3_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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3_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY


DisciplinaGeografia Econômica1.289 materiais18.730 seguidores
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tradicionais formas organizacionais da produção - duramente sentidas pelos 
desempregados de hoje - mas, a partir e muito além disso, reordenando simultaneamente 
os complexos ideológicos em geral (política, direito, ética, moral, filosofia, educação, 
etc.). E isso necessariamente como unidade de uma totalidade objetiva, concreta, cuja 
apreensão dos nexos causais reais, por sua vez, proporciona ao pensamento a condição 
de reflexo científico da realidade e à própria realidade o estatuto de concreto pensado, 
como foi dito anteriormente. 
Por isso mesmo, Harvey (1992) chama a atenção para as importantes mudanças 
que se vêm processando nas práticas culturais e político-econômicas no seio do 
capitalismo contemporâneo, apontando precisamente para a ubiqüidade relacional 
existente entre os fatos da vida econômica, social, política e suas manifestações no 
plano dos valores morais e estéticos. Assim, afirma com precisão: 
há algum tipo de relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-
modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um 
novo ciclo de 'compressão do tempo-espaço' na organização do capitalismo. 
(HARVEY, 1993, p. 47). 
 Esta \u201crelação necessária\u201d, que tem para Harvey caráter nodal na questão, 
desnuda não só o movimento unitário da realidade, mas fundamentalmente o momento 
predominante exercido pelo capital no processo histórico-concreto de reprodução da 
formação social burguesa. Para substanciar esta tese, procuraremos no caminho de ida 
da investigação que segue fazer uso daquilo que Marx chamou abstrações razoáveis. 
No caminho de volta, a inter-relação das categorias apanhadas configurará, 
paulatinamente, uma totalidade orgânica, cujo sentido emerge da relação que mantém 
com a tendência enredada como momento predominante4. 
Até aqui, esboçamos, da maneira que nos foi possível, a preocupação 
metodológica referida anteriormente. O que segue diz respeito ao estatuto ontológico da 
determinação fundante sobre a qual se erige a acumulação capitalista: o processo de 
trabalho. 
 
1.2. Um breve excurso ontológico: o trabalho como categoria fundante do ser social 
 
 
4 Esta é uma discussão que sequer pode ser anunciada apropriadamente numa nota como esta. Assim 
mesmo, resta óbvio, não nos referimos a um sentido hegeliano da história, no qual uma teleologia 
transcendental impõe aos homens um destino férreo. Muito menos remetemos aqui a uma historiografia 
das mentalidades, tendendo, pois, à impossibilidade de apreensão da totalidade, dado que o sentido da 
história reside, segundo esta concepção, na experiência quase solipsista dos indivíduos. Para nós, como 
dissemos, o sentido objetivo da totalidade configura-se a partir da relação que seu movimento unitário 
mantém com o momento predominante, com a tendência que, como síntese das contradições em curso, 
define o sentido deste movimento. Cf. Lukács (1979).