Gasto privado com saude por classes de renda
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Gasto privado com saude por classes de renda

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Saúde. Saúde pública. Gasto com saúde.

IIIIINTRODUÇÃONTRODUÇÃONTRODUÇÃONTRODUÇÃONTRODUÇÃO
A implantação do Sistema Único de Saúde

(SUS) coincidiu com o corte das verbas públi-
cas que acompanhou a política econômica
antiestatizante e liberalizante do país nos anos
90. A universalização da assistência médica no
Brasil, teoricamente, deveria elevar o grau de
cobertura do sistema público de saúde. Con-
cretamente, contudo, as restrições financeiras
e a deterioração dos serviços públicos de saú-
de permitiram a segmentação do mercado e o
crescimento expressivo da assistência médica
suplementar no país1,2.

O gasto privado com saúde é dividido entre
gasto privado das famílias e gasto privado das
empresas. De acordo com os dados da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)3,
podemos estimar em R$ 37,9 bilhões o gasto
privado anual com saúde das famílias em 1998,
que inclui gastos com planos de saúde, consultas
médicas, consultas com outros profissionais de
saúde, exames, medicamentos, artigos orto-
pédicos e aparelhos médicos, óculos e lentes,
odontologia, hospitais, enfermagem domiciliar
e outros gastos com saúde.

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro
em 1998 foi estimado em R$ 899,8 bilhões a
preços correntes (Bacen, 2000: 15)4. A parti-
cipação do gasto privado com saúde das famí-
lias, desta forma, pode ser estimada em 4,2%
do PIB de 1998.

Corrêa et al.5 estimaram em 3,6% o gasto
privado com saúde das famílias em relação ao
PIB de 1996. Para esta estimativa, os autores
utilizaram o gasto direto das famílias com saúde
da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do
IBGE nas nove regiões metropolitanas, Brasília
e Goiânia (extrapolada para o Brasil).

O gasto privado com saúde das empresas, por
sua vez, foi estimado em 0,7% do PIB de 19965. A
partir das estimativas do gasto privado com saúde
das famílias em 1998 da PNAD/98 e do gasto
privado com saúde das empresas para 1996, pode-
mos estimar o gasto privado total com saúde de
1998 em R$ 44,2 bilhões ou 4,9% do PIB - o Banco
Mundial (2000)6 estimou em 4% a participação do
gasto privado com saúde no PIB do Brasil em 1998.

A partir da PNAD do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE)3, o presente ar-
tigo analisa a participação do gasto privado
com saúde das famílias no PIB e na renda
familiar per capita por classes de renda; e a
distribuição do gasto privado com saúde das
famílias entre categorias de gasto com saúde.

No decorrer deste trabalho, faremos ain-

*Cor re spondênc ia :*Co r re spondênc ia :*Co r re spondênc ia :*Co r re spondênc ia :*Co r re spondênc ia :
R. Marquês de Paranaguá, 164/602

01303-050 – São Paulo – SP – Tel.:(11) 3256-6996
skil@pucsp.br

da algumas considerações sobre a distribuição
entre gasto público e privado com saúde no
Brasil e em alguns países selecionados.

MMMMMÉTODOSÉTODOSÉTODOSÉTODOSÉTODOS
A PNAD levantou em 1998 as característi-

cas de saúde dos moradores que incluem infor-
mações sobre o grau de cobertura dos planos
de saúde e o gasto privado com saúde das
famílias distribuído em 11 categorias: planos de
saúde, consultas médicas, consultas com outros
profissionais de saúde, exames, medicamentos,
artigos ortopédicos e aparelhos médicos, óculos
e lentes, odontologia, hospitais, enfermagem
domiciliar e outros gastos com saúde.

A amostra da PNAD de 1998 foi composta
por 344.975 pessoas que, a partir do processo
de expansão da amostra, correspondem a
158,2 milhões de brasileiros (excluída a popu-
lação rural da antiga Região Norte).

A partir dos microdados da PNAD, o gasto
privado total com saúde das famílias foi
anualizado, considerando-se que o gasto em
medicamentos refere-se a gastos no mês de
setembro de 1998 (30 dias) e o gasto nas
demais categorias refere-se a gastos entre ju-
lho e setembro de 1998 (três meses). Dado
que a maior parte do gasto privado com saúde
das famílias foi realizado entre julho e setem-
bro de 1998, e que o deflator implícito do PIB

Rev Assoc Med Bras 2002; 48(3): 258-62 259

GASTO PRIVADO COM SAÚDE

foi de 4,3% durante todo o exercício de
19984, não se fazem necessários ajustes para o
cálculo da participação percentual do gasto
privado com saúde das famílias no PIB.

