assim falava zaratustra
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assim falava zaratustra

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egoísmo apregoa um corpo
valetudinário.
 Dizei-me, meus irmãos: qual é a coisa que nos parece má, a pior de todas? Não é a degeneração? E pensamos sempre na degeneração
quando falta a alma que dá.
 O nosso caminho é para cima: da espécie à espécie superior; mas o sentido que degenera, o sentido que diz: “Tudo para mim”,
assombra-nos.
 O nosso sentido voa para cima, assim o símbolo do nosso corpo é símbolo de uma elevação. Os símbolos dessas elevações são os nomes
das virtudes.
 Assim atravessa o corpo a história, lutando e elevando-se. E o espírito que é para o corpo? É o arauto das suas lutas e vitórias, o seu
companheiro e o seu eco.
 Todos os nomes do bem e do mal são símbolos; não falam, limitam-se a fazer sinais. Louco é o que lhes quer pedir o conhecimento.
 Meus irmãos, estai atentos às ocasiões em que o vosso espírito quer falar em símbolos: assistis então à origem da vossa virtude.
 Então é quando o vosso corpo se elevou e ressuscitou; então arrebata o espírito com os seus transportes para que se faça criador e
apreciador e amante, benfeitor de todas as coisas.
 Quando o nosso coração se agita, amplo e cheio, como o grande rio, bênção e perigo dos ribeirinhos, então assistis à origem da vossa
virtude.
 Quando vos elevais acima do louvor e da censura, e quando a vossa vontade, como vontade de um homem que ama e quer mandar em
todas as coisas, então assistis à origem da vossa virtude.
 Quando desprezais o que é agradável, a cama fofa, e quando nunca vos credes bastante longe da moleza para repousar, então assistis à
origem da vossa virtude.
 Verdadeiramente é um novo bem e mal! Verdadeiramente é um novo murmúrio profundo e a voz de um manancial novo!
 Essa nova virtude é poder; um pensamento reinante e em torno desse pensamento uma alma sagaz: um sol dourado, e em torno dele a
serpente do conhecimento”.

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

II

 Aqui Zaratustra calou-se um bocado e olhou os discípulos com amor. Em seguida prosseguiu assim. A voz havia-se-lhe transformado:
 “Meus irmãos, permanecei fiéis à terra com todo o poder da vossa virtude. Sirvam ao sentido da terra o vosso amor dadivoso e o vosso
conhecimento. Eu vo-lo rogo, e a isso vos conjuro.
 Não deixeis a vossa virtude fugir das coisas terrestres e adejar contra paredes eternas. Ai! Tem havido sempre tanta virtude extraviada!
 Restituí, como eu, à terra a virtude extraviada. Sim; restituí-a ao corpo e à vida, para que dê à terra o seu sentido, um sentido humano.
 A inteligência e a virtude têm-se extraviado e enganado de mil maneiras diferentes. Ainda agora residem no nosso corpo essa loucura e
esse engano: tornaram-se corpo e vontade.
 A inteligência e a virtude ensaiaram-se e extraviaram-se de mil maneiras diferentes. Sim; o homem era um ensaio. Ai! quantas
ignorâncias e erros se incorporam em nós.
 Não só a razão dos milenáríos, mas também a sua loucura aparece em nós. É perigoso ser herdeiro.
 Lutamos ainda passo a passo com o gigante azar e na humanidade inteira reinava até aqui a falta de sentido.
 Sirvam a vossa inteligência e a vossa virtude no sentido da terra, meus irmãos, e o valor de todas as coisas será renovado por vós. Para
isso deveis ser criadores!
 O corpo purifica-se pelo saber, eleva-se com o esforço inteligente: todos os instintos do que pensa e conhece se santificam; a alma do
que se eleva alvoroça-se.
 Médico, ajuda-te a ti mesmo; assim, ajudas também o teu doente. Seja a melhor assistência do doente ver com os seus próprios olhos o
que se cura a si mesmo.
 Há mil sendas que nunca foram calcadas, mil fontes de saúde e mil terras ocultas na vida. Ainda se não descobriram nem esgotaram o
homem nem a terra dos homens.
 Vigiai e escutai, solitários! Sopros de adejos secretos chegam do futuro, e a ouvidos apurados chega uma fausta mensagem.
 Solitários de hoje, vós, os afastados, sereis um povo algum dia. Vós que vos haveis entrescolhido a vós mesmos, formareis um dia um
povo eleito do qual nascerá o Super-homem.
 Em terra, a terra far-se-á um dia um lugar de cura. Já a envolve um odor novo, um eflúvio de saúde e uma nova esperança”.

