2_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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2_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY


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que, aliás, parecem pressupostas por Harvey em suas considerações: a primeira é de 
ordem metodológica; a segunda esclarece sobre o estatuto ontológico da acumulação. 
A orientação metodológica de que falamos constitui o cerne de nossa exposição 
e aponta, a priori, para a permanente necessidade de se vislumbrar o fenômeno da 
acumulação capitalista e sua conseqüente organização espacial na totalidade intensiva 
de suas implicações \u2013 na acepção de Hegel. Claro está que, por maiores que fossem os 
esforços dos que pesquisam nesta área, jamais se chegaria a um suposto esgotamento do 
tema, em função não só de sua complexidade, mas principalmente de sua 
processualidade histórica. Ao contrário do que sugere uma farta gama de vertentes das 
teorias do conhecimento, isso não se deve, pois, a uma determinada limitação do sujeito 
epistêmico, cujas conseqüências na tradição filosófica se estendem desde o empirismo 
sensualista ao irracionalismo cético. Essa incompletude se deve, sem mais, à condição 
histórica das relações humano-societárias, cuja dialética real deve ser apreendida em seu 
movimento próprio, objetivo. Temos aí, pois, o desdobrar-se de uma continuidade 
descontínua que impõe como lei a permanente necessidade de repor para o pensamento 
a novidade objetiva do real. Por isso mesmo, 
o conhecimento dialético tem [...] o caráter da mera aproximação; e isso 
porque a realidade é constituída pela infinita interação de complexos que 
têm relações heterogêneas em seu interior e com seu exterior, relações que 
são por sua vez sínteses dinâmicas de componentes freqüentemente 
heterogêneos, cujo número de momentos ativos pode ser infinito. 
(LUKÁCS, 1979, p. 108-109). 
Se o conhecimento do real é sempre e necessariamente aproximativo isso não 
quer dizer uma sua impossibilidade de apanhar a malha causal do real. É o que sugere 
Lukács, logo em seguida, ao afirmar que \u201cessa estrutura do ser social não implica de 
modo algum na impossibilidade de conhecê-lo\u201d. (idem.: 109). E isso porque, dentre 
essas relações \u201cque são por sua vez sínteses dinâmicas de componentes freqüentemente 
heterogêneos\u201d, é possível destacar quais componentes categoriais3 operam com 
prioridade ontológica numa totalidade cujo momento predominante se configura 
dinamicamente no processo de auto-constituição do \u201ccomplexo de complexos\u201d que é o 
ser social. 
Este recurso à abstração - como procedimento investigativo - permite-nos 
apreender, por exemplo, o cerne das transformações desencadeadas desde 1970 que 
levaram à crise estrutural do capitalismo, um fenômeno histórico cujas determinações 
reverberam por toda estrutura social, da escala local à mundial, redefinindo não só as 
 
3 Diferente dos conceitos lógicos e puros (ou como tipos ideais), as \u201ccategorias\u201d - escreve Lukács, citando 
Marx, \u201csão formas de ser, determinações da existência\u201d (1979).