assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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Que é, porém, a mulher para o homem?
 O verdadeiro homem quer duas coisas: o perigo e o divertimento. Por isso quer a mulher, que é o brinquedo mais perigoso.
 O homem deve ser educado para a guerra e a mulher para prazer do guerreiro. Tudo o mais é loucura.
 O guerreiro não gosta de frutos doces demais. Por isso a mulher lhe agrada: a mulher mais doce tem sempre o seu quê de amargo.
 A mulher compreende melhor do que o homem as crianças: mas o homem é mais infantil que a mulher.
 Em todo o verdadeiro homem se oculta uma criança: uma criança que quer brincar. Eia, mulheres! descobri no homem a criança!
 Seja a mulher um brinquedo puro e fino como o diamante, abrilhantado pelas virtudes de um mundo que ainda não existe.
 Cintile no vosso amor o fulgor de uma estrela! A vossa esperança que diga: “Nasça de mim, do Super-homem!”
 Haja valentia no vosso amor! Com o vosso amor deveis afrontar o que vos inspire medo.
 Cifre-se a vossa honra no vosso amor! Geralmente a mulher pouco entende de honra. Seja, porém, honra vossa amar sempre mais do
que fordes amadas e, nunca serdes a segunda.
 Tema o homem a mulher, quando a mulher odeia: porque, no fundo, o homem é simplesmente mau; mas a mulher é perversa.
 A que odeia mais a mulher? O ferro falava assim ao imã: “Odeio-te mais do que tudo porque atrais sem ser forte bastante para
sujeitar”.
 A felicidade do homem é: eu quero; a felicidade da mulher é: ele quer.
 “Vamos! Já nada falta no mundo!” — assim pensa a mulher quando obedece de todo o coração.
 E é preciso que a mulher obedeça e que encontre uma profundidade para a sua superfície. A alma da mulher é superfície: móvel e
tumultuosa película de águas superficiais.
 A alma do homem, porém, é profunda, a sua corrente brame em grutas subterrâneas; a mulher pressente a sua força mas não a
compreende”.
 Então a velha respondeu-lhe: “Zaratustra disse muitas coisas bonitas, mormente para as que são novas.
 Coisa singular! Zaratustra conhece pouco as mulheres, e, contudo, tem razão no que diz delas! Será porque nada é impossível na
mulher?
 E agora, como recompensa, aceita uma pequena verdade. Sou suficientemente velha para te dizer.
 Sufoca-a, tapa-lhe a boca, porque do contrário grita alto demais”.
 “Venha a tua verdade, mulher!” — disse eu, e a velha falou assim:
 “Acompanhas com as mulheres? Olha, não te esqueça o látego”.
 Assim falava Zaratustra.

A PICADA DA VÍBORA
 Um dia, estava Zaratustra a dormitar sob uma figueira, porque fazia calor, e tinha tapado o rosto com o braço. Nisto chegou uma
víbora, mordeu-lhe o pescoço, e ele soltou um grito de dor. Afastando o braço do rosto, olhou a serpente; ela reconheceu os olhos de
Zaratustra, contorceu-se vagarosamente e quis se retirar. “Não — disse Zaratustra: — espera, ainda não te agradeci! Despertaste-me a