III

 Ditas estas palavras, Zaratustra emudeceu, como quem ainda não disse a última palavra. Sopesou demoradamente o bastão, como que
perplexo. Por fim falou assim, e a voz havia-se-lhe transformado:
 “Agora, meus discípulos, vou-me embora sozinho! Ide-vos, vós outros, sozinhos também! Assim o quero.
 Com toda a sinceridade vos dou este conselho: Afastai-vos de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda: envergonhai-vos
dele! Talvez vos haja enganado!
 O homem que reflexiona não só deve amar os seus inimigos, mas também odiar os seus amigos.
 Mal corresponde ao mestre aquele que nunca passa de discípulo. E por que não quereis arrancar a minha coroa?
 Venerais-me! Mas, que sucederia se uma vez caísse a vossa veneração? Cuidado, não vos esmague uma estátua!
 Dizeis que creis em Zaratustra? Vós sois crentes em mim; mas, que importam todos os crentes?!
 Vós ainda vos haveis procurado; encontrastes-me então. Assim fazem todos os crentes: por isso a fé é tão pouca coisa.
 Agora vos mando que me percais e vos encontreis a vós mesmos; e só quando todos me houverdes renegado tornarei para vós.
 Em verdade, meus irmãos, então buscareis com outros olhos as minhas ovelhas desgarradas; eu vos amarei então com outro amor.
 E um dia devereis ser meus amigos e filhos de uma só esperança; então quero estar a vosso lado, pela terceira vez, para festejar
convosco o grande meio-dia.
 E o grande meio-dia será quando o homem estiver a meio do trajeto, entre a besta e o Super-homem, o célere, como sua esperança
suprema, o seu caminho para o ocaso: porque será o caminho para uma nova manhã.
 Então o que desaparece se abençoará a si mesmo, a fim de passar para o outro lado, e o sol do seu conhecimento estará no seu meio-dia.

 “Todos os deuses morreram; agora viva o Super-homem!” Seja esta, chegado o grande meio-dia, a vossa última vontade!”
 Assim falava Zaratustra.

SEGUNDA PARTE
ASSIM FALAVA ZARATUSTRA

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Assim Falava Zaratustra - Frederico Nietzsche

 “...e só quando todos me houverdes renegado, tornarei para vós.
 Em verdade, meus irmãos, então buscarei com outros olhos as minhas ovelhas desgarradas; eu vos amarei então com outro amor”.

 Da virtude dadivosa — III pág.
 ZARATUSTRA.

A CRIANÇA DO ESPELHO
 Depois disto Zaratustra tornou para a montanha e para a soledade da sua caverna, apartando-se dos homens. E esperou, como o
semeador que lançou a sua semente; mas a alma, se lhe encheu de impaciência e desejo do que amava, por que ainda tinha muitas coisas
que lhes dar. Que isto é o mais difícil: fechar por amor a mão aberta e conservar o pudor ao dar.
 Assim decorreram para o solitário meses e anos; mas a sua sabedoria aumentava e fazia-o padecer com a sua plenitude.
 Certa manhã, despertando antes de amanhecer, meditou por muito tempo na cama, e por fim disse consigo:
 “Assustei-me tanto a sonhar que acordei! Não se aproximou de mim uma criança que levava um espelho?
 “Zaratustra — disse ela — olha-te a este espelho!”
 Quando, porém, olhei para o espelho, soltei um grito e o coração deu-me um baque; porque não foi a mim que vi, mas a carranca
sarcástica de um demônio.
 Na verdade, compreendo demais o significado e a advertência do sonho: ia minha doutrina corre perigo; o joio quer chamar-se trigo.
 Os meus inimigos tornaram-se poderosos e desfiguraram a imagem da minha doutrina, a ponto de meus prediletos se envergonharem
dos dons que lhes fiz.
 Perdi os meus amigos! Chegou o momento de ir procurar os que perdi!”