismo
teórico e da decadente filosofia, quando o Senhor Eugênio Dühring veio à cena e anunciou, com o
auxílio de tambores e fanfarras, a total subversão da filosofia, da economia política e do socialismo,
subversão feita unicamente por ele.
 Vejamos, agora, o que o Senhor Dühring promete e... o que cumpre.
Capítulo II - O QUE PROMETE O SR. DÜHRING
 As obras do Sr. Dühring, que devemos, por ora, tomar em consideração para a nossa análise, são:
Curso de Filosofia, Curso de Economia Política e Social e a História Crítica da Economia Política e do
Socialismo. No momento, interessa-nos principalmente a primeira das obras por nós citadas.
 Já na primeira página, o Sr. Dühring se nos anuncia como o homem "que se outorga a