assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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(23 of 113)29/09/2004 15:17:21

Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Vejo agora todos os compradores muito senhores de si e com olhos astutos; mas até o mais astuto compra a sua mulher às cegas.
 A muitas loucuras pequenas chamais amor. E o vosso matrimônio termina muitas loucuras pequenas para as tornar uma loucura
grande.
 O vosso amor à mulher e o amor da mulher pelo homem, ó! seja compaixão para deuses dolentes e ocultos! Duas bestas, porém, quase
sempre se adivinham.
 O vosso melhor amor, contudo, ainda não é mais do que uma imagem extasiada e um ardor doloroso. É um facho que vos deve
iluminar para caminhos superiores.
 Um dia deverá o vosso amor elevar-se acima de vós mesmos! Aprendei, pois, primeiro a amar! Por isso vos foi preciso beber o amargo
cálice do vosso amor.
 Existe amargura no cálice do melhor amor; assim vos faz desejar o Super-homem; assim tendes sede do criador.
 Sede do criador, seta e desejo do Super-homem; diz-me, meu irmão, é essa a tua vontade do matrimônio?
 Santa é para mim tal vontade, santo tal matrimônio”
 Assim falava Zaratustra.

DA MORTE LIVRE

 “Muitos morreram tarde demais, e alguns demasiado cedo. A doutrina que diz: “Morre a tempo!” ainda parece singular.
 Morre a tempo: eis o que ensina Zaratustra.
 Claro que aquele que nunca viveu a tempo, como há de morrer a tempo? O melhor é não nascer.
 Eis o que aconselho aos supérfluos.
 Até os supérfluos, contudo, se fazem importantes com a sua morte, e até a noz mais oca quer ser partida.
 Todos concedem importância à morte; mas a morte ainda não é uma festa. Os homens ainda não sabem como se consagram às mais
belas festas.
 Eu vos predico a morte necessária, a morte que, para os vivos, vem a ser um aguilhão e uma promessa.
 O que cumpre morre da sua morte, vitorioso, rodeado dos que esperam e prometem.
 Assim seria preciso aprender a morrer, e não deveria haver festa sem tal moribundo santificar os juramentos dos vivos.
 Morrer assim é o melhor, e morrer na luta é prodigalizar uma grande alma ainda maior.
 O combatente e o vitorioso, porém, odeiam igualmente a vossa morte espaventosa, que se vem arrastando como um ladrão, e que,
todavia, se aproxima como soberana.
 Faço-vos o elogio da minha morte, da morte livre, que vem porque eu quero.
 E quando hei de querer? O que tem um fim e um herdeiro, quer a morte a tempo para o fim e para o herdeiro.
 E por respeito ao fim e ao herdeiro, já não suspenderá coroas murchas no santuário.
 Na verdade, não me quero parecer com os cordeiros: estiram os seus fios e eles andam sempre atrás.
 Há também quem se faça velho demais para as suas verdades e as suas vitórias; uma boca desdentada já não tem direito a todas as
verdades.
 E o que queira desfrutar glória deve despedir-se a tempo das honras e exercer a difícil arte de se retirar oportunamente.
 É preciso fugir a deixar-se comer no próprio momento em que vos começam a tomar gosto. Os que querem ser amados muito tempo
sabem isso.
 Há também maçãs ácidas, cujo destino é esperar até o último dia do outono. E põem-se amarelas e enrugadas, no próprio momento em
que amadurecem.
 Nuns envelhece primeiro o coração, noutros a inteligência. E alguns são velhos na sua virtude; mas quando uma pessoa se faz moça
muito tarde, conserva-se moça muito tempo.
 Há quem fale na sua vida: um verme venenoso lhes rói o coração. Tratem ao menos de acertar na sua morte.
 Há os que nunca estão doces: apodrecem já no verão. É a covardia que os sustenta no ramo.
 Há demasiados que ficam e permanecem fixos num ramo excessivo tempo. Venha uma tempestade, que sacuda da árvore toda essa
podridão bichosa!
 Venham pregadores da morte rápida! Seriam as tempestades e as sacudidelas oportunas da árvore da vida. Eu, porém, só ouço pregar
a morte lenta e a paciência com tudo o que é terrestre. Ai! Pregais a paciência com o que é terrestre? O terrestre é o que tem demasiada
paciência convosco, blasfemos!
 Em verdade, morreu demasiado cedo aquele hebreu a quem honram os pregadores da morte lenta, e para muitos foi uma fatalidade ele
morrer cedo demais.
 Esse Jesus hebreu só conhecia ainda as lágrimas e a tristeza do hebreu, juntamente com o ódio dos bons e dos justos; por isso o
acometeu o desejo da morte.
 Por que não ficou ele no desterto, longe dos bons e dos justos? Talvez houvesse aprendido a viver e a amar a terra e também o riso!
 Crede-me, meus irmãos! Morreu cedo demais! retratar-se-ia da sua doutrina se tivesse vivido até minha idade! Era bastante nobre
para se retratar!
 Não estava, porém, ainda maduro. O amor do jovem carece da maduracão, e assim também odeia os homens e a terra. Tem ainda
presas e trôpegas a alma e as asas do pensamento.
 No homem, contudo, há mais de criança do que no jovem, e menos tristeza: compreende melhor a morte e a vida.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 Livre para a morte e livre na morte; divino negador, quando já não é tempo de afirmar: assim compreende a vida e a morte.
 Não seja a vossa morte uma blasfêmia contra os homens e contra a terra, meus amigos; eis o que exijo da doçura da vossa alma.
 Vosso espírito e vossa virtude devem inflamar até a vossa agonia, como o arrebol do poente inflama a terra; senão a vossa morte será
malograda.
 Assim quero morrer eu para que, por mim, ameis mais a terra, meus amigos: e eu quero tornar-me terra, para encontrar o meu
repouso naquela que me gerou.
 Na verdade, Zaratustra tinha um objetivo; lançou a péla. Agora, meus amigos, sois vós os herdeiros do meu objetivo; a vós envio a
dourada péla.
 Prefiro a tudo, meus amigos, ver-nos lançar a péla dourada. E por isso me demoro ainda um pouquinho na terra. Perdoai-me!”
 Assim falava Zaratustra.

