3_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY
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3_ A TEORIA DA CRISE E A PRODUÇÃO CAPITALISTA DO ESPAÇO EM DAVID HARVEY

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tradicionais formas organizacionais da produção - duramente sentidas pelos

desempregados de hoje - mas, a partir e muito além disso, reordenando simultaneamente

os complexos ideológicos em geral (política, direito, ética, moral, filosofia, educação,

etc.). E isso necessariamente como unidade de uma totalidade objetiva, concreta, cuja

apreensão dos nexos causais reais, por sua vez, proporciona ao pensamento a condição

de reflexo científico da realidade e à própria realidade o estatuto de concreto pensado,

como foi dito anteriormente.

Por isso mesmo, Harvey (1992) chama a atenção para as importantes mudanças

que se vêm processando nas práticas culturais e político-econômicas no seio do

capitalismo contemporâneo, apontando precisamente para a ubiqüidade relacional

existente entre os fatos da vida econômica, social, política e suas manifestações no

plano dos valores morais e estéticos. Assim, afirma com precisão:
há algum tipo de relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-
modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um
novo ciclo de 'compressão do tempo-espaço' na organização do capitalismo.
(HARVEY, 1993, p. 47).

 Esta “relação necessária”, que tem para Harvey caráter nodal na questão,

desnuda não só o movimento unitário da realidade, mas fundamentalmente o momento

predominante exercido pelo capital no processo histórico-concreto de reprodução da

formação social burguesa. Para substanciar esta tese, procuraremos no caminho de ida

da investigação que segue fazer uso daquilo que Marx chamou abstrações razoáveis.

No caminho de volta, a inter-relação das categorias apanhadas configurará,

paulatinamente, uma totalidade orgânica, cujo sentido emerge da relação que mantém

com a tendência enredada como momento predominante4.

Até aqui, esboçamos, da maneira que nos foi possível, a preocupação

metodológica referida anteriormente. O que segue diz respeito ao estatuto ontológico da

determinação fundante sobre a qual se erige a acumulação capitalista: o processo de

trabalho.

1.2. Um breve excurso ontológico: o trabalho como categoria fundante do ser social

4 Esta é uma discussão que sequer pode ser anunciada apropriadamente numa nota como esta. Assim
mesmo, resta óbvio, não nos referimos a um sentido hegeliano da história, no qual uma teleologia
transcendental impõe aos homens um destino férreo. Muito menos remetemos aqui a uma historiografia
das mentalidades, tendendo, pois, à impossibilidade de apreensão da totalidade, dado que o sentido da
história reside, segundo esta concepção, na experiência quase solipsista dos indivíduos. Para nós, como
dissemos, o sentido objetivo da totalidade configura-se a partir da relação que seu movimento unitário
mantém com o momento predominante, com a tendência que, como síntese das contradições em curso,
define o sentido deste movimento. Cf. Lukács (1979).