assim falava zaratustra
113 pág.

assim falava zaratustra

Disciplina:Filosofia e Ética2.285 materiais67.812 seguidores
Pré-visualização50 páginas
suportar isto se não houvesse um amigo?
 Para o solitário o amigo é sempre o terceiro; o terceiro é a válvula que impede a conservação dos outros dois de se abismarem nas
profundidades.
 Ai! Existem demasiadas profundidades para todos os solitários. Por isso aspiram a um amigo e à sua altura.
 A nossa fé nos outros revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos. O nosso desejo de um amigo é o nosso delator.
 E freqüentemente, como a amizade, apenas se quer saltar por cima da inveja. E freqüentemente atacamos e criamos inimigos para
ocultar que nós mesmos somos atacáveis.
 “Sê ao menos meu inimigo!” — Assim, fala o verdadeiro respeito, o que se não atreve a solicitar a amizade.
 Se se quiser ter um amigo, é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser inimigo.
 É preciso honrar no amigo o inimigo. Podes aproximar-te do teu amigo sem passar para o seu bando?
 No amigo deve ver-se o melhor inimigo. Deves ser a glória do teu amigo, entregares-te a ele tal qual és? Pois é por isso que te manda
para o demônio!
 O que se não recata, escandaliza. “Deveis temer a mudez! Sim; se fosseis deuses, então poderíeis einvergonhar-vos dos vossos vestidos”.
 Nunca te adornarás demais para o teu amigo, porque deves ser para ele uma seta e também um anelo para o Super-homem.
 Já viste dormir o teu amigo para saberes como és? Qual é, então, a cara do teu amigo? É a tua própria cara num espelho tosco e
imperfeito.
 Já viste dormir o teu amigo? Não te assombrou o seu aspecto? Ó! meu amigo; o homem deve ser superado!
 O amigo deve ser mestre na adivinhação e no silêncio: não deves querer ver tudo. O teu sono deve revelar-te o que faz o teu amigo
durante a vigília.
 Seja a tua compaixão uma adivinhação: é mister que, primeiro que tudo, saibas se o teu amigo quer compaixão.
 Talvez em ti lhe agradem os olhos altivos e a contemplação da eternidade.
 Oculte-se a compaixão com o amigo sob uma rude certeza.
 Serás tu para o teu amigo ar puro e soledade, pão e medicina? Há quem não possa desatar as suas próprias cadeias, e todavia seja
salvador do amigo.
 És escravo? Então não podes ser amigo.
 És tirano? Então não podes ter amigos.
 Há demasiado tempo que se ocultavam na mulher um escravo e um tirano. Por isso a mulher ainda não é capaz de amizade; apenas
conhece o amor.
 No amor da mulher há injustiça e cegueira para tudo quanto não ama. E mesmo o amor, reflexo da mulher, oculta sempre, a par da
luz, a surpresa, o raio da noite.
 A mulher ainda não é capaz de amizade: as mulheres continuam sendo gatas e pássaros. Ou, melhor, vacas.
 A mulher ainda não é capaz de amizade. Mas dizei-me vós homens: qual de vós outros é, porventura, capaz de amizade?
 Ai, homens! que pobreza e avareza a da vossa alma! Quando vós outros dais a vossos amigos eu quero dar também aos meus inimigos
sem me tornar mais pobre por isso.
 Haja camaradagem. Haja amizade.”
 Assim falava Zaratustra.

file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/zara.rb/000000-zara.html (19 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