DA VIRTUDE DADIVOSA

I

 Quando Zaratustra se despediu da cidade que o seu coração amava, a qual tem por nome a “Vaca Malhada”, muitos dos que se diziam
seus discípulos o acompanharam. Assim chegaram a uma encruzilhada. Então lhes disse Zaratustra que queria ficar só porque era amigo
das caminhadas solitárias. Ao despedirem-se dele, os discípulos ofereceram-lhe como prenda um bastão, cujo castão representava uma
serpente enroscada em torno do sol. Zaratustra aceitou-o alegremente, e apoiou-se nele. Depois falou assim aos discípulos:
 “Dizei-me: como alcançou o ouro o mais alto valor? E porque é raro e inútil, de brilho cintilante e brando: dá-se sempre.
 Só como símbolo da mais alta virtude o ouro alcançou o mais alto valor. É como o ouro, reluzente, o olhar daquele que dá. O brilho do
ouro firma a paz entre a lua e o sol.
 A mais alta virtude é rara e inútil: é resplandecente e de um brilho brando: uma virtude dadivosa é a mais alta virtude.
 Em verdade vos adivinho, meus discípulos: vós aspirais como eu à virtude dadivosa. Que podereis ter de comum com os gatos e com os
lobos?
 A vossa ambição é querer converter-vos, vós mesmos, em oferendas e presentes. Por isso desejais acumular todas as riquezas em vossas
almas.
 A vossa alma anela insaciavelmente tesouros e jóias, porque é insaciável a vontade de dar da vossa virtude.
 Obrigais todas as crises a aproximarem-se de vós e a penetrar em vós outros, para tornarem a emanar da vossa fonte como os dons do
vosso amor.
 Em verdade, é preciso que tal amor dadivoso se faça saqueador de todos os valores; mas eu chamo são e sagrado esse egoísmo.
 Há outro egoísmo, um egoísmo demasiado, pobre e famélico, que quer roubar sempre: o egoísmo dos doentes, o egoísmo enfermo.
 Com olhos de ladrão olha tudo o que reluz, com a aridez da fome mede o que tem abundantemente que comer, e sempre se arrasta à
roda da mesa do que dá.
 A doença é uma invisível degeneração, eis o que tal apetite demonstra; a avidez de roubo desse