A distribuição pessoal da renda pode ser
apresentada, de forma geral, como: a) distri-
buição do rendimento entre pessoas econo-
micamente ativas; b) distribuição do rendi-
mento entre famílias; e c) distribuição do ren-
dimento familiar per capita da população. Para
a análise do nível de bem-estar da população,
a distribuição do rendimento familiar per
capita da população é a mais apropriada7.

A PNAD permite dividir a população bra-
sileira por classes de renda familiar per capita.
Neste trabalho utilizamos quatro classes de
renda familiar mensal per capita: até 1 salário
mínimo; mais de 1 a 3 salários mínimos; mais
de 3 a 9 salários mínimos; e mais de 9 salários
mínimos. O presente artigo analisa a participa-
ção do gasto privado com saúde das famílias no
total da renda e a distribuição do gasto privado
com saúde das famílias entre as 11 categorias
pesquisadas pela PNAD nas quatro classes de
renda familiar per capita acima definidas.

RRRRRESULTADOSESULTADOSESULTADOSESULTADOSESULTADOS EEEEE DISCUSSÃODISCUSSÃODISCUSSÃODISCUSSÃODISCUSSÃO

Distribuição da renda familiarDistribuição da renda familiarDistribuição da renda familiarDistribuição da renda familiarDistribuição da renda familiar
per capitaper capitaper capitaper capitaper capita

Dos 158,2 milhões de brasileiros em 1998
(excluída a população rural da antiga Região
Norte), nossa distribuição da renda familiar
per capita inclui 153,1 milhões de pessoas. As
5,2 milhões de pessoas excluídas da nossa
análise correspondem a pessoas em famílias
sem declaração de renda familiar (4 milhões),
agregados (0,6 milhões), pensionistas (0,1 mi-
lhões) e empregados domésticos e parentes
de empregados domésticos (0,4 milhões).

A renda familiar per capita destes 153,1
milhões de pessoas atingia uma média mensal
de R$ 253,95 em 1998, mas a mediana regis-
trava apenas R$ 126,67. Para a distribuição da
renda familiar mensal per capita, estes 153,1
milhões de pessoas foram divididos nas quatro
classes mencionadas: até 1 salário mínimo
(classe 1); mais de 1 a 3 salários mínimos (classe
2); mais de 3 a 9 salários mínimos (classe 3); e
mais de 9 salários mínimos (classe 4).

De acordo com a Tabela 1, mais da metade da
população (52,5%) recebia até R$ 130,00 de renda
familiar per capita, ou seja, um salário mínimo em
1998. A classe 2, que recebia mais de R$ 130,00 a

R$ 390,00 por pessoa, somava 31,7% da popula-
ção; a classe 3, que recebia mais de R$ 390,00 a R$
1.170,00 per capita, somava 12,7% da população;
e a classe 4, que recebia mais de R$ 1.170,00
per capita, somava 3,2% da população.

É importante considerar que apenas 3,2% da
população brasileira, que correspondem a 4,8
milhões de pessoas, pertenciam a famílias com
uma renda familiar per capita superior a R$
1.170,00. Uma família composta por três pessoas
com uma renda familiar superior a R$ 3.501,00
em 1998, estaria incluída na classe 4 (o tamanho
médio da família na classe 4 era de 2,5 pessoas em
1998). Cabe lembrar, como salienta Hoffmann7,
que pessoas relativamente ricas para a distribui-
ção de renda no Brasil costumam se considerar
“pobres” ou, quando muito, “classe média”.

A classe 4 representava 3,2% da população,
mas recebia 27,0% do total da renda de todas as
classes, enquanto a classe 1, que representava
52,5% da população, recebia apenas 13,2% do
total da renda de todas as classes.

Renda familiar e distribuição doRenda familiar e distribuição doRenda familiar e distribuição doRenda familiar e distribuição doRenda familiar e distribuição do
gasto privado com saúde dasgasto privado com saúde dasgasto privado com saúde dasgasto privado com saúde dasgasto privado com saúde das
famílias por categoriasfamílias por categoriasfamílias por categoriasfamílias por categoriasfamílias por categorias

Em 1998, o gasto privado anual com saúde
das famílias foi de R$ 37,9 bilhões para o total
de