OS MIL OBJETOS E O ÚNICO OBJETO
 “Muitos países e muitos povos viu Zaratustra; assim descobriu o bem e o mal de muitos povos. Zaratustra não encontrou maior poder
na terra do que o bem e o mal.
 Nenhum poderia viver sem avaliar; mas, para se conservar não deve avaliar como o seu vizinho.
 Muitas coisas que um povo chama boas, eram para outros vergonhosas e desprezíveis; foi o que vi. Muitas coisas, aqui qualificadas de
más, além as enfeitavam com o manto de púrpura das honrarias.
 Nunca um vizinho compreendeu o outro; sempre a sua alma se assombrou da loucura e da maldade do vizinho.
 Sobre cada povo está suspensa uma tábua de bens. E vede: é a tábua dos triunfos dos seus esforços; é a voz da sua vontade de poder.
 É honroso o que lhe parece difícil; o que é indispensável e difícil chama-se bem, e o que livra de maiores misérias, o mais raro e difícil,
santifica-se.
 O que lhe permite reinar, vencer e brilhar com temor e inveja do seu vizinho, é para ele o mais elevado, o principal, a medida e o
sentido de todas as coisas.
 Verdadeiramente, se tu conheces a necessidade, o país, o céu e o vizinho de um povo, adivinhas também a lei dos seus triunfos e por que
razão sobe às suas esperanças por esses graus.
 “Deves ser sempre o primeiro a avantajar-se aos outros; a tua alma zelosa não deve amar ninguém senão o amigo”. — Isto fez tremer a
alma de um grego, e levou-o a seguir o caminho da grandeza.
 “Dizer a verdade e saber manejar bem o arco e as flechas”. — Isto parecia caro ao mesmo tempo que difícil ao povo donde vem o meu
nome, o nome que é para mim caro ao mesmo tempo que difícil.
 “Honrar pai e mãe, e ter para eles submissão”. Essa tábua das vitórias sobre si elegeu outro povo, e com ela foi eterno e poderoso.
 “Render culto à fidelidade, e pela fidelidade dar sangue e honra ainda tratando-se de coisas más e perigosas”. Por esse ensinamento
venceu-se a si mesmo outro povo, e a vencer-se assim chegou a encher-se de grandes esperanças.
 A verdade é que os homens se deram todo o seu bem e todo o seu mal. A verdade é que o não tomaram, que o não encontraram, que
lhes não caiu com uma voz do céu.
 O homem é que pôs valores nas coisas a fim de se conservar; foi ele que deu um sentido às coisas, um sentido humano. Por isso se
chama “homem” isto é, o que aprecia.
 Avaliar é criar. Ouvi, criadores! Avaliar é o tesouro e a jóia de todas as coisas avaliadas.
 Pela avaliação se dá o valor; sem a avaliação, a noz da existência seria oca. Ouvi-o, criadores!
 A mudança dos valores é mudança de quem cria.
 Sempre o que há de criar destrói.
 Os criadores, num princípio foram povos, e só mais tarde indivíduos. Na verdade, os indivíduos é a mais recente das criações.
 Povos suspenderam noutro tempo sobre si uma tábua do bem. O amor, que quer dominar, e o amor que quer obedecer, criaram juntos
essas tábuas.
 O prazer do rebanho é mais antigo que o prazer do Eu. E enquanto a boa consciência se chama rebanho, só a má diz: Eu.
 Na verdade, o Eu astuto, o Eu egoísta, que procura o seu bem no bem de muitos, este não é a origem do rebanho, mas a sua destruição.
 Sempre foram ardentes os que criaram o bem e o mal. O fogo do amor e o fogo da cólera ardem sob o nome de todas as virtudes.
 Muitos países e muitos povos viu Zaratustra. Não encontrou poder maior na terra que a obra dos ardentes; “bem e mal” é o seu nome.
 Na verdade, o poder desses elogios e destas censuras é semelhante a um monstro. Dizei-me, meus irmãos: Quem o derrubará? Dizei:
quem lançará uma cadeia sobre as mil cervizes dessa besta?
 Até ao presente têm havido mil objetos, porque têm havido mil povos. Só falta a cadeia das mil cervizes: falta o único objeto. A
humanidade não tem objeto.
 Mas dizei-me, irmãos: se falta objeto à humanidade, não é porque ela mesma ainda não existe?”
 Assim falava Zaratustra.

DO AMOR AO PRÓXIMO
 “Vós outros andais muito solícitos em redor do próximo, e manifestai-o com belas palavras. Mas eu vos digo: o vosso amor ao próximo
é vosso meu amor a vós mesmos.
 Fugis de vós em busca do próximo, e quereis converter isso numa virtude; mas eu compreendo o vosso “desinteresse”.
 O Tu é mais velho do que Eu; o Tu acha-se santificado, mas o Eu ainda não. Por isso o homem anda diligente atrás do próximo.
 Acaso vos aconselho o amor ao próximo? Antes vos aconselho a fuga do “próximo” e o amor ao remoto!
 Mais elevado que o amor ao próximo é o amor ao longínquo, ao que está por vir, mais alto ainda que o amor ao homem coloco o amor
às coisas e aos fantasmas.
 Esse fantasma que corre diante de vós, meus irmãos, é mais belo que vós. Por que lhe não dais a vossa carne e os vossos ossos? Mas
tende-lhes medo e fugis à procura do vosso próximo.
 Não vos suportais