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

tempo, pois o meu caminho ainda é longo”.
 — “O teu caminho é curto — disse tristemente a víbora: — o meu veneno mata”. Zaratustra pôs-se a rir. “Quando foi que o veneno de
uma serpente matou um dragão? — disse — reabsorve o teu veneno! Não és rica demais para me fazeres presente dele”. Então a víbora
tornou a enlaçar-lhe o pescoço e lambeu-lhe a ferida.
 Quando um dia Zaratustra contou isto aos seus discípulos, eles perguntaram-lhe: “E qual é a moral do teu conto?” Zaratustra
respondeu:
 “Os bons e os justos chamam-me o destruidor da moral: o meu conto é imoral.
 Se tendes, porém, um inimigo, não lhe devolvais bem por mal porque se sentiria humilhado; demonstrai-lhe, pelo contrário, que vos fez
um bem.
 E a ter que humilhar preferi encolerizar-vos. E quando se vos amaldiçoe, não me agrada que vós abençoeis. Amaldiçoai também.
 E se vos fizeram uma grande injustiça, fazei vós imediatamente cinco injustiças pequenas.
 Horroriza ver o que por si só sofre o peso da injustiça.
 Já sabeis isto? Injustiça repartida é semi-direito. E aquele que pode trazer a injustiça deve levá-la.
 Uma pequena vingança é mais humana do que nenhuma. E se o castigo não é somente um direito e uma honra para o transgressor, eu
não quero o vosso castigo.
 É mais nobre condenarmos do que teimar, mormente quando temos razão. Somente é preciso ser rico bastante para isso.
 Não me agrada a vossa fria injustiça: nos olhos dos vossos juizes transparece sempre o olhar do verdugo e seu gelado cutelo.
 Dizei-me: onde se encontra a justiça que é amor com olhos perspicazes?
 Inventai-me, pois, o amor que suporta, não só todos os castigos, mas também todas as faltas.
 Inventai-me a justiça que absolve todos, exceto aquele que julga!
 Quereis ouvir mais? No que quer ser verdadeiramente justo, a mentira muda-se em filantropia.
 Mas, como poderia eu ser verdadeiramente justo? Como poderia dar a cada um o seu?
 Basta-me isto: eu dou a cada um o meu.
 Enfim, irmãos livrai-vos de ser injustos com os solitários. Como poderia um solitário esquecer? Como poderia devolver?
 Um solitário é como um poço profundo. É fácil lançar nele uma pedra; mas se a pedra vai ao fundo quem se atreverá a tirá-la?
 Livrai-vos de ofender o solitário; mas se o ofendestes então, matai-o também!”
 Assim falava Zaratustra.

DO FILHO DO MATRIMÔNIO
 Tenho uma pergunta para ti só, meu irmão. Arrojo-a como uma sonda à tua alma, a fim de lhe conhecer a profundidade.
 És moço e desejas filho e matrimônio. Eu, porém, pergunto. Serás tu homem que tenha o direito de desejar um filho?
 Serás tu vitorioso, o vencedor de ti mesmo, o soberano dos sentidos, o dono das tuas virtudes?
 É isso o que eu te pergunto.
 Ou será que falam do teu desejo a besta e a necessidade física, ou o afastamento, ou a discórdia contigo mesmo?
 Eu quero que a tua vitória e a tua liberdade suspirem por um filho. Deves erigir monumento vivente à tua vitória e à tua libertação.
 Deves construir qualquer coisa que te seja superior.
 Primeiro que tudo, porém, é preciso que te hajas construído a ti mesmo, retangular de corpo e alma.
 Não deves só reproduzir-te, mas exceder-te! sirva-te para isso o jardim do matrimônio!
 Deves criar um corpo superior, um primeiro movimento, uma roda que gire sobre si; deves criar um criador.
 Matrimônio: chamo assim à vontade de dois criarem um que seja mais do que aqueles que o criaram. O matrimônio é o respeito
recíproco: respeito recíproco dos que coincidem em tal vontade.
 Seja este o sentido e a verdade do teu matrimônio; mas isso a que os que estão demais, os supérfluos, chamam matrimônio, isso como se
há de chamar?
 Ai! Que pobreza de alma entre dois! Que imundície de alma entre dois! Que mísera conformidade entre dois!
 A tudo isso chamam matrimônio, e dizem que contraem estas uniões no céu!
 Pois bem! Eu não quero esse céu dos supérfluos. Não; eu não quero essas bestas presas com redes divinas!
 Fique-se também por lá bem longe de mim esse Deus que vem coxeando abençoar aquilo que não uniu!
 Não vos riais de semelhantes matrimônios!
 Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?
 Certo homem pareceu-me digno e sensato para o sentido da terra, mas quando vi a mulher dele, a terra pareceu-me moradia de
insensatos.
 Sim; queria que a terra se convulsionasse quando se acasalam um santo e uma pata.
 Tal outro partiu como herói em busca de verdades e não trouxe por colheita senão uma mentira engalanada. Chamam a isso o seu
matrimônio.
 Este era frio nas suas relações e escolhia ponderadamente; mas de uma só vez transtornou para sempre a sua sociedade. A isso
chamam o seu matrimônio.
 Aquele procurava uma servente com as virtudes de um anjo; mas daí a pouco tornou-se servente de uma mulher, e agora precisava ele
tornar-se anjo.

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